5 de junho de 2026

Horizontes da integração latino-americana, por Luiz Inácio Lula da Silva

A volta de Michelle Bachelet à presidência do Chile é um fato muito auspicioso para a América do Sul e toda a América Latina. As notáveis qualidades humanas e políticas que ela demonstrou em seu primeiro governo e, posteriormente, no comando da ONU Mulheres, a entidade das Nações Unidas para igualdade de gênero, conferiram-lhe um merecido prestígio nacional e internacional. Sua liderança – ao mesmo tempo firme e agregadora – e o seu compromisso de vida com a liberdade e a justiça social, fazem de Bachelet uma referência importante em nosso continente.
 
A consagradora vitória que acaba de obter revela também que o povo chileno, tal como os outros povos da região, anseia por um verdadeiro desenvolvimento, capaz de combinar o econômico e o social, a expansão das riquezas com a sua equitativa distribuição, a modernização tecnológica com a redução das desigualdades e a universalização de direitos. E reivindica, além disso, uma democracia cada vez mais participativa.
 
Por outro lado, a eleição de Bachelet inegavelmente reforça o processo de integração sul-americana e latino-americana, na medida em que sempre apoiou com entusiasmo as iniciativas voltadas para o desenvolvimento compartilhado e a unidade política da região. Basta lembrar a sua contribuição decisiva para a criação e consolidação da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), da qual foi a primeira presidente, e para a constituição da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC). Aliás, nunca houve na América Latina tantos governantes comprometidos com esse processo.
 
Estive no Chile durante o segundo turno das eleições justamente para debater as perspectivas da integração, participando de um seminário internacional promovido pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) e o Instituto Lula.
 
Durante dois dias, 120 lideranças politicas, sociais e intelectuais dos nossos países fizeram um diagnóstico atualizado e debateram uma agenda concreta para o desenvolvimento e a integração regional.
 
Discutiu-se francamente a inserção da América Latina na economia mundial; a arquitetura político-institucional da integração; o papel das políticas sociais, especialmente no combate à pobreza; as cadeias produtivas supra-nacionais; as empresas translatinas; as conexões físicas e energéticas; a cooperação financeira e os mecanismos de investimento; os direitos humanos e laborais; a defesa do patrimônio ambiental e da diversidade cultural.
 
Há um grande consenso sobre a necessidade da integração, que interessa na prática a todos os nossos povos e países, independentemente da coloração ideológica dos respectivos governos. As diversas regiões do mundo estão se integrando e constituindo blocos econômicos e políticos, e não faria sentido que apenas a América Latina e o Caribe deixassem de unir-se. Nossos países viveram secularmente de costas uns para os outros e todos sabemos o quanto isso foi nefasto em termos de fragilidade geopolítica e de atraso socioeconômico. Não se trata de um movimento contra os países desenvolvidos, com os quais queremos incrementar nosso intercâmbio em todos os níveis, mas de legítima afirmação da nossa própria região. O aprofundamento da integração latino-americana – política, cultural, social, de infraestrutura, de mercados – é um caminho natural e lógico, destinado a aproveitar a nossa proximidade territorial e cultural e as nossas vantagens comparativas. Sem falar que, juntos, seguramente teremos mais força para garantir nossos direitos no âmbito global.
 
É opinião geral que, na última década, tivemos conquistas extraordinárias em matéria de parcerias e cooperação. Aumentou a confiança e o diálogo substantivo entre os nossos países, sem o que não se conseguiria criar a UNASUL e a CELAC. Mas as relações econômicas também se expandiram consideravelmente. O comércio, por exemplo, cresceu de modo impressionante. Em 2002, segundo a CEPAL, o fluxo total do comércio intra-regional na América do Sul era de U$33 bilhões; em 2011, já havia atingido os U$ 135 bilhões. No mesmo período, o fluxo no conjunto da América Latina passou de U$ 49 bilhões para U$ 189 bilhões. E o seu horizonte de crescimento é enorme, pois somos um mercado de 400 milhões de pessoas e até agora só exploramos uma pequena parte do nosso potencial de trocas.
 
