Parte da economia mundial depende da droga, diz especialista

Aos 62 anos o desembargador Walter Maierovitch se alinha entre as pessoas que mais conhecem os bastidores do tráfico de drogas no País. Foi natural, portanto, que ocupasse pioneiramente o cargo de secretário da Secretaria Nacional Antidrogas, nomeado pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso, que criara o órgão no primeiro mandato. O profundo conhecimento do assunto levou Maierovitch para o patamar dos especialistas em crime organizado, já que os dois temas são intimamente ligados. Nessa condição ele é hoje consultor da União Europeia a respeito, dividindo seu tempo entre Roma, onde está assentada sua base na Europa, e São Paulo, onde mora. A propósito, sua vasta experiência está resumida no livro “Na linha de frente pela cidadania”, lançado pela Editora Michael em 2008. Além das atribuições referidas, Maierovitch preside o Instituto de Pesquisas Criminológicas Giovanni Falconi e mantém uma coluna semanal na revista “Carta Capital”.


Nesta entrevista, o desembargador propicia um impressionante roteiro pelos meandros das máfias internacionais, mostra que muitos países são dependentes da economia gerada pelo narcotráfico e critica a posição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de descriminalização da maconha (veja na pág. 14). Na sua opinião, enquanto no passado o argumento principal para a legalização dessa droga era a liberdade individual, hoje se fala em salvar economias com a cobrança de impostos.


Digesto Econômico – A sociedade vem perdendo a batalha contra as drogas. Qual a sua opinião sobre isso?


Walter Maierovitch – Pouca gente consegue entender a geopolítica e a geoestratégia das drogas. Se pensarmos em termos de geoeconomia, se numa pessoa a droga gera dependência, na economia ocorre fato semelhante. Temos países dependentes da economia movimentada pelas drogas, que tem participação importante no PIB. Se pegarmos, por exemplo, o Vale do Bekaa (Líbano) há mais de 400 mil pessoas envolvidas no plantio da erva canábica e na produção de derivados, como o haxixe e o óleo. A economia do Marrocos é dependente dessas atividades. Pouca gente se preocupa com este tipo de problema.


DE – Há maiores dados sobre isso? No Marrocos, que o senhor comentou, sabe-se qual a participação das drogas no PIB desse país?


WM- Evidentemente, os dados não são oficiais. O único número mais concreto que se tem até agora é o da Bolívia, estimado na época do falecido presidente Hugo Banzer, quando ele foi eleito (em 1997). A Bolívia é dividida em duas áreas, uma de plantio legal de coca e outra ilegal, que é o Chapare. Os americanos, junto com a ONU, fizeram uma primeira tentativa de cultivo substitutivo à coca. Eram programas em que o plantador de coca recebia a garantia de que, se ele plantasse milho ou outra coisa legal, ele teria seus produtos colocados no mercado. Pelo acordo, esse mercado seria a Argentina. Acho a proposta muito interessante e o mundo deveria insistir nisso. Não deu certo porque foi na época em que a Argentina quebrou. Os agricultores ficaram com a safra na mão. Para o programa de cultivo substitutivo é preciso ter garantias de que o produto será vendido e de preço mínimo.


Quando se fez este plano, que se chamou Plan Dignidad, o presidente Hugo Banzer concordou, mas com uma condição: os norteamericanos tiveram de cobrir o equivalente a 30% do PIB. Isso significava o quanto o negócio da coca movimentava. Ele precisou ter essa garantia, pois senão quebrava o país. Há também uma estimativa com dados do Banco Mundial e do FMI de que o mercado das drogas movimentaria de US$ 200 bilhões a US$ 400 bilhões dentro do sistema financeiro internacional. Imagine a crise se tirarem este montante do sistema financeiro.


