O professor José Pastore é um especialista em trabalho com um preconceito invencível contra trabalhador. Lembro-me da abertura da economia, nos anos 90. Pastore alertando para a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, fruto da baixa escolaridade.
Na época, eu conversava com executivos de empresas francesas, suiças, coreanas, e todos eles enalteciam a criatividade do trabalhador brasileiro. De Carlos Salles, CEO da Xerox do Brasil, ouvi maravilhas. Durante dois anos seguidos, a Xerox do Brasil venceu nas 5 categorias de eficiência da Xerox mundial. Graças à versatilidade do trabalhador brasileiro, me dizia Salles. Conferi com o diretor de Recursos Humanos da Mercedes. Um departamento de mecânico foi digitalizado. Em um mês, os metalúrgicos que tornaram-se trabalhadores digitais conseguiram uma produtividade superior à dos colegas alemães, mesmo grande parte deles não tendo sequer o ginásio.
Dia desses, Pastore comparou funcionários brasileiros de bar com americanos, para reforçar seu preconceito contra o trabalhador brasileiro. Como nunca colocou os pés em uma empresa, não sabe o óbvio: maior ou menor produtividade depende fundamentalmente do modelo de gestão. Hoje em dia, a maior parte de bares e restaurantes de São Paulo possuem funcionários colhendo pedidos e fazendo cobranças em celulares programados. Se isso não for aumento de produtividade, o que seria?
Com pesquisas por IA, vamos aos estudos acadêmicos sérios sobre a questão.
A força de trabalho brasileira foi a parte da equação que mais avançou nas últimas duas décadas. O que estagnou foi tudo o que está ao redor dela: máquina, tecnologia, estrutura produtiva e instituições.
Painel analítico · séries FGV-IBRE / Observatório da Produtividade Regis Bonelli, IBGE/PNAD Contínua, The Conference Board e AEB.

O paradoxo: a qualificação subiu, a produtividade não acompanhou
Se o gargalo fosse a “qualidade do trabalhador”, escolaridade crescente deveria puxar a produtividade. Ela cresceu — e a produtividade ficou praticamente parada. O capital humano foi o componente que mais avançou desde 1995; sem ele, o resultado agregado teria sido pior.

A oferta de mão de obra fez a sua parte. A demanda — empregos qualitativamente melhores — não apareceu na mesma proporção, gerando até sobrequalificação.
Fontes: escolaridade e ensino superior — IBGE/PNAD Contínua. Produtividade do trabalho — FGV-IBRE (crescimento de ~0,3% a.a. entre 2010–2023). Índice de produtividade estilizado para refletir a quase estagnação documentada; pontos de escolaridade são valores observados.
A mesma força de trabalho, três resultados opostos
O argumento mais limpo contra a tese da culpa individual: em 2025, é o mesmo trabalhador brasileiro em todos os setores. A produtividade disparou no agro e recuou na indústria e nos serviços — que respondem por mais de 90% das horas trabalhadas. O que difere não é a mão de obra: é o capital, a tecnologia e a inserção de cada setor.

Um problema de “qualidade do trabalhador” não consegue render num setor e desabar em dois outros que empregam a mesma população.
Fonte: FGV-IBRE / Observatório da Produtividade Regis Bonelli (variação da produtividade do trabalho, 2025).
Decomposição: onde o motor falha
A produtividade do trabalho resulta de três fatores. A direção de cada um localiza o problema longe de quem trabalha.
LEITURA QUALITATIVA — DIREÇÕES SEGUNDO FGV-IBRE, SEM MAGNITUDES OFICIAIS

Fonte: FGV-IBRE / Observatório da Produtividade Regis Bonelli (decomposição da produtividade do trabalho). Representação direcional: as setas indicam o sentido documentado de cada componente, não percentuais de contribuição.
Regressão relativa: o fosso com os EUA voltou ao nível dos anos 1950
Não é estagnação — é recuo. No período em que o trabalhador mais se qualificou, a produtividade brasileira caiu pela metade em relação à norte-americana, voltando ao patamar de sete décadas atrás.

