Como pensar um Ensino Médio que promova a equidade?

Por Ana Luiza Basilio

Do Centro de Referências em Educação Integral

Como a escola pública brasileira lida com as demandas e especificidades das juventudes no ensino médio? Como as unidades implementam programas e iniciativas de educação integral? Quais boas práticas curriculares, executadas a partir da gestão escolar, vêm sendo implementadas no país para ampliar a jornada, combater a evasão e manter o jovem motivado nos estudos? Como trabalhar com adolescentes de modo a combater desigualdades históricas que os afetam?

 

Foi com a proposta de jogar luz a essas questões e também criar recomendações para que as escolas sejam capazes de construir um ambiente em que todos os estudantes se desenvolvam integralmente que surge o estudo Políticas Públicas e Gestão Escolar para a Equidade e Desenvolvimento Integral no Ensino Médio.

Desenvolvido pelo Centro de Referências em Educação Integral, em parceria com o Instituto Unibanco, o estudo sistematizou experiências de 29 escolas, 17 nacionais e 12 estrangeiras, contribuindo para o debate sobre a importância da gestão escolar estar alinhada ao desenvolvimento integral dos jovens e, portanto, oferecer práticas pedagógicas mais significativas. Ainda nessa proposta reflexiva, o estudo reunirá especialistas e gestores escolares nos dias 2 e 3 de agosto quando acontece o Seminário Internacional Equidade e Educação Integral no Ensino Médio, em São Paulo.

O Centro de Referências em Educação Integral conversou com a pesquisadora Ângela Meirelles de Oliveira, sobre as conclusões do estudo e os desafios ainda presentes na agenda de uma educação que promova a igualdade.

Centro de Referências em Educação Integral: Qual foi o objetivo do estudo “Políticas Públicas e Gestão Escolar para a Equidade e Desenvolvimento Integral no Ensino Médio”?

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Ângela Meirelles: O estudo partiu da constatação de uma incompletude no debate sobre desenvolvimento integral, porque pouco abrangia a etapa do Ensino Médio. A partir disso, o Centro de Referências pensou em aliar uma pesquisa na literatura científica sobre o assunto a contribuições de especialistas nacionais e a informações sobre práticas que já ocorriam nas escolas, com vistas a elaborar uma série de recomendações. Estas servirão para orientar gestores que desejem implantar práticas que promovam a equidade.

CR: Qual a amostra considerada no estudo?

AM: O levantamento dos trabalhos científicos foi realizado com base em dados nacionais e internacionais. O resultado mostrou um número bastante reduzido de textos sobre desenvolvimento integral, equidade e ensino médio, os quais incluíam relatos de práticas, ensaios e pesquisas. Quanto às escolas, a busca realizada pela equipe de jornalistas do Centro de Referências culminou em 17 experiências nacionais e 12 estrangeiras.

CR: O que o estudo pode inferir sobre o papel da gestão escolar no combate às desigualdades, prevendo uma educação de equidade?

AM: É a gestão escolar que vai planejar ações, articular parceiros, priorizar enfoques, alocar recursos, cuidar do diálogo com as comunidades e com os educadores e educadoras, docentes ou não. Quando esta gestão tem o centro de sua ação em estudantes, em sua multidimensionalidade, ela certamente irá promover uma educação que fortalece a equidade.

CR: Qual a importância de que as escolas desenvolvam políticas para a promoção da equidade?

AM: Em muitos locais, a escola é uma das poucas, ou a única política pública a que as famílias mais pobres têm acesso. Não apenas, mas principalmente nesses casos, a educação não pode se ater somente ao aspecto instrucional. Especialmente porque fará isso em vão se não levar em conta a imensa diversidade sociocultural, étnico-racial e de gênero para que jovens estudantes possam desenvolver todas dimensões do desenvolvimento humano, como a física, a afetiva, a simbólica e a social, além da intelectual.

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CR: O que as escolas que atuam pela promoção da equidade trazem de comum em suas práticas?

AM: Uma característica que me chamou a atenção é que a maioria dos gestores e gestoras declararam nas entrevistas possuir a preocupação com a garantia dos direitos dos e das estudantes. Esta perspectiva está no centro da atuação das escolas.

CR: Quais são os desafios ainda presentes nessa agenda?

AM: O desafio é mesmo a integralidade. Ainda que muitas das escolas atuem com a perspectiva do desenvolvimento integral, até o momento, as ações estudadas são, de muitas formas, sempre parciais. O desafio é articular ações nas mais distintas dimensões do desenvolvimento humano, em uma constante busca de compreensão da complexidade e da diversidade das juventudes que frequentam o Ensino Médio.

CR: Quais são as conclusões do estudo?

AM: As conclusões do estudo podem ser sintetizadas em três grandes eixos. Para o desenvolvimento integral e valorização da equidade no ensino médio, gestores e gestoras precisam atentar às práticas de gestão democrática, à diversidade e à valorização da autonomia de estudantes. É somente a partir da gestão democrática que os estudantes, individualmente ou em grupo, terão a escuta requerida para terem suas necessidades reconhecidas. Quanto à diversidade, uma escola sem preconceitos, racismo ou qualquer forma de discriminação é fundamental para que identidades e diferenças possam se manifestar de forma equilibrada. Nesse aspecto se deve incluir também a diversidade de interesses, que é tão pouco valorizada pelas nossas escolas, em geral homogeneizadoras. Por fim, a atenção à autonomia, tanto pelo incentivo ao estudo em grupo ou individual, pela autoavaliação, pelo protagonismo de jovens em relação a seus projetos de vida são cruciais para o desenvolvimento de seres humanos em sua plenitude.

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1 comentário

  1. De qual ensino médio ela está falando?

    Do sistema público ou do privado?  E como conseguir professores para esta escola integral se eles são oriundos de uma universidade que nada tem de integral, sejam públicas, sejam privadas? Com os poucos professores que ainda pensam integralmente, poderíamos, quando muito, montar metade de meia dúzia de boas escolas nas principais cidades.  Não seria mais sensato pensar sobre os professores que nossas universidades não diversificadas vem formando ano após anos?  Nas universidades públicas, mais vale um paper publicado do que uma aula de graduação bem organizada e inovadora. Nas privadas quanto mais rápido melhor. Mas quem está disposto a criticar a Academia dos intocáveis? O Andes? Mas como, se seus interesses se confudem?

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