O programa econômico do presidente argentino Javier Milei reduziu a inflação, mas agravou as condições de vida da população e ampliou a dependência financeira externa do país.
Essa é a avaliação da economista brasileira Laura Carvalho, do ex-ministro da Economia argentino Martín Guzmán e do Nobel de Economia Joseph Stiglitz, em artigo publicado pelo Project Syndicate, onde analisam os resultados da política argentina diante da proposta de Flávio Bolsonaro de adotar Milei como referência econômica para o Brasil.
Segundo os economistas, a inflação argentina caiu para 33,5% em 12 meses, mas o resultado veio acompanhado de perda de renda, deterioração do mercado de trabalho e retração da atividade econômica. Desde o início do governo Milei, os salários reais recuaram 8%, enquanto o desemprego subiu de 5,7% para 7,9%.
A inadimplência das famílias também atingiu níveis recordes: 12,8% dos empréstimos bancários estavam em atraso, ante 4,5% um ano antes. O índice representa cerca de 6 milhões de argentinos. Ao mesmo tempo, o investimento caiu 11,1% no segundo trimestre, na comparação anual, e o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,6% em relação ao trimestre anterior.
Ajuste fiscal e dependência externa
O programa de Milei combinou cortes de gastos públicos, redução de impostos para os mais ricos, incentivos a grandes investimentos e uso do câmbio como instrumento de combate à inflação. O ajuste fiscal atingiu áreas como infraestrutura, ciência e universidades públicas, enquanto a inflação corroeu o valor real de aposentadorias e salários do funcionalismo.
Os autores destacam que a sustentação do peso argentino dependeu de recursos externos, incluindo novos empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e uma intervenção do Tesouro dos Estados Unidos para apoiar a moeda. Com a dívida junto ao Fundo chegando a US$ 57 bilhões, a Argentina enfrenta dificuldades para cumprir o cronograma de pagamentos e pode permanecer dependente do organismo por anos.
Na avaliação dos economistas, essa vulnerabilidade limita a autonomia econômica do país. Eles argumentam que a redução da inflação, embora represente um avanço parcial, não compensou os custos sociais e produtivos do programa.
Brasil enfrenta outro cenário
Carvalho, Guzmán e Stiglitz ressaltam que as condições brasileiras são diferentes das argentinas quando Milei assumiu a Presidência, em dezembro de 2023. Naquele ano, a inflação da Argentina chegou a 211%, enquanto a brasileira estava em torno de 4,2% no cenário descrito pelo artigo.
Para os autores, o desafio brasileiro é elevar a renda real dos trabalhadores, criar empregos de melhor qualidade e reduzir os juros, de modo a estabilizar a dívida pública e ampliar o investimento produtivo. Eles observam que o peso dos juros sobre as contas públicas brasileiras é um fator central da restrição fiscal, diferentemente do quadro argentino.
O Brasil quitou sua dívida com o FMI em 2005 e não voltou a recorrer ao organismo desde então. Os economistas defendem a preservação dessa autonomia e uma estratégia de desenvolvimento baseada na diversificação produtiva e na inovação, em vez de maior dependência de commodities e financiamento externo.
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