
No Dia da Escola, da Educação “1968”, por Odonir Oliveira
“HORA DA ESCOLA !”
O uniforme esticado na cadeira pra manhã seguinte, saia de pregas, blusa de gola bem passada, meia e sapatos boneca pretos.Tudo adiantado pra não perder tempo de manhã.
O caminho até a escola ligeiramente curto ia encontrando uma, duas, três. dez colegas que se uniam em uma conversa de Beatles a festivais da canção, namoros supostamente iniciados, paqueras, brincadeiras de “me pega e me deixa de alguns”, cantoria de outros. Assunto sobre as aulas ou os conteúdos…nem unzinho. Ah, o professor de Ciências é um pão; será que tem namorado; credo, ele pode ser seu pai; nada, não deve ter nem dez anos mais do que eu; você e suas paixões platônicas, eu, hem !
Aula de inglês, recitação do verbo to be forever, preenchimento de exercícios com verbos irregulares, consulta no livro de João Fonseca. Professora, posso trazer a letra de Yesterday “All my troubles seemed so far away” pra gente traduzir e cantar? Vamos ver…vamos ver.
Recreio. Cantina. Vôlei. Detestando. Formação de torcida organizada. Gritos extravasando o que nas aulas era sempre contido. Vontade de dizer, de expressar, de perguntar, se interagir. Nada. 1968.
Aula de português, fonética, vogais anteriores, médias posteriores, consoantes bilabiais, linguodentais, fricativas , alveolares. Meus Deus, pra quê? Exercícios de completamento no livro de português. Redação? Poesia, narrativa, argumentação, carta, bilhete, …nada. Nada mesmo. Pouca escrita, quando acontecia era pra nota, pra se avaliar conteúdo gramatical. Talvez se as bilabiais foram bem aprendidas ou não… e voltar a ensiná-las.
Aula de história, professor gordinho, afetivo, alegre, lotando o quadro-negro de matéria a ser copiada, causas e consequências do domínio romano, imperadores. 1968. Nenhuma referência ao Brasil, ao Rio, a nós. Só consumindo história morta, sem análise comparativa, sem contextualização, sem estudo das mentalidades, sem nexo, sem conceitos, sem pé nem cabeça. Conteúdo de 4ª série ginasial oras bolas, o livro diz que é esse, então…
Aula de artes… oba… de artes. Vamos aprender hoje abscissas, é muito importante pra entender incógnitas, é útil ao colegial. Vontade de pedir pra ter aulas de artes… mas isso só corredor, depois da aula, no caminho do pátio ou seria do pátheo; na quarta série ginasial aula de artes é de geometria, preparando para a geometria analítica do colegial… a matéria é essa, não tenho como mudar, entende. Não, não entendo. 1968.
Aula de educação física, grupos separados meninos e meninas, meu nome sempre constando da lista errada… não gosto de vôlei, não jogo futebol, não faço ginástica olímpica. Oba, chefe de torcida, criar os gritos de guerra, fazer os cartazes de apoio ao time, organizar uma bandinha fuleira de tambor, pandeiros e apitos…criar um hino, juntar todo o mundo, ir cantando pelo caminho.
Que bom que hoje não tem matemática, geografia, OSPB, nem Moral e cívica, nem ciências porque o livro de ciências já está quase no fim, já vimos tudo de platelmintos, nematelmintos e anelídeos. Logo vai ter prova e decorei tudo, gosto de estudar repetindo, falando bem alto o que está no livro, que assim gravo melhor; já minha amiga prefere escrever páginas e páginas aquilo, credo !
“Hora da escola”- alguém acordando as vontades de novo hoje; no caminho o motivo danado de grande de torcer pelo time, de ir cantando e ensinando o novo grito de guerra, todos muito motivados a ir pra escola, afinal o social é o mais importante. Necessidade de se sentir pertencente, gregário, integrado. Igual a todos
Anna Dutra
29 de abril de 2015 11:49 amLembranças ..
Ah, que tempo bom !!
