Foto: Ludmilla Teixeira nas manifestações do #EleNão e Marielle Franco, assassinada pela milícia do Rio

Por Duda Cambraia*

Estagiária sob supervisão

Jornal GGN – A criação do grupo “Mulheres Unidas Contra o Bolsonaro (MUCB)” completa quase três anos e ainda deixa marcas nas ruas e em suas organizadoras. Até hoje, Ludmilla Teixeira, fundadora do grupo do Facebook, e Maíra Motta, uma das membras do movimento, relatam o medo de ter o mesmo destino que Marielle Franco ao continuar na trincheira contra Jair Bolsonaro.

Na militância, ainda se usa jargões criados pelo grupo, como o “Ele Não”, visto em protestos contra o presidente Jair Bolsonaro nos dias de hoje. Em 29 de maio de 2021, os manifestantes voltaram às ruas pela primeira vez depois da pandemia, revoltados contra as denúncias de corrupção, a negligência nas compras das vacinas e o desmonte da saúde e da educação, cenário que o grupo “Mulheres Unidas Contra o Bolsonaro” tentava evitar em 2018. 

Mesmo não conseguindo alcançar o objetivo principal, o de não eleger Bolsonaro, essas mulheres continuam na luta, apesar dos ataques e das ameaças. Maíra mudou de cidade e de vida por causa dos traumas que sofreu com o hackeamento do MUCB e se afastou do movimento. Ludimilla ainda teme, apesar de continuar à frente do grupo. Em entrevista exclusiva ao GGN, a fundadora se debulha em lágrimas ao relatar o pânico da possibilidade de perder a própria vida para a milícia.

O impacto do movimento também se reflete na justiça. Enquanto  continuam lutando pelo fim do bolsonarismo e enfrentam traumas do terrorismo digital, Ludmilla e Maíra aguardam no TSE a ação que ainda pode cassar a chapa eleita em 2018 e tornar Jair Bolsonaro inelegível por 8 anos. 

Uma  ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) tramita no Tribunal Superior Eleitoral desde o hackeamento, mas mesmo sem respostas da Polícia Civil e da Polícia Federal sobre os autores do ataque hacker de 2018, o MUCB continua em pé, com outro nome, e pensando em planos futuros. Além de ir para as ruas contra o atual governo, o grupo político planeja desenvolver um lugar de acolhimento e trabalhos sociais, a “Casa MUCB”. As moderadoras também já chegaram a cogitar transformar o movimento em partido, o que não foi para frente.

Ameaças e medo

Passados três anos, as organizadoras do movimento expressam medo de ser atacadas novamente e levam uma vida que ainda não voltou ao normal. Maíra, uma das mediadoras do grupo de Facebook em 2018, relata que até no âmbito profissional levou prejuízo pelo ataque hacker daquele ano. “Fiquei uns dois meses sem trabalhar, sem nada. Inclusive eu tive ajuda financeira porque eu vivia disso [venda de comidas veganas], tudo vinha do meu trabalho. Um mês depois, o pessoal conseguiu fazer uma vaquinha, mesmo assim eu tive que fazer um empréstimo no banco, me endividei toda”, conta Maíra. 

Além da perda financeira, Ludmilla e Maíra relatam ao GGN a mudança de vida e as fobias que vieram após os ataques de 2018. “Para eu me reconstruir depois da eleição foi muito complicado. Eu tive muito medo porque eu sentia que ele já tinha certo poder enquanto candidato; como presidente, ele tinha o poder na mão. A gente vê hoje os militares se dobrando para ele”, desabafa Maíra.

Maíra Motta, a primeira vítima do ataque hacker – Foto: Arquivo

Ela revela que ainda hoje tem a sensação de estar sendo perseguida e não expõe seus dados pessoais, até os hábitos do dia a dia mudaram, e hoje fuma “muito mais”. A ansiedade causada pelo ataque hacker se refletiu também fisicamente: “eu tinha crises nervosas, não conseguia falar direito e tinha falta de ar. Comecei a ter ataques nervosos, tinha cãibra e o corpo todo se contorcia”.

“Quando saiu o resultado da eleição, a primeira coisa que meu filho falou foi: ‘a gente precisa ter uma arma aqui em casa, mãe’. Eu sou da campanha do desarmamento, não faz sentido ter arma em casa, mas dá medo. O miliciano Adriano da Nóbrega foi morto aqui”, completa Maíra Motta.