Outro dado econômico: o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, apoia um processo de legalização da maconha. Para quê? Ele governa um Estado quebrado; ele quer garantir renda por meio de tributos. O ex-presidente George W. Bush bateu na porta da Suprema Corte para conseguir uma decisão de que era inconstitucional um Estado federado legislar sobre drogas, uma vez que a competência legislativa para assuntos de drogas é federal. Ele fez isso porque vários Estados legislaram, admitindo o uso terapêutico da maconha, condicionado a uma receita médica. Começou pela Califórnia. Houve um caso de uma senhora com um tumor na cabeça, com dores horríveis, que só era inibida quando ela fumava maconha. Hoje, nos EUA, já são oito Estados federados com essa legislação. O objetivo de Bush era quebrar essa legislação. Como a Suprema Corte foi chamada para decidir sobre a constitucionalidade, ela decidiu que a competência era federal, mas não disse que as legislações dos Estados eram inconstitucionais. O Bush ganhou, mas não levou. E o que fez o presidente Barack Obama há alguns meses? Ele determinou ao FBI para que não prendesse pessoas que fizessem uso terapêutico da maconha, pois o Bush havia determinado que essas pessoas fossem presas. Essa permissão de uso para fins terapêuticos do Obama está sendo vista como um primeiro passo para a liberação para uso lúdico. É o que se espera dele. Há 40 anos se discute a liberalização do uso da maconha, embora o (ex-presidente) Fernando Henrique tenha começado agora e ache que é iniciativa dele. Essa discussão foi retomada por Barack Obama e agora todo mundo fala disso.


O grande ponto que vejo aí, e com preocupação, é que não se está levantando aquela velha discussão de liberdade individual, do direito de autolesão – ninguém é condenado por tentar o suicídio ou por se automutilar, isso não é crime. O uso de droga é uma autolesão, não há dúvidas. E por que seria crime o uso de droga? Mas não é essa a discussão agora. O que se quer hoje é salvar as economias.


DE – Na sua opinião, o mundo pode prescindir do mercado de drogas?


WM- Se a movimentação chega a US$ 400 bilhões e há países dependentes, além de Estados que estão buscando fonte de renda na droga … Há 40 anos, o discurso era o da liberdade individual, hoje fala-se em salvação da economia. Isso é apresentado com a tese de legalização de drogas leves, no caso a maconha. Como se faz isso? O Estado teria o monopólio e estabeleceria o porcentual permitido de tetrahidrocanabinol (THC)


Veja o que aconteceu no pós-guerra, com economias quebradas. Em alguns países europeus, como a Itália, o que o Estado guardou para si? O monopólio do tabaco. Na Itália, nos lugares que vendem cigarros tem um “T”, de tabacachaio, na parede. Depois do tabaco entrou o sal e os selos. Notem como as coisas estão voltando.


Robert Galbraith/ Reuters


Há 40 anos se discute a liberalização do uso da maconha, embora o Fernando Henrique tenha começado agora e ache que é iniciativa dele


No Brasil, se discute o problema da droga como na porta de um bar, sem enxergar o contexto mundial. Muitas vezes a droga é usada como arma na geoestratégia. Todo ano o presidente dos EUA manda aquele relatório obrigatório para o Congresso – este ano entrou a Bolívia e a Venezuela, mas com a recomendação de não haver retaliação econômica, pois a legislação fala em retaliação. As empresas privadas ficam proibidas de investir em países que não colaboram com a luta antidrogas. Mas há quantos anos não entra a Birmânia (Myanmar), que é um narcoestado? A ditadura militar da Birmânia sempre protegeu o maior traficante de ópio e metanfetamina para a Ásia, que morreu no ano passado. Na África, a Guiné Equatorial é um narcoestado, que é diferente de Estado dependente.


Na Birmânia acontecem coisas absurdas. A Nobel da Paz (Aung Suu Kyi), filha de Aung San (heroi da independência birmanesa, assassinado em 1947), continua presa, agora em casa. Suu Kyi foi dada como violadora de obrigação de quem se encontra em prisão domiciliar, ou seja, permitiu a presença de um estranho em sua residência. Na verdade, tratava-se de um intruso, com problemas mentais, e que invadira a casa: William Yettaw – um americano de 53 anos de idade, ex-combatente na Guerra do Vietnã e que está aposentado por problemas mentais – resolveu atravessar o Lago Inya a nado e invadir a casa de Suu Kyi. E não se toma providência no mundo. A ONU ameaçou e nada. Qual é a força desse narcoestado? Deve ter uma força geopolítica extraordinária. Como se sustenta uma ditadura daquelas? É evidente que tem apoio. Quando o Tribunal Penal Internacional decretou a prisão do presidente do Zimbábue, a China e a Rússia apoiaram o presidente por interesses comerciais. Com a droga ocorre a mesma coisa. Na Nigéria, o ditador Sani Abacha era traficante de drogas, morreu de overdose de heroína. A droga esconde interesses geopolíticos, geoestratégicos e geoeconômicos. Então, discutir o problema da droga em cima da criminalização do usuário, que é um problema de saúde pública e não criminal – problema criminal é o traficante –, é uma hipocrisia, é superficial, beira conversa de tolos.