Puro, inocente, de um desbravar constante. Fase em que queremos crescer. A melhor, mais leve, mais simples da vida. E nós querendo crescer, supervalorizando a briga com a amiga, o namorico, a festa… Eu fui muito feliz aí. Minha vida na faculdade foi árida, muito focada, acho que o choque de realidade me desencantou … Sempre fui muito tímida, e isto não combina com o “ser universitário descolado”.
Sentia falta de tudo. Queria o calor do Ensino Médio e encontrei pseudo-intelectuais das Faculdades de Ciências Sociais, deitando falação e desejando cooptação. Uma turma que só queria jogar ping-pong no diretório e fazer assembléia. Foi chato.
Era tão fácil ser da bagunça. Excelente aluna, sempre fui poupada nas advertências e castigos. As aulas de ginástica – que eu invariavelmente matava, os simuladões, as feiras de ciências: qualquer coisa valia para farrear e amigar! Amiga fiel, sempre fui solidária e arrisquei algumas vezes o pescoço pelos amigos queridos. Esses são os amigos da vida! Por quem choramos, por quem torcemos, com quem brigamos defiitivamente incontáveis vezes. Minhas, poucas, amizades diletas são, em sua maioria, dessa época. Cada um para um canto, vivendo a vida, escolhendo caminhos diferentes, mas sempre no coração.
Se tem uma preocupação – uma só – que eu não tenho com a chegada da idade é que é certo que terei lembranças maravilhosas deste tempo longínquo para me ocupar. Além, é claro, das 200 mil coisinhas que estão listadas para quando a aposentadoria chegar… A lista só cresce! rs.
Nestes tempos de internet, whatsapp, instantâneos, conversas em mesas pelo celular, fico me perguntando se a meninada de hoje terá a mesma sorte…
Obrigada, Odonir, por me fazer mergulhar de volta a este universo, ainda que por um instante nesta manhã de um dia que promete ser duro.
Lindo post!!
Odonir Oliveira
29 de abril de 2015 2:07 pmProcurei na narrativa contextualizar a educação em um tempo…
E ao que parece, os conteúdos continuam quase os mesmos, as aulas quase as mesmas, as escolas quase as mesmas.Os jovens têm desejos, sonhos, querem usar o twitter nas aulas, o Face, querem pesquisar na internet, querem criar rádios pra internet, querem viver a escola, aprender como se estuda, como se faz. É preciso ensinar os meninos a aprender, contudo.
Eu, em 1968, tinha 14 anos. Hoje ainda vejo muito disso sendo repetido, para jovens que pertencem ao século XXI, são humanos como nós éramos, mas são outros, e a EDUCAÇÃO , assim maiúscula, precisa entender isso e agir.
Anarquista Lúcida
29 de abril de 2015 9:50 pmVc nunca ouviu dizer q se alguém do Séc. XIX voltasse à vida…
ficaria perturbadíssimo em nossa época, mas se curaria ao entrar numa escola? Pois é. Nao muda nada.
agincourt
29 de abril de 2015 3:59 pm2015
Apesar do currículo discutível e ultrapassado já em 1968, de que nos fala o artigo; hoje, em escolas da rede pública, creio que o quadro geral é o do relato abaixo.
‘É cuspe e giz’
Relato de professor que voltou à sala de aula após 20 anos revela realidade nua e crua de uma escola estadual
“Sou formado em Física, com licenciatura, mas trabalho em outra área. Sempre estudei em colégios e universidades públicas. Percebendo a carência de professores no estado, me inscrevi no cadastro de contratações temporárias. Ano passado tive a oportunidade de lecionar em dois colégios estaduais. Tenho observações a fazer que representam o olhar de um cidadão que deseja cooperar.”
Assim começava um e-mail recebido pela coluna, enviado por um professor que ficou mais de 20 anos afastado da sala de aula. Ele queria contar mais de sua experiência, e marcamos um encontro. Pediu que seu nome, bem como o das escolas onde atuou, não fosse divulgado. O objetivo da publicação de seu relato pessoal aqui não é generalizá-lo, pois é certo que há muitas realidades no ensino público. Mas é uma história, como tantas outras, que merece ser ouvida:
“De início, senti muito entusiasmo. O salário era baixo, mas não estava ali por isso. Já no primeiro encontro com o diretor, me assustei com uma pergunta: ‘o senhor vai mesmo aparecer, não é’? Ele explicou que o último que veio para dar aulas de Física se apresentou no primeiro dia e nunca mais voltou.
