As políticas públicas e a falta de visão sistêmica, por Luis Nassif

Outros programas que poderiam ter sido bem sucedidos - como a tentativa de transformar a Finep (Financiadora de Estudos e Pesquisas) - em um banco de desenvolvimento para a área tecnológica, falharam pela visão autocrática do governo e pela falta de diálogo com os clientes potenciais.

A separação entre o pensador e o palpiteiro reside na maior ou menor capacidade de trabalhar situações complexas. A maioria absoluta dos analistas midiáticos não consegue avançar além do enfoque único. O mesmo vale para a maioria das políticas públicas.

A primeira vez que vi a utilização competente do conceito de análise sistêmica foi com o grande Eliezer Baptista, o criador da Companhia Vale do Rio Doce. Nos estertores do governo Collor ele desenvolveu um plano sistêmico de criação de polos de desenvolvimento na fronteira com vizinhos latino-americanos. O trabalho ficou perdido em alguma gaveta do Palácio. Foi recuperado depois de um artigo que publiquei na Folha, após uma conversa com o engenheiro Pavão, que trabalhou no projeto com Eliezer. O então presidente do BNDES Luiz Carlos Mendonça de Barros pediu o trabalho que virou o programa Avança Brasil.

O trabalho identificava sete regiões com potencial de desenvolvimento. E concentrava, nelas, projetos de energia, telefonia, logística. Ao mesmo tempo, o BNDES identificava oportunidades  e criava uma carteira para projetos de investimento privado. Não foi adiante por outras razões, não pela concepção.

De maneira geral, a falta de visão sistêmica afeta a maioria dos programas públicos do país. Nem se fale da reforma do setor elétrico no governo Fernando Henrique Cardoso, que jogou o país em uma crise energética. Nos últimos governos, muitos programas não alcançaram seus objetivos por terem foco único, sem nenhuma forma de análise sistêmica ou de avaliações de suas externalidades – positivas ou negativas.

Um exemplo nítido foi a política dos campeões nacionais. Ajudou a transformar frigoríficos brasileiros em atores internacionais, mas à custa de uma ampla exploração dos fornecedores, pecuaristas, e de transtornos na indústria do couro e de derivados. Uma política sistêmica certamente trataria de desenvolver um modelo de apoio aos campeões nacionais, com inclusão de medidas de fortalecimento dos fornecedores.

Outro exemplo dos erros de políticas não sistêmicas foi o próprio Minha Casa, Minha Vida. O programa focou exclusivamente os custos financeiros e tributários, com isenção de tributos e financiamentos acessíveis. Não se levou em conta a questão urbana. O boom da política encareceu os terrenos urbanos,  expulsou inquilinos para a periferia e induziu à construção de conjuntos habitacionais em regiões distantes do centro e das ofertas de trabalho.

O mesmo ocorreu com os estímulos à indústria automobilística. Criaram-se incentivos sem nenhuma exigência de contrapartida – como, por exemplo, metas de exportação e emprego – e nenhuma preocupação com a mobilidade urbana e com inovações tecnológicas. Houve o aumento do congestionamento nas grandes cidades.

Na outra ponta, exemplo bem sucedido foi o Bolsa Família, articulando a montagem de uma grande base de dados de famílias carentes, a concatenação com a rede escolar. Em determinado momento, tentou-se até utilizar o banco de dados com as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), permitindo identificar trabalhadores disponíveis para treinamento. Ao mesmo tempo, em parceria com universidades, foram criadas formas de controle eficientes.

Outro programa bem sucedido foi o Programa de Desenvolvimento Produtivo (PDP), uma formulação competentíssima da Fiocruz, contemplando o poder de compra do Sistema Único de Saúde, com negociações com grandes fornecedores, tendo como contrapartida a transferência de tecnologia para laboratórios públicos.

Outros programas que poderiam ter sido bem sucedidos – como a tentativa de transformar a Finep (Financiadora de Estudos e Pesquisas) – em um banco de desenvolvimento para a área tecnológica, falharam pela visão autocrática do governo e pela falta de diálogo com os clientes potenciais.

O IPCA 15

A prévia da inflação oficial – o Índice de Preços por Atacado 15 – mostrou que combustíveis continuam puxando a inflação. O índice foi de 1,2% no mês e 10,34% em 12 meses. Dos 98 grupos do índice, 8 registraram alta e apenas um registrou queda insignificante – Despesas Pessoais. 

No mês, o combustível representou 51,4% do índice.

No acumulado de 12 meses, 4 grupos registraram alta acima de 10%, um grupo alta entre 5% e 10% e 3 grupos entre 0% e 5%.

Nos últimos 6 meses, a inflação de 12 meses aumentou sistematicamente, saindo de 6,17% em abril para 10,05%.