O que legitimou, por exemplo, (Felipe) Calderón, no México, após uma eleição fraudada? No dia seguinte à sua posse ele entrou na guerra contra as drogas, com todo apoio da população. Levou dinheiro do Plan Merida, de Bush. Hoje, a guerra contra as drogas mata civis, que são as grandes vítimas, e não traficantes. Sob a presidência de (Ernesto) Zedillo, aliado de Fernando Henrique e (César) Gaviria nessa tentativa de descriminalização da maconha, o México quebrou. Qual era a única indústria próspera do México quando ele quebrou? A indústria das drogas. O que sustenta os grandes cartéis de fronteira, onde entra droga e sai arma e vice-versa? Um grande interesse, que passa pelo crime organizado, às vezes dando sustentação a ditaduras, influenciando na política partidária, injetando dinheiro. É um quadro que não pode ser examinado à luz do usuário, que é uma peça menor. Dizer que não existiria o problema da droga se não existisse o usuário é estúpido. Se não existissem insumos químicos também não existiriam as drogas sintéticas. Por isso vamos acabar com a indústria químico-farmacêutica?


DE – Diante desse quadro tão terrível, em que há tantos interesses poderosos que sustentam a indústria das drogas, o senhor enxerga alguma solução?
WM- É lógico que há soluções. Essa tentativa de cultivo substitutivo é uma solução. Por que não vingou? Porque ninguém bancou? Quem é que hoje entra num programa desses se for colocado de novo no Chapare? O pessoal morreu com a safra na mão, pois a Argentina quebrou. Mas soluções existem!


Por que se lava dinheiro? Somente para deixá-lo limpo? Não, para que seja reinvestido em atividades formalmente lícitas. Foi isso que construiu Aruba, seus hotéis, turismo, jogos


Há diversas questões em jogo, inclusive culturais. O historiador Heródoto (484 antes de Cristo) conta a história de várias tribos que faziam uso de drogas, inclusive em cerimônias fúnebres. Homero (século 9 antes de Cristo) falava de uma droga para tirar dores dos navegantes. O primeiro estava falando da maconha e o segundo da heroína, do ópio.


Não se pode encontrar soluções sem tirar algumas armadilhas. O que são esses US$ 400 bilhões, vamos deixar por US$ 200 bilhões, dentro do sistema financeiro? Lavagem de dinheiro? Por que se lava dinheiro? Somente para deixá- lo limpo? Não, para que seja reinvestido em atividades formalmente lícitas. Foi isso que construiu Aruba (Caribe), seus hotéis, turismo, jogos. Então, o problema das drogas é extremamente complexo. Não é levantando a bandeira de liberar a droga que vamos acabar com o tráfico. Se é um problema de saúde pública, para liberar é preciso ter limites. O que faz o Canadá, que permite o uso terapêutico da maconha? O Canadá planta maconha e oferece. O que fez a Holanda para quebrar essa ligação traficante-usuário de droga leve? Abriu, em 1968, o Café Sarasani, que foi o primeiro a vender maconha a seus clientes para uso próprio dentro do estabelecimento. Qual foi a consequência disso? Iniciou-se um turismo contra o qual hoje provoca uma reação, principalmente em regiões de fronteira, às pessoas que vão lá comprar drogas. Há uma proposta do atual governo de acabar com o turismo da droga. E porque não acaba? O que garante o PIB do país? O que acontece se tirar esse turismo? Quem mexer perde a próxima eleição. São questões complexas, que exigem que sejam dados passos.


Vamos imaginar que aqui no Brasil o governo fique com o monopólio e estabeleça o porcentual de 18% de THC. Quem garante que não vão vender maconha com 20%, 40%? Quem vai fiscalizar? Em 1919, um filósofo holandês escreveu que o grande problema do jogo é quando aparece o banqueiro, o terceiro que vai explorar o jogo, que vai jogar com você com um porcentual maior. Qual o grande problema do jogo? Quem controla a aferição das máquinas? No monopólio de drogas, quem vai fiscalizar se tem tantos porcentos de THC? No tabaco, por exemplo, as indústrias já carregaram na nicotina e em outras substâncias.