Hoje o trabalhador brasileiro leva uma hora para produzir o que um americano faz em 15 minutos.
Fonte: The Conference Board, via AEB. Pontos documentados: anos 1980 (≈46%) e 2024 (25,6%). A trajetória entre eles é estilizada para representar a tendência de queda, não dados anuais.
O Brasil ficou para trás de quase todos
Crescimento acumulado da produção por trabalhador em cerca de duas décadas. O Brasil só superou a média da América Latina e do Caribe.

Países emergentes multiplicaram a produtividade por mais de duas vezes; o Brasil mal saiu do lugar.
Fonte: compilação a partir de dados de produção por trabalhador (≈ últimas duas décadas até o fim dos anos 2010). Valores ilustram a ordem de grandeza do descolamento; metodologias diferem entre blocos.
A economia política da culpa
A expressão “qualidade do trabalhador” opera como deslocamento de responsabilidade: transfere para o indivíduo — e, no limite, para a folha salarial — um déficit que é de investimento, política industrial e instituições. É funcional. Justifica compressão salarial e flexibilização, ao mesmo tempo em que dispensa o capital de explicar por que a participação do país no comércio mundial é a mesma da década de 1980. Ressalva honesta: há um problema real de qualidade do ensino — anos de escola não equivalem a aprendizado efetivo. Mas isso é responsabilidade do sistema, não “qualidade do trabalhador” — e, ainda assim, secundário diante de um capital físico travado e de uma PTF em queda.
Séries e indicadores: FGV-IBRE / Observatório da Produtividade Regis Bonelli; IBGE / PNAD Contínua (escolaridade, ensino superior, informalidade, variação setorial); The Conference Board e Associação de Comércio Exterior do Brasil (comparação Brasil × EUA). Pontos marcados como “estilizados” ou “ilustrativos” representam tendências documentadas, não dados anuais oficiais — sinalização adotada para preservar a separação entre fato medido e leitura analítica.
LEIA TAMBÉM:
José
29 de maio de 2026 9:27 pmEsse senhor é consultor patronal. É pago para defender e argumentar a favor dos interesses patronais, só isso. Não é isento nem honesto, tem lado.
Atlas Thiago
29 de maio de 2026 11:29 pmEscolaridade não é inteligência. O trabalhador brasileiro é altamente inteligente, criativo, resolve problemas, tem inteligencia emocional e relacional para lidar com o cliente. O que derruba a produtividade é a coisa que nunca muda no Brasil: os baixíssimos salários.
O trabalhador europeu tem alta escolaridade, baixa inteligência. Não sabe fazer nada fora do que foi ensinado, depende de manual pra tudo, não sabe resolver problemas, ter iniciativa, conquistar o cliente. Mas o trabalhador de lanchonete, caixa de mercado, ganha o mesmo que a classe média qualificada do Brasil. Aí é bem verdade que eles são mais focados, não ficam de conversa paralela mexendo no celular e inventando desculpa pra faltar e chegar atrasado. Isso é porque ele é respeitado e remunerado para levar seu trabalho a sério.
Quem paga mal, recebe mal serviço. Não tem a ver com escolaridade.
Rafael
30 de maio de 2026 9:44 amUm assunto fora da pauta específica do trabalho, mas que abrange essa questão dentro de um aspecto mais amplo.
Formação de uma maioria política (com liberais e desenvolvimentistas) > desenvolvimento do Brasil > macroeconomia e o papel do Estado > plano de metas > reformas estruturais….
Aqui está um bom debate que vale a pena aprofundar:
A TAXA DE JUROS NO BRASIL É UM ESCÁRNIO? – ANDRÉ LARA RESENDE
https://www.youtube.com/watch?v=I0EIj0gv4_E
– Concentração do poder financeiro.
Rui Ribeiro
30 de maio de 2026 10:27 amPastore fingecestar preocupado com a sirte do trabalhador mas ele tá preocupado combos lucroscdisccaputalistas:
“Preocupação real com os salários?: Se a preocupação fosse genuína com o trabalhador, o debate seria como reorganizar a produção para garantir renda, lazer e saúde. Mas o argumento de Pastore parte da ótica empresarial: manter a jornada longa para não reduzir margens. Ele coloca o lucro como dado inquestionável e o trabalho como custo a ser minimizado. Isso é ideológico, não científico.
