Por Duda Cambraia*

No dia 28 de julho de 2021, Gessica Silva Barbosa, esposa do militante Paulo Galo, recebeu voz de prisão por suposto envolvimento na polêmica ação direta contra a estátua de Borba Gato, cuja autoria foi assumida pelo grupo Revolução Periférica. Movimentos, lideranças políticas e juristas se manifestaram contra a prisão arbitrária da costureira e dos membros do coletivo.

Gessica foi detida por manter em seu nome o chip do aparelho celular usado por Galo, aponta a defesa. Conhecido por seu ativismo no grupo Entregadores Antifascistas, Galo também foi preso – e passou bem mais tempo na cela, já que a Justiça de São Paulo se recusou a cumprir um habeas corpus expedido pelo Superior Tribunal de Justiça.

Na data em que atearam fogo na estátua, 24 de julho, Gessica estava a cerca de 15 quilômetros de distância de Santo Amaro, onde fica localizado o monumento ao bandeirante. Ela passou parte do dia no supermercado e cuidou da filha pequena em casa. Se apresentou espontaneamente à polícia, ao lado do marido, para exibir as provas de que não esteve presente no ato. Acabou amargando dois dias de cárcere até a falta de fundamentos de sua prisão ser reconhecida. 

Provar ser inocente e, ainda assim, ser privada de liberdade simplesmente por não ser ouvida, faz com que Gessica trace um paralelo com os tempos de escravidão no Brasil. Ironicamente, foi para esta mácula em nossa História que o Revolução Periférica tentou chamar atenção ao incendiar Borba Gato.

”Quando a gente entra no sistema penitenciário, a gente já sai de lá com a ficha criminal suja. É uma marca, assim como marcavam os escravos lá atrás.”

“Dizer que doeu? Não doeu. Eu tenho dores maiores do que estar dois dias [numa prisão]. Agora, dizer ‘te revoltou?’ Me revoltou muito! Eu senti que eles estavam oprimindo a minha voz.”

Numa tarde de agosto, Gessica abriu as portas de sua casa para a reportagem do GGN e falou muito emocionada do passado carregado de “dores maiores”. Em virtude da pandemia, ela concedeu a entrevista cobrindo parte do rosto pelo uso de máscara, mas não pôde esconder a marca de um tiro que levou no braço no ano passado. O que a cicatriz conta sobre Gessica?

Mulher negra, periférica, costureira, mãe, superior incompleto, natural da Bahia e filha de mãe solo que criou os irmãos como se fossem seus filhos, Gessica, ao longo de seus 29 anos de vida, enfrentou muitas adversidades. Talvez a maior – ou pelo menos a mais traumática – de todas seja ter visto o irmão assassinado a queima roupa dentro de casa, aos 22 anos. Nenhuma autoridade foi capaz de levar justiça à família. Ela passou ainda por depressão, tentativa de suicídio e silenciamento antes da passagem pela prisão. 

“A gente já está calejada. A prisão só me mostrou que o sistema judiciário e o penitenciário são falhos.”

Gessica mostrando para a repórter a rua em que o irmão foi assassinado. Foto: Sophia Olegário/Colaboração para o GG

“O SISTEMA FAZ MENINO POBRE MATAR MENINO POBRE”

Gessica é uma mulher visível e profundamente marcada pela violência que presenciou desde os tempos em que morou em Itaberaba, no interior da Bahia. Ali já viu “gente com um tiro na boca pedindo socorro”.

“Meu irmão, aos 14 anos, foi esfaqueado em uma festa. Briga de bairro, mas quase faleceu. (…) Um ano e dois meses depois, a mesma pessoa deu seis tiros nele. Um pegou, ele ficou entre a vida e a morte”. O jovem Jonas, aos 16 anos, teve o pulmão perfurado por bala. O autor dos disparos foi encontrado morto um mês depois. “A gente teve que ir embora da cidade porque começaram a vir ameaças”, comenta Gessica.

Quando chegou em São Paulo em meados de 2016, Gessica ficou “circulando igual cigano, sem ter lugar”, até que se estabeleceu em um pensionato de bolivianos no Brás e, depois, num quarto alugado por 400 reais, em Carapicuíba. Após rodar a cidade em busca do primeiro emprego, como atendente de telemarketing na Sé, Gessica se mudou de novo para a capital e passou a morar junto com Paulo Galo.

A mudança da Bahia para Sampa tinha como objetivo reencontrar o Jonas. Mas a “pretensão de vingança” – supostamente pelo lado do jovem que perdeu a vida após balear Jonas, diz ela – logo encurtaria o tempo compartilhado entre os irmãos.

Portão com marcas de bala no local em que Jonas foi assassinado com um tiro na cabeça e Gessica baleada no braço. Foto: Sophia Olegário/Colaboração para o GGN

Em maio de 2020, três homens encontraram o endereço da mãe de Gessica e Jonas, a dona Joidi, e ali encostaram e começaram a fazer perguntas. “Pediram um isqueiro, do isqueiro pediram uma água, da água desceram armados”.

Na garagem de casa estavam Gessica, Jonas, dona Joidi e Aisha, a filha de Gessica, que tinha apenas dois anos e estava sentada em um sofá brincando no celular do tio. Ícaro, o filho mais novo de dona Joidi, com oito anos à época, estava dentro de casa.

“Minha mãe foi buscar a água, eles desceram. Eu estava na frente do meu irmão, empurrei ele pra dentro da garagem e falei ‘corre’.” 

