Ascensão e queda do Talibãsonaro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O Brasil está mais ou menos na mesma situação do Egito, país cujas Forças Armadas convivem de maneira mais ou menos pacífica com milícias religiosas com projetos políticos totalitários

Foto: Agência Brasil

Por Fábio de Oliveira Ribeiro

O Ministro Ricardo Lewandowski alertou Jair Bolsonaro e seus seguidores que eles poderão ser presos se tentarem usar violência para atropelar o Poder Judiciário com o intuito de exercer o poder absoluto.

Do ponto de vista jurídico, o texto do Ministro do STF é impecável. Mas Lewandowski comete uma falha essencial: ele simplesmente desprezou a irracionalidade e o estado de ânimo do presidente da república. O ethos dos seguidores dele também foi minimizado no texto.

Quem observa o Brasil na atualidade precisa fazer uma pergunta fundamental:

Existe alguma diferença entre os homens-bombas do oriente Médio e os policiais e militares decididos a explodir suas próprias carreiras ao defender as ilegalidades cometidas por Jair Bolsonaro? A resposta a essa pergunta é paradoxal: sim e não.

O sucesso planetário do neoliberalismo depende da perpetuação da submissão total das províncias petrolíferas aos EUA, Europa e, agora, à China. Só quem tem petróleo e bombas nucleares, como a Rússia, não pode ser coagido a fazer o que o mercado determina.

A interferência política ou ocupação militar sempre produz uma reação violenta. No caso do Oriente Médio, ela tem se construído como uma oposição “nós x eles” em termos religiosos. O renascimento da Jihad islâmica é uma consequência da Cruzada ocidental permanente por petróleo.

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No Ocidente, a partir do século XVIII, ocorreu o fim da servidão/escravidão e a criação do serviço militar obrigatório. As democracias laicas nasceram com os soldados-cidadãos. Os terroristas islâmicos tentam criar teocracias antidemocráticas livres da ocupação ocidental.

Quando os fanáticos religiosos têm sucesso, Estados islâmicos instáveis desafiam os interesses dos EUA e da Europa (caso do Irã e do Afeganistão, por exemplo). Quando os homens-bombas fracassam, os mártires servem de modelo para a criação de novos mártires perpetuando o ciclo de violência.

Um homem-bomba se inclui no universo político excluindo-se da vida. Um Talibãsonaro evangélico faz algo parecido, mas sem cometer suicídio. Ele apenas perde o emprego (caso do coronel da PM de São Paulo) e/ou ganha uma estadia na prisão (caso de Roberto Jefferson).

No Oriente Médio, os Sheiks e Mulás cuidam das famílias dos mártires. Bolsonaro cuida só da família dele. Ele providenciou uma mansão para o filho mais novo, mas nunca se deu ao trabalho de fazer qualquer coisa em benefício de um apoiador demitido ou preso.

Tanto no Brasil quanto no Egito, Iraque, Afeganistão, Líbano, Síria, Líbia, etc… a persistência da violência política e religiosa produz o mesmo efeito: desestabilização econômica duradoura; empobrecimento das populações locais; diminuição da segurança jurídica; inibição dos investimentos financeiros externos; redução do turismo; fuga de uma parcela da população.

O Brasil está mais ou menos na mesma situação do Egito, país cujas Forças Armadas regulares convivem de maneira mais ou menos pacífica com milícias religiosas com projetos políticos teocráticos e/ou totalitários.

Durante todo ano de 2020, o Talibãsonaro não produziu informação confiável sobre o COVID-19. Facilitar a propagação da doença, fazer propaganda de remédios ineficazes e dificultar a vacinação foram empregados como uma maneira de aumentar a letalidade da pandemia. Agora que a vacinação é uma realidade o Talibãsonaro não pode deixar de produzir ruído para criar dúvida plausível contra a acusação de genocídio.

A ambição neoliberal criminosa foi substituída pelo medo de punição na forma da Lei. Isso talvez explique a pressa do Talibãsonaro em utilizar policiais radicalizados para dar um golpe de estado a fim de controlar totalmente a cúpula do Judiciário.

Há um ano, as emoções que dominavam o Führer bananeiro eram o sadismo e o desprezo pela população. Agora ele é dominado pelo desespero. Ao dizer que teme por sua vida ele demonstrou ter ficado paranoico. Esse talvez seja o prenúncio da queda. Mas o mito causará milhares de mortes se os governadores perderem o controle das PMs.

A questão de 1 milhão de dólares nesse momento é a seguinte: Quantos aviões de carga a US Air Force enviará para o Aeroporto de Brasília a fim de remover do Brasil os Bolsonaro, seus milicianos e policiais Talibãsonaros caso o golpe de 07 de setembro de 2021 fracasse?

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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