“No primeiro contato com o outro professor de Física da escola, perguntei qual o livro utilizado. ‘Nenhum’, respondeu ele, explicando que as obras ficavam guardadas num armário porque os alunos ‘não queriam carregar os livros para casa e não havia como distribuí-los e recolhê-los a cada aula’. Comentei que pretendia preparar uma aula no Power Point, para deixá-la mais dinâmica. Com certa incredulidade, meu colega respondeu: “Se quiser, pode fazer”. Mas o diretor me incentivou. A escola possuía um excelente equipamento de data show, que não era preciso reservar com antecedência, porque poucos usavam.
“Tentei fazer algo diferente, mas fui percebendo que não seria fácil. Vi que, mesmo no ensino médio, os alunos não haviam aprendido conteúdos que já deveriam ter sido ensinados no fundamental. O problema era comum aos colegas de outras matérias. Pedi ao diretor para ver as provas do último professor. As notas, com poucas exceções, variavam de zero a um.
“Ao longo do ano, vi vários alunos em sala usando fones de ouvido, celulares, interrompendo constantemente a lição. Testemunhei até agressões físicas. Sentia que os jovens não me viam como aliado para aprender, mas como um obstáculo a ser superado na obtenção do diploma. Mas como seriam aprovados se nada sabiam e, principalmente, não faziam nenhum esforço para aprender? Se as provas apresentavam resultados tão ruins, os índices de reprovação deveriam ser enormes. Disse ao diretor que não teria condições de aprovar a maior parte da turma. “Pelo amor de Deus, professor, o que será desses alunos?”, respondeu ele.
“Fui percebendo como todos davam um jeitinho de driblar a falta de conhecimento. Notas em trabalhos de pesquisa feitos em poucos dias… Projetos sérios nem pensar, pois eles não queriam se engajar em nada. Os próprios estudantes apontavam a solução: ‘Professor, quando o senhor vai dar um trabalho? Uma coisa pra gente fazer em casa…’
“Aprovação sem mérito desqualifica o diploma. Por outro lado, o diretor tinha razão, reprovar em massa parecia um desastre. Assim, ante a inevitável incapacidade de despertar o interesse dos alunos em aprender com o crivo dos testes, sucumbimos todos.
“Ao entrar, no fim do ano, na sala de professores com um calhamaço de pesquisas sob o braço, encontrei o mesmo professor que me recebera com desconfiança. Sem conseguir disfarçar o sorriso irônico, ele comentou: ‘Viu, professor? Com esta clientela, não adianta: é cuspe e giz!’”
Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/e-cuspe-giz-15981633~
Odonir Oliveira
29 de abril de 2015 8:47 pmMinistro defende intervenção no ensino e mudança radical
dos currículos
Mangabeira Unger propõe também carreira nacional para os professores
O ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Roberto Mangabeira Unger, apresentou, em audiência pública da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, uma proposta preliminar que prevê alterações profundas no sistema de ensino brasileiro. Ele disse ter sido incumbido de formular a proposta pela presidente Dilma Rousseff, dentro do projeto “Pátria Educadora”. “Este é um projeto de Estado e é a prioridade número um da presidente”, disse.
A proposta de Mangabeira prevê uma intervenção na educação, principalmente na qualidade das escolas de municípios com fraco desempenho. Ele chama isso de “cooperação federativa”. “Tudo em matéria de educação passa pelo federalismo cooperativo, que é a maneira de organizar a cooperação entre governo federal, estados e municípios”, explicou.
Ele propõe mudanças na divisão de recursos para União, estados e municípios, e a transferência de investimentos para lugares com ensino deficiente a partir da avaliação de órgãos colegiados inspirados no Sistema Único de Saúde (SUS). Isso seria feito por meio de um órgão que teria a participação dos três entes federativos, com a missão de identificar os problemas regionais e intervir para que a qualidade do ensino aumente.
