Olimpíadas como Exercício de Economia comparada
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Findas as Olimpíadas de Tóquio, apresentados resultados oficiais com que já ão há unanimidade, cabe propor um método de classificação que leve em consideração o número de medalhas de todos os metais, a população de cada país e, principalmente, o Índice de Desenvolvimento Humano. Hoje, computam-se somente as medalhas de ouro, ficando as demais para desempate, como se não houvesse esforço algum dos participantes que as obtiveram. Ao mesmo tempo, põe-se no mesmo cômputo a China, com seus mais de 1,4 bilhões de habitantes, e Bermudas, com apenas 62 mil. Também se releva o fato de um país com IDH de 0,991 ter muito mais condições de treinar seus atletas do que um que nem sequer chegue aos 0,5, podendo-se considerar miserável. Então, paira a dúvida sobre, considerando-se as diferenças, quem terá ganho as olimpíadas – se é que “ganhar” seja um bom termo?
Há casos fortuitos, quando um atleta excepcional compete por um país com absoluta desvantagem. Por mais que o esforço deva ser enaltecido, não se pode afirmar que se trata de uma nação com potencial esportivo permanente. Aliás, muitos desses atletas nacionalizam-se em outros países para poder competir, ou porque, nos de nascimento, não teriam nível para serem convocados, ou porque, no país de acolhimento, as condições são melhores, o que parece ser o caso de San Marino. Neste trabalho, não se consideraram as nacionalizações, intensivamente praticadas por países como os estados Unidos, o que, fatalmente, alteraria os resultados. Outro inconveniente é que esportes nacionais de muitos países não são olímpicos como, por exemplo, o cricket e o polo a cavalo, largamente praticados na Índia e, talvez, isso tenha-lhe provocado resultado tão decepcionante. Ressalte-se que o número de medalhas é finito, de sorte que jamais existirá proporcionalidade nos resultados.
O algoritmo usado para os cálculos da planilha anexa foi HM = HT x IDH / MC, onde HM representa habitantes por medalha obtida, HT é o número estimado pela ONU para 2020, IDH é o Índice de Desenvolvimento Humano para o mesmo ano e MC é o número corrigido de medalhas. Para a correção do número de medalhas, atribuiu-se 3 para as de ouro, 2 para as de prata e 1 para as de bronze. Assim, quanto maior for o número de habitantes por medalha, menor é a eficiência esportiva do país, escoimando-se, naturalmente, o que for fortuito. Bermudas, com seu único ouro, atingiu 20.365 habitantes por medalha, ficando, virtualmente, em 2º lugar; enquanto os Estados Unidos, anunciados como vencedores, atingiram 1.322.940 habitantes por medalha, ficando na 56ª posição. Inegável é a eficiência de países como Nova Zelândia, com seus 112.237 habitantes por medalha, o que se vem repetindo jogos a jogos. O mesmo se pode afirmar acerca da Austrália e do reino Unido, ao passo que os países menores do norte europeu ficam todos na casa dos 200.000 habitantes por medalha. Cuba que, enquanto tinha o apoio da extinta União Soviética, era indubitavelmente o maior destaque, decaiu muito nos últimos trinta anos, mesmo assim, continua surpreendente com rendimento semelhante ao da Austrália e, de acordo com os números, cinco vezes melhor que o apresentado pelos americanos.
O Brasil, com pouco menos de quatro milhões de habitantes por medalha obtida, ficou atrás de Cuba (277 mil h/m) e Venezuela (2.246.439
h/m), à frente da China, com seus 5.481.452 h/m e muito adiante da Índia, com mais de oitenta milhões de habitantes por medalha. Argentina (9.547.607 h/m) e México 25.109.654 h/m) podem ter sido a maior decepção dos jogos. A sugestão é baixar a planilha e brincar com as classificações, obtendo resultados surpreendentes como o fato de, classificando-se pelo número corrigido de medalhas, apenas 20% dos países mantiveram suas posições.
Note-se que, dos noventa e dois “medalhados”, apenas doze não têm IDH abaixo de 0,7, confirmando a importância mútua do esporte e da qualidade de vida. Temos um longo caminho pela frente depois de recuperarmos o Brasil para os brasileiros pois, como os dados comprovam, a subserviência aos interesses estrangeiros não melhora a vida do cidadão comum.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.
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