O cenário de temor se repete na vida de Ludmilla, que conta que os ataques à sua vida pessoal também começaram antes das manifestações do “Ele Não”, com a invasão hacker do MUCB. Depois que foram às ruas, as ameaças de morte começaram a aparecer. 

“Você acha que os milicianos não sabem meu nome? Não sabem onde eu moro, onde eu trabalho, quais os lugares que eu frequento?”, diz indignada a fundadora do grupo, que até hoje não tem acesso ao seu perfil do Facebook.

Ao GGN, Ludmilla desabafa, em lágrimas, à jornalista: “Eu estou expondo isso pra você, porque, se eu sumir de repente, é bom que as pessoas saibam o motivo.”

Emocionada, a publicitária fala sobre o medo de ter o mesmo destino que Marielle Franco: “Bolsonaro pode se revoltar, não sei até que ponto ele me conhece, sabe sobre mim. E, de repente, eu sumir e aparecer da pior forma possível… Depois não adianta dizer ‘Ludmila presente’. Porque eu estou presente aqui, agora.”

Ludmilla admite que passa pela cabeça largar tudo e sair do país para evitar as ameaças. Mas, no final, afirma que “se é pra morrer, a gente vai morrer brigando, vai morrer lutando”.

Uma das apoiadoras do grupo foi Manuela D’Ávila, candidata à vice-​presidente do Brasil pelo PCdoB nas eleições 2018. Manuela teve uma trajetória política prematura, sendo vítima de ciberataques há 10 anos. Quando questionada sobre seu apoio ao MUCB e as ofensas que vieram por causa dele,  ela acredita que “não tem como mensurar o que um grupo causa de impactos nas redes, porque são milhares de ataques e notícias falsas postadas todos os dias”.

“Eu acho que as pessoas que se envolveram e criaram o grupo, que não tinham exposição, tiveram uma vida destruída durante aquela eleição por causa das ameaças. Porque foi um grupo muito grande, muito potente e com um papel político muito importante naquele processo eleitoral. Mas, lamentavelmente, é tão recorrente as ameaças a mim que eu realmente não tenho como aferir se teve um fato que causou mais ou menos [impacto]”, conta a ex-deputada.

O ataque hacker

O ataque ocorreu através do celular da Maíra Motta, que na época era mediadora do grupo e uma “membra ativa”, que coordenava a administração de vários subgrupos que davam vida ao MUCB. 

Em entrevista ao GGN, a advogada da Maíra, Kellma Farias, conta os detalhes da invasão. “A forma que eles fizeram foi de grupo terrorista, porque eles sequestraram a linha telefônica de Maíra e a instalaram em outro aparelho. A partir do telefone, eles entraram no grupo, nas redes sociais, no WhatsApp, em tudo. Eles divulgaram dados pessoais dela, CPF, tudo o que você imaginar”, declara a advogada.

Após sequestrar a linha da mediadora, os hackers conseguiram acesso ao MUCB e trocaram o nome do grupo para “Mulheres Unidas com Bolsonaro”. “Automaticamente, com a imagem e o nome do grupo trocado, o próprio Jair Messias Bolsonaro fez uma postagem no Twitter dizendo ‘obrigada, mulheres’”, relembra Kellma.

Os hackers excluíram as integrantes do grupo e fizeram postagens a favor de Jair Bolsonaro. Junto com  Maíra, outras duas mediadoras foram hackeadas, entre elas  Ludmilla Teixeira, a fundadora. “Só quem podia deletar o grupo era quem o criou. No caso, eles achavam que era eu porque era quem tinha mais visibilidade no grupo. No sábado, no outro dia, é que a Ludmilla foi hackeada”, explica Maíra.

MUCB hoje

Apesar de ter menos seguidoras do que em 2018, o MUCB, hoje chamado de “Mulheres Unidas Com o Brasil”, possui cerca de 2,3 milhões de pessoas conectadas nas redes. A fundadora explica, com detalhes, o motivo da mudança de nome: “por três motivos básicos: o primeiro de todos, medo. A gente ficou com medo de ser enquadrada na lei antiterrorismo que Bolsonaro estava ameaçando todo mundo. O segundo motivo foi tirar os bots do nosso pé, depois que a gente tirou o nome [Bolsonaro] parece que a gente pôde respirar. O terceiro foi pensar em como seria mais fácil registrar o nome.”