Conclusão: A proposta do fim da escala 6×1 não deve ser analisada apenas pelo impacto contábil imediato, mas por seus efeitos na qualidade de vida, na distribuição de renda, na produtividade e no poder de barganha dos trabalhadores. Se as margens de lucro são altas, como você observou, há espaço para negociação. O “desastre social” pode ser exatamente o contrário: manter a escala 6×1, com seus efeitos na saúde mental, acidentes de trabalho, desgaste familiar e baixa produtividade a longo prazo. Pastore representa uma visão conservadora que naturaliza a exploração como necessária. A ciência social crítica, ao contrário, mostra que outras organizações do trabalho são possíveis e desejáveis.
Jicxjo
30 de maio de 2026 7:47 pmNesta semana, por ocasião da votação do fim da escala 6×1, muito se ouviu em ambientes de trabalho Brasil afora esse novo senso comum midiático, da tal “ineficiência” do trabalhador brasileiro. Ousei discordar da turma, e disse-lhes exatamente isso: o maior problema é de gestão ineficiente, com despreparo, personalismos e modinhas, seguido por falta de investimentos produtivos, devido à asfixia causada pela SELIC eternamente alta. E que o mesmo também se aplica de certo modo ao serviço público: mesmo em orgãos com concursos difíceis e com elevadas remunerações, com servidores altamente capacitados, os desempenhos administrativos costumam ser sofríveis, tanto em razão de gestões amadoras e politiqueiras, quanto em razão de cortes arbitrários no orçamento, impactando projetos, sonegando instrumentos, tudo para gerar superávit primário e tentar mitigar o rombo provocado pela taxa de juros nas contas públicas.
Rui Ribeiro
1 de junho de 2026 8:18 amFim da escala 6×1 com transição curta ‘é inviável’, diz dono de pizzaria: ‘Como eu faço para ter um novo chef em 60 dias?’
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx21k4wqnk6o
“O Proprietário da cantina e pizzaria Don Romano, com três unidades em Brasília, o empresário Wesley Moreira diz que “não está acreditando” no prazo de 60 dias estabelecido para o fim da escala 6×1, como prevê a proposta aprovada na Câmara dos Deputados. Segundo ele, é “inviável” adaptar seu negócio em um “prazo tão curto”.
Parece que o empresário acima acabou de se pós-graduar na Faculdade do Luciano Huck: “Na sua percepção, beneficiários de programas sociais evitam trabalhos com vínculo formal para não perder o benefício. Ele diz que desde janeiro tenta ampliar os empregados das três unidades, para se antecipar a esperada redução de jornada pelo Congresso, mas não tem conseguido preencher as vagas”.
“Para Moreira, que também atua como diretor da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Distrito Federal, o fim da escala 6×1 vai pressionar os custos de produção, ampliar o endividamento das pequenas empresas e causar uma onda de fechamento de negócios”
O Sr. Moreira não sabe ou esqueceu que a manutenção da escala de trabalho 6×1 reduziu os custos de produção durante muitos anos. Ora, reduzir custos de produção enquanto a produtividade do trabalho se eleva, significa em elevação da margem de lucro.
Conforme o empresário acima, “as redes maiores vão segurar preço através de negociação. Só que o pequeno, quando ele falar isso pro fornecedor dele, vai receber uma fala assim ‘amigão, sinto lhe informar, mas eu não consigo te atender porque você compra menos de meio por cento do que eu vendo no mês”.
“Esse cara vai perder esse fornecedor, vai buscar outro, vai estar mais caro, vai só se endividar, vai ter fechamento de empresas, mais demissões”.
O que esses empresários que vivem chorando de barriga cheia não enxergam ou fingem não enxergar: Que mais contratações aumentarão a procura por seus produtos e serviços e isso poderá mais do que compensar a possível redução da taxa de lucro dos empresários.
Argumentos que apoiam a crítica ao empresário: Aumento do consumo: O corte da jornada gera mais tempo livre. Trabalhadores com mais lazer gastam mais em comércio e restaurantes. Isso injeta dinheiro na economia e eleva o faturamento das empresas.
Ganho de produtividade: Funcionários descansados produzem mais e cometem menos erros. O cansaço extremo da jornada 6×1 reduz a eficiência.
Histórico de lucros: A manutenção de jornadas longas segurou os custos operacionais por décadas. Isso permitiu a consolidação de margens de lucro baseadas em custos trabalhistas baixos.