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4 comentários

  1. Determinado partido já tomou a sua “facada Adelista”(amigos da onça de sua agremiação e de outras tb,mídia,mercado)NESTE ANO(somente)é só cruzar os braços(olhando e organizando a si mesmos)e ganhar a “eleição”,tão querendo provocar para disfarçar e arranjar um inimigo(o de sempre propagandeado)para incentivar a manada, tá ganho(opinião pública pela percepção da realidade),já no ANO Q VEM,a conversa será outra !

  2. https://www.diariodocentrodomundo.com.br/verdade-paraiso-dubai/

    Assim são planejados e executados programas e projetos em ex-colônias.
    São, sempre, projetos e programas de exploração e espoliação, nada mais.
    Ótimos para capitalistas e empresários, e o inferno para os outros.
    Vai pra Cuba, vai pra Venezuela, vai pra Dubai.
    Onde quer que seja que se vá, encontra-se o mesmo: paraíso para o capital, inferno para o trabalhados.
    O único espírito cuja existência a ciência comprova, amigos, é o de porco.
    Infelizmente abundante, aqui por essas paragens.
    Como ainda é possível pensar em espírito público?
    Projetos e programas que beneficiem o conjunto da população?
    Isso é miragem.
    Generosidade não é algo que se possa incutir na mente das pessoas.
    Muito menos na mente daquelas que estão de posse das canetas.
    E que vêem, nas canetas, seu passaporte para a prosperidade. A própria.
    Não há espírito público, amigos, portanto, não há VONTADE de melhorar a vida dos outros, apenas a própria.
    Tudo é uma questão de ser capaz de vender, seja o que for, seja do jeito que for.
    Menos a alma, pois não tem valor de mercado.
    Colocar o próprio nome, e cargo, num contrato, para se dar bem?
    Como diria o Magri, “esse dinheirinho caiu do céu!”
    Só o que cai do céu é chuva, avião, e cocô de pombo.
    Mas, se você é servidor público, de qualquer escalão, às vezes cai uma oportunidade única na vida.
    Não existe espírito público, amigos. Talvez tenha existido, não sei; mas aqueles de quem ele tenha se apossado, ou tomado conta, já estão todos mortos.

  3. Políticas públicas dentro de uma visão sistêmica implicariam uma alteração do sistema econômico, social e político nacional, o que significaria em verdade um tipo de ação política revolucionária (no sentido de a partir de dentro mesmo do sistema de cultura política, econômica e social estabelecer uma outra institucionalidade no país). Por ter feito bem menos do que isso o governo do PT e o país sofreram um golpe de estado (e bem menos porque evidentemente não podemos dizer quais seriam os desdobramentos futuros das ações políticas inauguradas pelos governos do PT, caso não houvesse ocorrido o golpe de estado e o partido tivesse continuado no poder por pelo menos mais dois mandatos. Essas ações tanto poderiam se aprofundar no sentido de uma tentativa incisiva de autonomia econômica-
    financeira e cultural-política, dentro das possibilidades nacionais concretas, como a efetiva participação no Brics, frente ao sistema norte-americano; quanto poderiam se aprofundar no sentido até então delineado de inserção política e econômica internacional dentro das regras do sistema econômico-financeiro mundial, fomentando assim um tipo de atualização histórica do país, que contaria com uma integração de camadas pobres da população no sistema produtivo e de proteção social, mas com a manutenção de uma estrutura de poder econômico e consequentemente político altamente concentrado em algumas poucas famílias nacionais. Dado o atraso econômico e social do país essa inserção das camadas pobres da população poderia mesmo ser vista como uma revolução, o que evidentemente não seria, ainda que fosse, como realmente foi, uma grande e importante mudança).
    A verdade é que a época das grandes revoluções ou ao menos das grandes transformações nacionais autônomas acabou, isto talvez tenha sido possível para as nações até a 1° metade do século passado (a própria China que é vista como grande exemplo de inserção autônoma e mesmo transformadora no e do capitalismo, deve isso à sua revolução política, econômica e cultural comunista inicialmente radical. Foi esta revolução radical que permitiu o básico para o subsequente desenvolvimento autônomo do país, até os dias de hoje: O controle tentacular do território físico e o estabelecimento hegemônico de uma cultura política, social e econômica comum). O mundo pós-moderno dominado pela alta concentração do capital torna na verdade as grandes empresas transnacionais e oligopólicas co-administradoras dos Estados modernos (isso quando em um passado, que eu dato até a 1° metade do século 20, eles tiveram a capacidade e o poder de estabelecerem-se como nações autônomas), para os Estados fragéis e dependentes essa grandes empresas são na verdade o grande poder administrativo sobre os governos (acreditar que qualquer um desses estados frágeis e dependentes tem um poder técnico-burocrático tentacular capaz de impor normas e exigências ao mundo tecnológico atual é ser muito ingênuo.)

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