DE – O tabaco movimenta mais dinheiro do que a droga?


WM- Não. No mundo inteiro houve redução no consumo de tabaco por causa das campanhas. Existe alguma campanha do governo federal sobre droga? Não tem nada, tem apoio, mas o governo não faz campanha. Este governo e o anterior têm posições semelhantes. Eles acham que se fizer campanha, isso vai despertar a curiosidade.


Em1998, houve uma Assembleia Geral das Nações Unidas para discutir a questão da droga, mais especificamente sobre a responsabilidade compartilhada entre os Estados. Os países de consumo diziam que o problema eram os países de produção, os países de produção diziam que se não houvesse consumo, não haveria produção. Estabeleceu-se nessa assembleia o princípio da responsabilidade compartilhada. O que ocorreu após 1998? Houve um movimento fora das Nações Unidas, em que várias pessoas, intelectuais, prepararam um documento contrário à política da ONU sobre drogas, e que não deveria mais haver a criminalização do usuário. Sabe quem assinou? O Lula, que era candidato à presidência da República. A lei que ele fez é pela descriminalização? Não, é para não ter pena de prisão, a despenalização, mas continua sendo crime. Eu estava lá, tenho esse documento, tem a assinatura do Lula. Isso mostra que às vezes há um jogo político, de interesses….


DE – O senhor tem dados sobre a situação do Brasil no contexto das drogas? O que se consome mais e o que vem crescendo?


WM – Deixei na Secretaria Antidroga um projeto de observatório. Isso começou agora e não tem dados concretos. Em regiões mais pobres, como no Norte, tem consumo até da merla (derivado da cocaína de baixo custo). Nas regiões mais ricas há o consumo de drogas sintéticas. A cocaína colombiana passa pelo Brasil, mas o que fica é a cocaína boliviana. Acoca é um produto andino – os maiores produtores são Peru, Colômbia e Bolívia. Trata- se de uma folha, de mascagem tradicional, necessária para o povo andino por causa da altitude. Mas a transformação da folha de coca em cloridrato de cocaína implica no uso de produtos químicos, como éter e acetona. A Colômbia, Peru e Bolívia têm indústrias químicas? Não. Eles só têm folha de coca. E como eles refinam? Ninguém fala sobre o tráfico de insumos químicos. Em qual país fica a maior indústria química da América Latina? No Brasil, no eixo Rio-São Paulo. Quem é o maior vendedor (de insumos químicos) para a Colômbia? Há três anos era Trinidad e Tobago, sendo que lá não tem nenhuma indústria química. A comercialização é feita por grandes indústrias multinacionais, com capital da Holanda, Estados Unidos etc., que entregam os insumos a Trinidad e Tobago.


DE – Neste caso, há uma falta de fiscalização do Estado. Não dá para dizer que a indústria química tem um relacionamento direto com o tráfico.


WM- A indústria vende para quem tem registro. Mas vá na Junta Comercial, verifique uma empresa química, pegue o endereço, o nome dos sócios e veja se acha um endereço ali registrado. Veja as alterações de contrato social. Quando se localiza um dos sócios, geralmente há uma alteração de contrato e ele alega que está fora disso há muitos anos. Não há fiscalização alguma. Quando o governador do Rio de Janeiro faz aquelas megaoperações contra o tráfico, isso é tudo pirotecnia. Alguém controla insumos químicos? Não é mais fácil controlar os insumos químicos do que combater com força armada? O México está fazendo isso e dando com os “burros n’água”.


A ONU, que teria de regular tudo isso, de quando é a convenção em vigor sobre drogas? De 1966, que é a Convenção de Nova York. Será que ela ainda tem atualidade? E por que ela não muda? Porque há necessidade de unanimidade. Pega um país islâmico e veja se ele quer mudar alguma coisa dessa convenção; é nela que eles encontram legitimação para impor a pena de morte a traficante.


DE – É verdade o que se conta de que no início os traficantes do Rio de Janeiro não deixavam entrar o crack no Estado por ser uma droga que mata rapidamente o usuário, que é o seu cliente?