Quando questionada sobre a volta das mulheres aos protestos contra Bolsonaro, Ludmilla afirma que irão “às ruas todos os dias que tiver mobilização”. “Nós vamos para as ruas em 2022, sempre que for preciso, porque nosso lugar é nas ruas. A gente faz ciberativismo, mas o que sustenta o ciberativismo é o povo na rua.”

Ludmilla Teixeira no protesto contra o governo Bolsonaro no dia 03 de julho de 2021 – Foto: Marcos Musse

Além dos protestos, o grande objetivo do MUCB, hoje, é também transmitir conhecimentos acerca de pautas sociais para as mulheres e ajudar as membras mais vulneráveis. “A gente quer criar uma Casa MUCB para atender mulheres vítimas de violência e de vulnerabilidade social com atendimento psicossocial”, revela Ludmilla.

Outra ideia antiga que surgiu dessa união feminina nas ruas e nas redes foi a criação de um partido com cotas invertidas. “Os próprios partidos políticos, mesmo de esquerda, querem manter a estrutura hegemônica, cisgênero, heteronormativa e masculina”, aponta Ludmilla. 

Mas a ideia de criar o partido não saiu do papel. Além das questões burocráticas, envolvendo principalmente a cláusula de barreiras, consideram que o movimento de mulheres é muito plural para concentrar todas as ideias em um partido só. “A gente entendeu que não era o momento para isso, era mais importante apoiar e conhecer os partidos já existentes”, relata Ludmilla, que acabou se filiando ao PSOL. Essa ideia , segundo ela, está “na geladeira” para cenários futuros. 

Como foi criado o MUCB

O grupo de Facebook “Mulheres Unidas Contra o Bolsonaro”, que deu origem às manifestações do “Ele Não”, em 2018, surgiu através de Ludmilla Teixeira, uma mulher que juntou a formação publicitária com o sangue militante para “acender o fósforo do barril de pólvora da indignação feminina”, descreve.

O primeiro objetivo era o de convocar mulheres que não estavam de acordo com a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República para um pequeno ato de rua em Salvador, Bahia. Mas após usar as ferramentas de marketing para analisar as redes sociais, Ludmilla mudou a estratégia. Ela percebeu que ainda não havia uma representação da união feminina contra Bolsonaro circulando na internet, e viu potencial para atingir mulheres de todos os cantos do país, afinal, “uma voz sozinha não tinha muita possibilidade de ter uma interferência no processo eleitoral”.

Em 30 de agosto de 2018, às 6h26, ela criou o grupo “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro (MUCB)”, uma ação feita “no impulso”, mas que uniu milhões de brasileiras com um único objetivo: “Ele Não”.

A união virtual fomentada no Facebook gerou uma rede de apoio entre aquelas que já se sentiam ofendidas com as atitudes de Bolsonaro. O ciberativismo do MUCB levantou estratégias usadas até hoje, como as palavras “Bozo” e “Coiso” para se referir ao presidenciável do PSL em 2018, mas a consequência mais notória do grupo foi vista a olho nu através das manifestações de rua do #EleNão.

“O ‘Ele Não’ é uma antítese, a negação de tudo o que a gente não aceitava e não queria. Significava que a gente não iria interferir no direito de escolha das pessoas, que no primeiro turno poderíamos votar em qualquer candidato, mas nele não, ele representa a escória da política brasileira. No segundo turno, votaríamos em quem fosse contra ele”, lembra.

Manifestações “Ele Não”

Manifestação “Ele Não” em Cuiabá, Mato Grosso – Foto: Paulisson Miura

A partir de uma hashtag levantada nas redes sociais, inúmeras mulheres ao redor do mundo foram às ruas manifestar contra a candidatura de Jair Messias Bolsonaro, uma vez que o até então presidenciável do PSL já se mostrava conservador, machista, racista e LGBTQIfóbico. 

Em falas públicas, o atual presidente da República se referiu à sua própria filha como “uma fraquejada”; afirmou que não empregaria mulheres com o mesmo salário que os homens; disse à uma jornalista, em tom erótico, que ela queria “dar o furo a qualquer preço”; em uma discussão com Maria do Rosário disse que não a “estupraria porque ela não merecia”; racista em entrevista à Preta Gil, afirmando que “não corria o risco” de um de seus filhos namorar uma negra porque eles “foram muito bem educados e não viveram em ambientes como, lamentavelmente, o teu”; e que se visse “dois homens se beijando na rua” iria “bater” neles. 