Mangabeira Unger participa de audiência na Comissão de Educação da Câmara
O plano de Mangabeira prevê ainda uma alteração radical nos currículos escolares, a adoção de uma carreira nacional para os professores, mudança no processo de formação de docentes e na forma de escolha de diretores de escolas baseada em mérito.
Currículo
Mangabeira Unger fez críticas ao ensino tradicional. “A tradição no Brasil é de enciclopedismo raso. É um decoreba. Como se o melhor aluno fosse aquele que conseguisse decorar a enciclopédia. Esse modelo briga com os pendores dos brasileiros, não é nossa natureza. O Brasil é uma anarquia criadora”, disse.
A proposta da Secretaria de Assuntos Estratégicos sugere mudança em todos os currículos, com menos conteúdos e maior profundidade no ensino. “É uma maneira de desenvolver as capacitações analíticas. Aprende-se criticando e criando”, explicou. “Profundidade conta mais que abrangência. Temos que enxugar o currículo.”
Recursos
Ele também propõe a extensão do período escolar, além do aumento da qualidade do ensino, e para isso ele sugere uma nova divisão dos recursos e das atribuições dos entes federados para a implantação de um sistema nacional de ensino, em especial a transferência de recursos dos lugares mais ricos para lugares mais pobres. Ele admitiu a criação de um novo fundo para isso.
“O Fundeb (Fundo de Desenvolvimento do Ensino Básico) tem sentido apenas levemente distribuidor. Ele ajuda a elevar os estados mais carentes a um patamar mínimo. Mas estamos discutindo agora formas de fortalecer esse sentido distribuidor. Ou dentro do Fundeb ou dentro dos recursos do FNDE ou definindo, no futuro, um terceiro fundo”, disse.
Diretores
O ministro defendeu a criação de centros regionais de formação de diretores de escola e afirmou ser contra a seleção apenas mediante eleição. “Diretores são muito importantes. Eles teriam que ser escolhidos entre os mais qualificados. A qualificação tem que ser o primeiro critério, mesmo que o segundo seja o processo eletivo”, disse.
A proposta prevê também que os professores tenham dedicação exclusiva a apenas uma escola e que não ensinem apenas uma disciplina, mas várias disciplinas dentro de uma área.
Piso salarial
Mangabeira Unger quer ainda mudança na formação de professores, com uma carreira nacional e a adoção de um piso nacional salarial que permita a progressão funcional. “A ideia é propor aos estados diretrizes de uma carreira comum, nacional, e essa carreira tem que ser vinculada ao piso salarial nacional, definido de modo a respeitar as diferenças regionais e a permitir uma progressão dentro da carreira”, disse.
Ao responder pergunta da deputada Professora Dorinha Seabra Rezende (DEM-TO), autora do requerimento da audiência pública, ele disse que a discussão do piso salarial não pode superar a da carreira. Segundo a deputada, muitos estados não estão cumprindo o piso por falta de recursos.
“Há um perigo a enfrentar em relação ao piso. Não podemos permitir que a questão maior, da carreira nacional, seja inibida pelo piso. O piso é um tema menor. O importante deve ser a carreira e não o piso”, disse.
http://www.jb.com.br/pais/noticias/2015/04/29/ministro-defende-intervencao-no-ensino-e-mudanca-radical-dos-curriculos/
Anarquista Lúcida
29 de abril de 2015 10:00 pmProfessores ensinando mais de uma disciplina?
Têm formaçao para isso? E depende muito das disciplinas. Pode ser que um professor de Física possa ensinar Química, e, menos bem, Matemática (ele saberá Matemática, mas saberá ENSINAR Matemática? De modo a desenvolver o raciocínio matemático, nao apenas o domínio de conhecimentos?). Mas um professor de Português, vai ensinar o quê da “mesma área”? Inglês? Thank you and Good Morning? Temo que a idéia, que deve ser baseada num desejo de interdisciplinaridade, seja utilizada pelas secretarias de Educaçao apenas como meio de substituir professores de disciplinas que nao contam mais com muitos professores (todas aquelas que permitem conquistar um outro emprego…; magistério hoje em dia virou condenaçao).
Anna Dutra
29 de abril de 2015 10:40 pm:'((
Dia de luto para a Educação! Massacre de cidadania no Paraná.