WM- Isso é estória, está provado que é estória – de que os traficantes queriam preservar o mercado porque o crack mata. O crack demorou para chegar lá por condições de mercado.


O mercado consumidor do Rio começa na classe A e nos turistas. Quem é que vai entregar uma pedra de crack para um turista? Ele quer cocaína. Quando se populariza a cocaína, vem a pedra de crack, que é mais barata. Isso que falam é lenda. Desde quando um criminoso tem princípios éticos? A ideologia do crime organizado é o do lucro. Por que o crime organizado fornece bombas para o Bin Laden, fornece armas para terroristas? O negócio é lucro.


DE – O senhor disse que não há fiscalização. Por que isso ocorre?


WM – O Brasil não conhece o fenômeno das drogas.


DE – Isso em todos os níveis? O Congresso Nacional, Polícia Federal, Ministério Público, Presidência da República…


WM- Respondo essa pergunta citando um relatório de um ministro canadense. O Canadá tem um observatório, em que a polícia se gabou de ter feito apreensões recordes. Perguntaram para o ministro da Justiça desse país o que ele achava disso. Ele respondeu que essas apreensões têm a seguinte imagem: o governo resolve combater a vinda de álcool em determinado bar, faz a apreensão nesse bar, só que há centenas de outros bares em outros locais.


A imprensa deu recentemente que no Paraná a Polícia Federal fez a apreensão de uma tonelada de maconha do Paraguai, que há vários meses eles estavam apreendendo mensalmente um caminhão. Perguntaram para o delegado se ele sabia quem fornecia essas drogas, ele disse que não. É o caso do bar que fecha e há centenas de outros abertos. Uma tonelada não significa nada, pois continuam plantando e fornecendo, e com uma sofisticação – no Paraguai, a maconha é transgênica, como tem a coca transgênica, não se depende mais de clima. Quem vê na televisão acha uma tonelada muita coisa, mas faltou maconha na praça? Essa estratégia é conhecida. A Cosa Nostra, a máfia americana, estabelecia algumas apreensões para a polícia fazer, uma polícia corrompida, para gerar estatísticas.


DE – A fronteira do Brasil é uma peneira, toda vazada. Haveria locais mais vulneráveis por onde a droga entra no País? Fala-se muito de Foz do Iguaçu


WM- Esse argumento de que o Brasil tem uma fronteira enorme e, portanto, de difícil controle, é outra estupidez. O governo fala isso e a imprensa repercute. O crime organizado não sai do nada para atravessar a fronteira e entrar no mato. Ele precisa de estrada, de banco e de transporte. Basta ver os pontos de fronteira onde têm cidades, verificar a movimentação dos bancos nesses locais e se são compatíveis com a cidade. O Banco Central poderia fazer esse controle, mas não faz.


O crime organizado também precisa de estrada, de aeroporto, transporte. Na Tríplice Fronteira – Brasil, Peru e Colômbia –, ninguém sai da selva e entra na selva de novo. Ele precisa de cidade, de estrada, precisa distribuir isso. Então, não precisa controlar toda a fronteira, mas pontos que tenham esses recursos. Um outro exemplo: Tabatinga-Letícia, Colômbia- Brasil, uma cidade grudada na outra. Tem controle? Ali é uma fronteira de porta aberta. O Pablo Escobar operava lá com Evaristo Porras Ardila. Ali não tem controle nenhum. Do lado brasileiro não tem posto de gasolina, quem abrir vai à falência, pois basta atravessar a fronteira, que a gasolina é muito mais barata. O mesmo com a droga. O tráfico precisa de cidades, de bancos, ninguém carrega mala de dinheiro. Mas existe controle de movimentação de dinheiro?


Um outro problema é a falta de comunicação. A Polícia Federal da Amazônia se comunica com a Polícia Estadual de São Paulo? Ou as polícias estaduais dos dois Estados se comunicam? Se fizerem exames químicos e toxicológicos das apreensões de drogas, é possível saber os insumos utilizados, concluindo se é o mesmo traficante que está atuando em São Paulo e no Rio Grande do Norte, por exemplo. Mas isso não é feito. Hoje, o que se faz é uma planilha informando ao juiz que a mercadoria apreendida tem princípio ativo, então é droga, a prova da materialidade. O juiz precisa disso para condenar. Hoje, os laudos químicos toxicológicos atendem apenas uma necessidade processual.


