Maratona GGN: Fim da Lava-Jato não é o fim do lavajatismo, alerta Esther Solano

Professora da Unifesp destaca mudança de correlação de forças dentro do bolsonarismo, e ressalta que discurso antipolítica segue forte

Esther Solano, professora da Unifesp. Foto: Reprodução

Jornal GGN – As mudanças no cenário apontam para uma redefinição da disputa entre o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e o presidente Jair Bolsonaro, mas é preciso ter atenção: embora a operação Lava-Jato esteja se aproximando do fim, o lavajatismo continua “vivo e simbolicamente muito poderoso”.

A afirmação é da cientista política Esther Solano, professora da Unifesp, em entrevista às jornalistas Lourdes Nassif, Patricia Faermann e Cintia Alves na tarde de terça-feira (9), durante a Maratona GGN: o impacto político e jurídico da volta de Lula, live especial exibida na TV GGN.

Nesta manhã, o ministro Gilmar Mendes decidiu colocar na pauta da 2ª Turma da Corte o habeas corpus em que a defesa do ex-presidente questiona a parcialidade de Moro na sentença no caso do triplex do Guarujá. Uma decisão da Corte, favorável ao político, pode contaminar outras ações envolvendo o político na força-tarefa.

“O que a gente vê: por um lado, um desgaste de (Jair) Bolsonaro (…) A base bolsonarista cada vez mais crítica, mais desiludida, mais arrependida com ele, e evidentemente agora sob efeito da explosão da pandemia, a economia que não anda, Paulo Guedes que não emplaca nenhum projeto. Eu diria que já tem um desgaste de longo prazo do Bolsonaro.

Esse desgaste é visto entre as entrevistas realizadas junto à base mais moderada do bolsonarismo, explica a pesquisadora. “Estivemos capturando entrevistas com pessoas da base mais moderada do bolsonarismo que falaram o seguinte: ‘bom é verdade que o Moro cometeu erros, se excedeu, é verdade que o Lula teve de fato uma perseguição política. Me parece que há uma certa aceitação dos excessos do Sergio Moro e da Lava-Jato”.

Esther Solano também destaca a decadência da operação lava-jato enquanto sua narrativa. “A gente vê os dois processos em paralelo – Bolsonaro sendo desidratado e a própria lava-jato sendo desidratada e recolocando um pouco o papel do PT. Eu diria que essas duas questões começam a culminar nesses últimos dias”.

Contudo, Esther Solano alerta que o legado mais perverso da operação Lava-Jato é a retórica da criminalização da política – e a retórica de que, em nome do combate à corrupção, pode-se destruir a política.

“Então, para mim, esse é o principal legado que a gente ainda observa muito evidente, muito forte nas entrevistas que fazemos. Mas atenção: não só com a base bolsonarista. A própria base progressista, uma boa parte da base progressista também comprou, de fato, o legado da criminalização da política na Lava-Jato. Então, muita atenção com isso”, diz a professora da Unifesp. “A gente pode, de fato, estar assistindo ao fim da figura do Moro e da força-tarefa, mas o legado perverso, da perseguição da política, essa pedagogia tão negativa da Lava-Jato da antipolítica, inclusive na própria base de esquerda, ainda está muito presente. Esse é o principal desafio”.

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