O mesmo discurso discriminatório é repetido por Bolsonaro desde a sua primeira participação pública ainda como deputado federal, o que levou um mutirão de mulheres às ruas no dia 29 de setembro de 2018. Os primeiros movimentos na rede espalharam-se pelo mundo , sendo que, segundo Ludmilla, foi a maior manifestação feminina da história.

Apesar da indignação do movimento estar relacionada a um candidato de direita, o “Ele Não” foi um ato despido do controle de um único partido. Segundo Kellma Farias, apoiadora do movimento desde 2018 e advogada de uma das antigas administradoras do MUCB, o grupo e os protestos eram “suprapartidários”, ou seja, reuniam diversas correntes políticas, mas não se subordinavam a nenhum deles. 

Havia eleitoras de Guilherme Boulos (PSOL), Fernando Haddad (PT), João Amoêdo (Novo), Geraldo Alckmin (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede), entre outros postulantes ao Palácio do Planalto. Militantes, analfabetas políticas, apartidárias, de direita ou de esquerda, todas com o mesmo propósito, impedir a ascensão de Bolsonaro no poder. Exemplo dessa  heterogeneidade política é Liliane Abreu, uma das moderadoras do grupo, que se considerava uma mulher de direita até a ascensão do bolsonarismo.  

“Eu sou filha de um militar dos porões da ditadura. Meu pai era investigador de elite, era ele quem investigava as pessoas para serem presas. Eu cresci dentro do quartel. Até 2018, eu me intitulava de direita. Votei no Collor, votei no Fernando Henrique, fiz campanha contra o Lula, fiz campanha contra a Dilma. Mas chegou em 2018, comecei a entrar em pânico com o crescimento do Bolsonaro”, declara a terapeuta. 

Liliane Abreu (esquerda) com os primos na manifestação do #EleNão no Largo da Batata-SP – Foto: Arquivo

“Com uma semana de MUCB, tive uma discussão muito séria com meu pai, em que ele ameaçou me entregar aos militares como comunista. Ele me chamou de comunista e quando ele fez isso, foi como uma martelada na minha cabeça: eu consegui conectar finalmente quais comunistas foram esses que eles perseguiram naquela época”, completa Liliane.

Depois de 12 dias da criação da hashtag, o #EleNão já estava nos tópicos mais comentados no Twitter e foi mencionada por grandes personalidades nacionais e internacionais, até que o ciberativismo se expandiu para as manifestações populares, que tomaram mais de 100 cidades de todos os estados brasileiros e chegaram até alguns municípios em outros países.

Roberta Liberato,uma das moderadoras do MUCB, no protesto na Holanda – Foto: Arquivo

Muitas mulheres com alta visibilidade na mídia ajudaram a popularizar o MUCB ao compartilhar conteúdos sobre o movimento nas redes. Uma dessas apoiadoras foi Manuela D’Ávila, que na época era candidata à vice-Presidência. “O MUCB mostrou a força organizativa nas redes, mostrando que era, sim, um espaço de retificação e de resistência à eleição de Bolsonaro. Esse é um dos principais legados desse grupo político, desse grupo que se organizou para enfrentar Bolsonaro e que fez a sua parte. Porque se todos tivessem esse grau de engajamento e de mobilização, nós certamente teríamos alcançado o objetivo.”

Manuela D’Ávila nas manifestações do #EleNão em 2018 – Foto: Arquivo

O movimento acabou chamando a atenção da campanha do presidenciável do PSL e, antes mesmo das manifestações do “Ele Não”, o grupo “Mulheres Unidas Contra o Bolsonaro” sofreu variados ataques, até o ataque hacker,no dia 14 de setembro, 15 dias antes dos protestos.

O processo de cassação

Após o ataque, Maíra Mota e sua advogada Kellma foram à delegacia de Polícia Civil em Vitória da Conquista (BA) onde, segundo elas, ouviram “que era impossível investigar, porque era um crime digital e a delegacia não tinha estrutura, que teria que ser denunciado em Salvador”. 