DE – Com isso, seria possível fazer uma espécie de mapeamento da droga.


WM- Acho que deveria ter um trato profissional, científico. As pessoas se impressionaram com a apreensão de uma tonelada de maconha mostrada na televisão. Mas, pergunta para o delegado quem é que vendeu para quem estava transportando a droga. Onde ele estava se abastecendo no Paraguai? Ele não sabe. Existe cooperação internacional? Não.


Na Colômbia, antes eram grandes cartéis – Medelin, Cali, do Vale Norte, que pertencia ao Abadia –, hoje são cartelitos, mas a oferta continua exatamente igual. As áreas de plantio de coca também são iguais, segundo fotos de satélites, não no mesmo lugar, mas na mesma região. A Colômbia hoje responde por 80% da cocaína do mundo. Como eles conseguem colocar cocaína em qualquer parte do mundo?


DE – Para deixar clara a sua opinião, o senhor acha que não há interesse em fazer um combate sério contra as drogas, ou não se faz por ignorância?


WM- Quando falo em geoestratégia e geopolítica, falo da droga sendo utilizada para encobrir interesses. Se discutiu agora sobre as bases americanas para combate de drogas na Colômbia. Pense no Canal do Panamá, quando foi devolvido. Estamos falando de um período em que o ditador do Panamá, (Manuel) Noriega, estava preso. Quem foi ele? Um ex-agente da CIA que controlava o Panamá, defendia o interesse norte-americano, que mantinha nesse país um sistema bancário para lavagem de dinheiro, em que se abria conta corrente com nome de Pateta, Mickey Mouse. O Noriega lavava dinheiro do Pablo Escobar, por exemplo. Quando os Estados Unidos estavam prestes a devolver o Canal do Panamá, o Noriega é preso. São construídas em Aruba e Curaçao bases americanas para controle do narcotráfico. Depois em Iquitos, no Peru, e Manta, no Equador. Qual é a contribuição dessas bases em Aruba, Curaçao e Iquitos no combate às drogas e insumos químicos? Nenhuma. E qual será a contribuição dessas bases na Colômbia? Existe algum interesse geopolítico, geoestratégico em que a droga é usada.


DE – Pena de morte, como na China, trouxe algum resultado?


W M – A China, como o Irã, são governos totalitários, antidemocráticos, que de alguma forma querem ter total controle social. Qual é a forma mais intimidatória para combater o tráfico? Agora, quem eles estão matando: os verdadeiros narcotraficantes ou os vendedores de rua?


DE – Qual droga se consome na China?


WM – Metanfetaminas, que vem de Myanmar, ex-Birmânia, eles até mudaram o nome do país. São drogas sintéticas.


DE – O que os pais, as escolas, ONGs, igrejas etc., poderiam fazer para que os jovens não sejam tragados para esse submundo?


WM- Existe a prevenção ao uso, que começa na escola. Não há dúvidas de que a droga faz mal à saúde, como não há dúvidas quanto a possibilidade de se recuperar um usuário de drogas. E existe a prevenção ao tráfico. São coisas completamente diferentes. O primeiro significa educação, programas educativos nas escolas, a criação de uma cultura antidroga. A prevenção contra o tráfico implica na verificação de riquezas sem causas, as observações nas esquinas. A repressão é a apreensão. Quem tem de fazer a prevenção ao uso são os professores, os pais. Mas quem faz isso no Brasil? A Polícia Militar, que tem um programa para isso. Mas a polícia tem de fazer prevenção ao tráfico, olhar porta de escola, movimentação de festa, boate, balada. Falta no Brasil uma política antidroga adequada, com real conhecimento do fenômeno das drogas; e uma separação bem nítida, em que a questão criminal é do traficante, ao passo que a do usuário é sócio-sanitária.


DE – Há algum estudo sobre o custo social da droga?


WM- Sim, há uma estimativa feita pelo Canadá, um estudo muito sério com 50 indicadores, por exemplo, redução de capacidade elaborativa, morte por overdose, corrupção policial, dinheiro da droga na política partidária etc. Quanto custa para a sociedade o problema da droga? Segundo o estudo canadense, o montante variou de 4% a 6% do PIB.


                                                                                                FIM


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

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