A médica que enfrentou Bolsonaro ou, quem quiser que conte outra (com Direito de Resposta)

É evidente que ela aceitou o convite de Bolsonaro pensando que se tornaria Ministra da Saúde. Ocorre que Bolsonaro já tinha seu candidato há tempos, o médico Marcelo Queiroga, bolsonarista de raiz, líder da ala médica defensora de Bolsonaro.

Incluo no início do texto o Direito de Resposta de José Seripieri Filho, citado no artigo.

DIREITO DE RESPOSTA DE JOSÉ SERIPIERI FILHO

Diferentemente do divulgado por esta página, José Seripieri Filho jamais patrocinou qualquer campanha favorável à médica Ludhmila Hajjar. Tampouco deu suporte, próximo ou remoto, à referida candidatura ao Ministério da Saúde. Aliás, Seripieri não teve qualquer envolvimento com o episódio, inclusive porque com a aludida cardiologista sequer mantém relacionamento próximo. O empresário lamenta, por fim, que a inventiva e falsa elucubração tenha sido acompanhada de qualificações maledicentes – “o polêmico fundador da Qualicorp” -, além de divulgada sem o primário cuidado jornalístico de o ouvir a respeito.

Tudo bem. O manto diáfano da fantasia é produto jornalístico bastante requisitado. Brigas na família real inglesa, heróis sem mácula enfrentando vilões inescrupulosos, tudo isso ajuda na grande mistura da dramaturgia da notícia.

Então, viva a doutora Ludmila Hajjar, que foi levada por Mefistófeles até o alto da montanha e, em nome de suas convicções científicas, recusou a oferta de fama e glória, como Ministra da Saúde de Jair Bolsonaro. Saiu do Palácio distribuindo entrevistas em que dizia que recusara o convite por ser a favor da ciência. Depois, relatou como foi perseguida por vilões noturnos, que tentaram invadir seu apartamento no hotel. Tudo bastante verossímil com o que se conhece de Bolsonaro e seus milicianos.

Antes de comprar a história, que tal submetê-la a alguns testes de verossimilhança:

Teste 1 – a médica iludida por Bolsonaro

Alguém poderia supor que Bolsonaro, o ogro, mudaria seus princípios anti-isolamento, anti-ciência? A doutora Ludmila, sim. Agarrada a essa esperança iluminista, aceitou o convite para conversar com Bolsonaro para, só aí então, cair na real, de que nada mudaria.

Digamos que passa raspando no teste de verossimilhança.

Teste 2 – Bolsonaro convidando mesmo após o vídeo com Dilma

Quando encontrou-se com Bolsonaro, ele já havia recebido uma montanha de vídeos nos quais aparece Ludmila proseando, como velhas amigas, com Dilma Rousseff; em outro, aparece chamando Bolsonaro de louco. Ela negou, disse que a voz não era dela.

Tá bom!, vamos reformular o teste. Bolsonaro recebeu um vídeo no qual Ludmilla aparece conversando com alguém que diz que Bolsonaro é louco.

Alguém, em sã consciência, vai acreditar que, depois de receber esse material, Bolsonaro, o paranóico, o obcecado, manteria o convite a Ludmila. É evidente que não.

Portanto, a versão mais verossímil é a do Ministro das Comunicações que, em um Twitter educado, elogiou a médica mas garantiu que ela jamais poderia ter recusado um convite que jamais lhe foi feito.

Teste 3 – bárbaros ululantes tentando entrar no apartamento de Ludmila

Segundo a médica, por três vezes bárbaros tentaram invadir seu apartamento no hotel em que estava hospedado.

O Estadão foi conferir com o hotel. A resposta: 

“O B Hotel informa que durante toda a estadia de Ludhmila no hotel, período compreendido entre os dias 14 e 15 de março de 2021, nenhuma ocorrência foi relatada nas dependências do empreendimento e nenhuma queixa, sobretudo por parte da vítima, foi repassada à administração”, diz a nota do estabelecimento.

“Além do exposto acima, o B Hotel esclarece ainda que após tomar conhecimento das alegações concedidas por Ludhmila, consultou imediatamente o circuito interno de câmeras e não encontrou nenhuma ‘anormalidade’ nas imediações da suíte ou em qualquer outra área do empreendimento. Funcionários e colaboradores do B Hotel também foram ouvidos e nenhuma ocorrência similar foi constatada”.

Teste 4 – o perfil de Ludmila

Ludhmila é figura polêmica na comunidade médica, considerada excessivamente ambiciosa. Começou na área de infectologia, passou para a cardiologia, foi promovida precocemente, passando por cima de outros médicos, mais velhos e mais preparados. Algum tempo depois, promoveu ataques pesados contra o próprio diretor que a promoveu precocemente, chocando a comunidade médica.

Além disso, tem uma carga horária de trabalho, junto ao Hospital das Clínicas, que não cabe em uma semana. E protagonizou episódios polêmicos no Hospital Sirio Libanês.

No dia 4 de dezembro de 2019, um abaixo assinado de médicos do Hospital das Clínicas cobrava providências da direção em relação a supostas faltas cometidas por Ludmila.

Hipótese mais razoável

Com seu trabalho, Ludhmila conseguiu se aproximar de políticos do centrão. Não é o primeiro caso de médico especializado em políticos e celebridades. Como tal, seu nome foi levado a Bolsonaro por seus antigos pacientes. Pelo Google é possível levantar a enorme quantidade de políticos atendidos pessoalmente por ela. Quem patrocinou sua indicação foi o governador de Goiás Ronaldo Caiado. E houve um amplo trabalho prévio de mídia, levantando sua bola, provavelmente bancado por José Seripieri Jr, o polêmico fundador da Qualicorp e, agora, com outra empresa a QSaúde, que tornou-se patrocinadora do programa médico de Robert Kalil na rede CNN. Kalil e Ludhmila são estreitamente ligados.

É evidente que ela aceitou o convite de Bolsonaro pensando que se tornaria Ministra da Saúde. Ocorre que Bolsonaro já tinha seu candidato há tempos, o médico Marcelo Queiroga, bolsonarista de raiz, líder da ala médica defensora de Bolsonaro.

Bolsonaro recebeu ambos, com a decisão já tomada. Entre a médica amiga da Dilma e o médico bolsonarista, quem iria escolher? Conversou normalmente com Ludmila e não lhe fez nenhuma proposta. Aliás, é impossível que tenha feito qualquer proposta, ele que vê inimigos e comunistas até em suco de melancia. Ainda mais para uma médica que taxou de “vergonha” a citação de uma pesquisa científica da Alemanha, sobre máscaras. Quem citou a pesquisa foi Bolsonaro.

Aí, Ludhmila sai do Palácio e transforma o não convite em uma recusa. E se torna a heroína da mídia, substituindo por um dia o casal Megan e Harry. Afinal, uma história de fadas sempre ajuda a superar o baixo astral da tragédia brasileira.

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