A política tarifária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não alcançou os objetivos anunciados pelo governo: estimular a indústria nacional, criar empregos e reduzir o déficit comercial.
Em vez disso, elevou os custos de produção, pressionou os preços e aumentou a incerteza para empresas e parceiros comerciais. Para a economista Anne O. Krueger, o fracasso da estratégia pode abrir caminho para uma retomada do livre comércio.
Em artigo publicado no Project Syndicate, a ex-economista-chefe do Banco Mundial e ex-vice-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) afirma que Trump aprofundou o enfraquecimento do sistema multilateral de comércio construído após a Segunda Guerra Mundial.
Desde seu retorno à Casa Branca, o presidente impôs tarifas a dezenas de países, com alterações frequentes nas alíquotas e nos produtos atingidos.
As medidas beneficiaram alguns setores, mas prejudicaram outros. A tarifa de 50% sobre o aço importado, por exemplo, contribuiu para uma alta de 52% no preço médio do aço laminado a quente nos Estados Unidos em um ano, favorecendo siderúrgicas, mas elevando os custos de fabricantes de automóveis, máquinas agrícolas e eletrodomésticos.
Tarifas elevam custos, mas não reduzem déficit
Os efeitos chegaram aos consumidores. Segundo os dados apresentados por Krueger, a gasolina subiu 34%, o óleo combustível aumentou 74%, os softwares de computador ficaram 28% mais caros e as passagens aéreas registraram alta de 22%.
O déficit comercial americano também permaneceu elevado. Em agosto, o saldo negativo nas trocas de bens chegou a US$ 114,7 bilhões. Embora o déficit com a China tenha diminuído 32%, as importações de outros países compensaram a redução. Em 2025, o déficit comercial de bens alcançou US$ 1,2 trilhão.
A promessa de recuperação do emprego industrial tampouco se concretizou. O setor perdeu 0,7% dos postos de trabalho em 2024 e outros 1,2% em 2025. Parceiros comerciais dos Estados Unidos também foram prejudicados, incluindo Canadá, México, Austrália e Reino Unido, enquanto empresas passaram a enfrentar dificuldades para planejar investimentos diante das mudanças frequentes nas regras tarifárias.
Para Krueger, o problema é estrutural: tarifas não corrigem os desequilíbrios entre produção, consumo e poupança de um país. Restringir importações de um parceiro comercial pode apenas deslocar as compras para outros fornecedores, sem eliminar o déficit externo.
Comércio mundial resiste e pressão eleitoral pode mudar cenário
Apesar das tensões, o comércio internacional apresentou desempenho melhor do que o esperado. A maioria dos países evitou responder às tarifas americanas com medidas equivalentes, limitando o risco de uma escalada protecionista.
O FMI revisou sua projeção de crescimento mundial para 2026 de 3% para 3,1%. Já a Organização Mundial do Comércio (OMC) mais que dobrou a estimativa de expansão do comércio internacional neste ano, de 1,9% para 3,9%.
Na avaliação de Krueger, a resistência do comércio global e a impopularidade das tarifas entre os eleitores americanos podem favorecer uma mudança de direção – e as eleições de meio de mandato, realizadas nesta terça-feira (3), também podem aumentar a pressão sobre os republicanos para evitar novos aumentos tarifários.
A economista considera que uma eventual redução das tarifas poderia iniciar um ciclo positivo, com alívio sobre os preços, menor incerteza para as empresas e recuperação dos investimentos. O recuo do protecionismo americano, nesse cenário, representaria uma oportunidade para fortalecer novamente a cooperação comercial internacional.
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