O mesmo acontece com os investimentos produtivos. As empresas da região estão se internacionalizando e investindo nos países vizinhos. No caso brasileiro, tínhamos poucos investimentos industriais na América Latina. Hoje, são centenas de plantas, em mais de 20 países. E a recíproca, felizmente, é verdadeira: existe um número crescente de empresas argentinas, mexicanas, chilenas, colombianas e peruanas, entre outras, produzindo no Brasil para o mercado brasileiro.
 
É evidente, no entanto, que precisamos avançar muito mais. Devemos acelerar a integração, que pode ser mais profunda e abrangente. Para isso, com certeza, não bastam as visões de curto prazo. Tenho dito que necessitamos de um pensamento realmente estratégico, capaz de encarar os desafios da integração na perspectiva do futuro, dando-lhes respostas corajosas e inovadoras. Temos que ir, igualmente, além dos governos, por fundamentais que eles sejam. A integração é uma bela empreitada histórica que só se concretizará plenamente se lograrmos comprometer toda a sociedade civil dos nossos países, os sindicatos, os empresários, as universidades, as igrejas, a juventude.
 
É imprescindível construir uma vontade popular de integração. O principal é que todos compreendam o quanto podemos ganhar coletivamente na economia, na soberania política, na igualdade social, no desenvolvimento cultural e científico com a associação dos nossos destinos.
 
 

Redação

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  1. Orlando

    30 de dezembro de 2013 12:58 pm

    Os chilenos estão mais

    Os chilenos estão mais preocupados com o Chile, e os problemas do Chile, e não com a integração da América do Sul. Se não, o Chile, não teria assiando um tratado bilateral de comércio com os EUA.

    Lula falou besteira.

    1. Amancio

      30 de dezembro de 2013 1:08 pm

      Acho que não…

      Vc se esqueceu que o governo anterior do Chile era pró-EUA, e a Bachelet recém-eleita representa a oposição ao governo anterior. Portanto…

      1. Orlando

        30 de dezembro de 2013 2:43 pm

        Mesmo sendo “oposição” ao

        Mesmo sendo “oposição” ao governo dos EUA, ela não vai romper um acordo feito pelo governo anterior. Em especial, um acordo econômico que, afinal, é benéfico para o Chile. E mesmo antes do acordo Bachelet, que já foi presidente do Chile,não quis aderir ao Mercosul – mesmo sendo, a Bachelet, de “esquerda”. Ao contrário do Lula, Bachelet, deve escolher o bom senso: um bom gerenciamento econômico deve, desde sempre, se sobrepor à ideologia. Levando, sózinho, a bandeira do Mercosul o Brasil, não raro, só leva prejuízos dos “parceiros”: Argentina, Bolívia, Venezuela e outros. Na verdade, o Mercssul é um natimorto. 

        1. sergio g

          30 de dezembro de 2013 3:38 pm

          Vida longa.

          Um “natimorto” que fará em breve 14 anos.

          E o Chile, país soberano, pode fazer os acordos econômicos, culturais e etc que quiser.

          Seria idiotice pensar que a construção dum mercado comum se desse sem problemas, sem retrocessos e penosos avanços.

          Como diz o texto, os países que buscam a integração, sempre estiveram de costas um para o outro, fazendo o jogo dos poderosos, ficando numa situação de submissão e exploração. Reverter isso, leva tempo e trabalho duro.

          Vide a União Européia, e as viscissitudes que enfrentou e enfrenta, mesmo tendo países desenvolvidos e uma longa história.

          O Mercosul precisa do Chile e vice-versa.

          Assim como diz tb o texto, a America Latina precisa dos mercdos desenvolvidos, e negociando em bloco, as vantagens são evidentes, mas é bom observar, que participar do Mercosul não implica em perda de soberania.

          Portanto, cada país toma suas decisões a seu talante.

          Se a tomada de decição porventura implicar em erro histórico, isso é um problema de cada um.

          Contudo, tomar decisões em bloco, creio eu, diminui as desvantagens sem evidentemente eliminá-las e soma as vantagens.

           

          1. sergio g

            30 de dezembro de 2013 3:42 pm

            Errei a idade.

            24 anos.

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