Gessica acredita que, neste momento, Jonas “travou”, já que ao invés de fugir, ele ficou ali, se esquivando das balas. No queima roupa, ela foi baleada no braço e Jonas, na cabeça. “Eu me recordo de segurar meu irmão pedindo pra ele não morrer.”

“Quando fui ver, eu já tinha recebido o tiro. Eu fui para um hospital, ele foi para outro, e recebi a notícia sozinha de que ele havia falecido.” Gessica chora ao relembrar do episódio. “É difícil falar muito do meu irmão. Acho que merecia mais do que morrer, sabe?”, diz. “A morte é a única certeza para todos nós. A gente só não aceita que seja brutal e antes do tempo”, completa.

O portão da antiga casa ainda tem as marcas de balas. A reportagem esteve no local.

Para Gessica, o irmão foi mais uma vítima do “sistema” que “faz menino pobre matar menino pobre todos os dias”

A família tentou buscar ajuda das autoridades, sem sucesso. Ela diz que recorreu ao Ministério Público ainda na Bahia e, depois, em São Paulo. “Assim como o Jonas, tem vários outros sofrendo, pedindo ajuda, e alguém batendo [a porta na cara]”, diz. “Eles querem que os meninos morram todos os dias. A função deles é matar a gente. A gente clama por ajuda e eles fecham os ouvidos.”

“SE A GENTE CONHECER A NOSSA REAL HISTÓRIA, A GENTE VAI SE REVOLTAR”

Estátua de Borba Gato. Foto: GGN

Quando veio a público assumir a autoria pela ação direta contra a estátua de Borba Gato, Paulo Galo, marido de Gessica e pai da pequena Aisha, de 3 anos, disse que a intenção do coletivo Revolução Periférica era “abrir um debate” sobre quem foram os bandeirantes.

É realmente de se questionar se uma Nação forjada com o suor e sangue de negros e indígenas por mais de três séculos ainda deve ostentar homenagens a toda sorte de explorador.

Para Gessica, essa discussão não chega à maioria da sociedade porque a História do Brasil é “maquiada”. “As escolas ensinam o que o sistema permite.” Mudar essa realidade passa por “armar os nossos com sabedoria e inteligência”, aponta. 

“Se a gente conhecer a nossa real história, a gente vai se revoltar. Eles não querem gente revoltada lutando” por seus direitos.

“Sempre tive essa coisa dentro de mim, de que a opressão vai existir, mas a gente não pode ficar sentada, esperando, permitindo essa opressão. A gente tem que revidar de alguma forma. A gente tem que armar os nossos de sabedoria e inteligência. O sistema quer gente leiga para poder manipular.”

“SEU MOMENTO DE SER OUVIDO VAI CHEGAR”

Gessica e o marido, Paulo Galo

Géssica conheceu o marido no Facebook, através das letras de rap de Paulo. Em 2016 a amizade virtual virou casamento. “Um mês depois fomos morar juntos”. 

Galo conseguiu atrair os holofotes ao encabeçar o movimento dos Entregadores Antifascistas, organizado para lutar pelos direitos dos trabalhadores de aplicativos. Em março de 2020, um vídeo em ele fala o quão difícil é carregar comida nas costas com a barriga vazia viralizou nas redes sociais. 

“Quando eu conheci o Paulo eu falei: seu momento de ser ouvido vai chegar”, diz Gessica.

Um ano se passou desde aquela mobilização e Galo voltou a chamar atenção da mídia. Desta vez por causa de Borba Gato. Dias após o ato, o entregador foi até a delegacia prestar esclarecimentos e acabou ficando 14 dias preso. Gessica conta que mentiu algumas vezes para a filha pequena para justificar a ausência do pai.

Companheira de um homem em busca da transformação social, Gessica afirma que “a mudança que ele fala, não é só dentro de casa. O que ele vem conquistando é mérito dele, do coletivo, das pessoas que o seguem.”

Quando perguntada sobre o medo da filha Aisha, de apenas 3 anos, passar pelo o que os pais estão vivendo, no futuro, Gessica alega prepará-la desde cedo para enfrentar os preconceitos e adversidades da melhor forma. 

“Eu não quero que nossa filha passe pelas mesmas dores que eu passei ao longo  da minha formação e que ela obtenha cicatrizes. Mas se um dia vier, que esteja preparada para enfrentar.”

Durante esses anos de luta, Gessica confessa que pensou em desistir. “Fiquei cinco meses depressiva. Eu não dormia, tinha surtos, chorava. Minha mãe que me ajudava a tomar banho, escovar o dente. Ouvi vozes, fiz carta de suicídio para minha família toda”. No dia em que havia planejado sua morte, Jayne, a irmã do meio, chegou e a impediu. “Hoje estou mais alerta, mais ativa, mais feroz.” 

Apesar de todas as dores, Gessica olha para o futuro e vê planejamento, estudos e muito trabalho pela frente. Desde que largou a faculdade de Recursos Humanos na Bahia e veio para São Paulo, cruzando sua história com a do marido, ela agora vê duas opções: cursar “Direito para entender a lei e defender os meus, ou [apostar na] moda, abrir minha própria marca” de roupas, para empoderar outras mulheres.

*Estagiária sob supervisão de Cintia Alves

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1 comentário

  1. Incrível como a perseverança em transformar a própria vida e a motiva a preparar a filha para um mundo desigual. “O Sistema faz o menino pobre matar menino pobre”.

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