“Fiz a notícia-crime na Polícia Civil da Bahia, já solicitando que abrisse investigação pelo crime, não só de invasão, sequestro de linha, clonagem de linha telefônica e hackeamento do grupo, mas como crime eleitoral, já que silenciou opiniões durante a eleição”, explica a advogada.

A partir do registro da ocorrência, duas campanhas de candidatos à Presidência em 2018, Marina Silva e Guilherme Boulos, entraram com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) contra a chapa Bolsonaro-Mourão, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que posteriormente foram juntadas em uma ação. 

Ao longo de 2019, o TSE não pediu a produção de provas de autoria do ataque junto à Polícia Federal e Polícia Civil, aguardando que estas instituições enviassem informações sobre as denúncias registradas pelas vítimas. O GGN apurou que a delegacia de Polícia Civil em Vitória da Conquista não deu prosseguimento à investigação por crime eleitoral, alegando deter competência somente em crimes comuns. A Polícia Federal, por sua vez, comunicou ao TSE que o inquérito foi arquivado a pedido do Ministério Público, que não vislumbrou crime eleitoral no hackeamento de Maíra e do MUCB, mas um crime comum.

Relator da AIJE, o ministro Og Fernandes tentou arquivar a ação por falta de provas de autoria. Mas com apoio de Luís Roberto Barroso e Edson Fachin, quatro de sete ministros do TSE votaram para dar continuidade à investigação e buscar provas envolvendo o hackeamento. 

André Maimoni, advogado de Guilherme Boulos (PSOL), diz ao GGN que provavelmente já não vão encontrar os autores do hackeamento. “A notícia que nós temos, desde 2018, é que muito pouco se investigou, muito pouco se fez em favor das administradoras da páginas Mulheres Unidas Contra Bolsonaro.”

Maimoni diz que, ainda assim, o TSE poderia julgar a ação, considerando que o hackeamento do MUCB censurou milhões de mulheres em benefício de um candidato. Embora o Ministério Público Eleitoral tenha manifestado que a invasão de um simples grupo de mulheres nas redes sociais não tenha condão para derrubar um presidente eleito democraticamente, a jurisprudência no TSE, segundo o advogado, indica que o que importa não é a dimensão do crime eleitoral – governadores já foram cassados pela compra de um voto apenas -, mas a evidência de que houve desequilíbrio de forças econômicas na eleição, reforçando que a importância da AIJE “é o valor democrático que está envolvido, é o equilíbrio e a igualdade de chances entre os candidatos”.

“O que importa é a lisura do pleito. O que importa é o abuso do poder político e econômico gravíssimo que foi realizado de forma violenta, brutal, de natureza física e digital. O mais importante para nossa ação é que foi uma violência à democracia brasileira, aos processos de participação democrática”, completa  o advogado.

Ele também lamenta que o TSE não tenha produzido “aprendizado” sobre como funcionam as campanhas eleitorais em tempos de redes sociais a partir desta AIJE, “então nós fizemos a eleição de 2020 repleta dos mesmos problemas de 2018”. Segundo o advogado, as Fake News vinham, majoritariamente, do WhatsApp, que já é judicialmente difícil conseguir quebra de sigilo, mas mesmo assim, esse grupo de bombardeamento de informações falsas migrou para o Telegram, “um lugar que não é possível controlar”.

Kellman reforça que a ação “diz respeito ao abuso de poder econômico”, e que  as evidências dão conta de que foi um esquema organizado. Um dos IP’s rastreados, segundo ela, estava baseado na Califórnia (EUA). Se julgada procedente, a causa teria força para cassar a chapa eleita em 2018 por abuso de poder econômico. 

“É a única esperança que a gente tem hoje, as AIJEs, porque [os deputados] não vão pautar impeachment. A esperança é que se encontre esse elo [entre o hackeamento e a campanha de Bolsonaro] e fique provado o crime eleitoral. É a única coisa que me apego hoje, realmente, para a gente conseguir se livrar disso, é esse processo”, desabafa Maíra.

Com todo o desenrolar do movimento, Ludmilla Teixeira, fundadora do MUCB, finaliza dizendo: “se esse processo do TSE ajudar na cassação de Mourão, já estou feliz, minha missão nesse planeta está cumprida. Mas sendo realista, quem está esperando Bolsonaro é o Tribunal de Haia”. Bolsonaro foi denunciado ao Tribunal Penal Internacional pelo crime de genocídio durante a pandemia.

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