O mau uso das ferramentas de gestão na educação, por Luis Nassif

Vamos por partes.

Gestão é relevante em qualquer área, no plano público, privado ou pessoal. Planejamento, indicadores, reavaliações, são ferramentas preciosas, desde que se tenha clareza sobre as estratégias traçadas.

E, definitivamente, o objetivo final de um projeto educacional não é melhorar a nota no IDEB. Anos atrás, um desses pedagogos gerencialistas, Gustavo Ioschpe, apareceu com a proposta “revolucionária” de que cada escola deveria colocar na entrada uma placa com o indicador IDEB, para estimular a competição. Em São Paulo, o governo do estado instituiu bônus para diretores cujas escolas atingissem a meta. Como uma dos indicadores é o nível de reprovação, muitas escolas trataram de providenciar aprovação em massa de seus alunos.

Agora, a Secretaria da Educação de São Paulo montou uma parceria com ONGs empresariais dedicadas à educação. O primeiro passo foi um teste com todos os coordenadores, para identificar aqueles que possuíam qualidade intrínsecas para a função. Uma parcela, que não se enquadrava nos critérios, foi afastada.

Tudo bem. Avaliações são relevantes para selecionar os mais capazes. O problema são os critérios analisados. Os coordenadores foram avaliados por sua capacidade de tocar o dia-a-dia, pela competência em fechar e acompanhar contratos e cuidar da zeladoria das escolas.

Cáspite! Reclamam tanto do burocratismo das universidades públicas e incorrem no mesmo erro. Nas universidades, o pesquisador mais gabaritado, em cada departamento, é escolhido para diretor. Perde-se um pesquisador e não se ganha um gestor, pois são características totalmente distintas.

Ora, essas ONGs enaltecem o empreendedorismo, o espírito de iniciativa, a meritocracia. E, no entanto, transformam a mais relevante função de uma escola em um cargo burocrático, de batedor de carimbo, de amanuense, função que poderia ser exercida por qualquer gerente de bar.

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Há um vício recorrente dessas metodologias, de buscar sempre o mesmo padrão, a universalização dos procedimentos, em uma área que é essencialmente local.

O universo de uma escola é complexo, especialmente escolas públicas em áreas de conflito. Um organismo inteligente, inovador, trataria de identificar modelos muito mais complexos de tratar a questão. E o caminho passa por identificar as experiências inovadoras, espalhá-las pela rede e estimular o espírito empreendedor dos diretores de escola.

Por exemplo, o Piauí logrou desenvolver uma metodologia de ensino que o transformou em um dos campeões do IDEB. E grande parte da pedagogia se dá fora da sala de aula, com os professores interagindo com as crianças e suas famílias, entendendo o ambiente social e buscando soluções para os problemas que possam aparecer. O próprio Ministério da Educação fez um grande levantamento de experiências inovadoras, para disseminá-las pelo setor.

Não basta o conhecimento de experiências inovadoras. É preciso também criar maneiras de estimular a iniciativa dos diretores, fazê-los entender o entorno escolar, identificar os problemas sociais e econômicos de seus alunos, e buscar soluções específicas para cada escola.

Não se trata de tarefa fácil, é óbvio. Projetos dessa natureza precisam conquistar corações e mentes de professores, pais e alunos.

É por aí que deveriam entrar as ONGs privadas, em vez desse gerencialismo primário, que tenta muito mais enquadrar o professor em uma camisa de força dos indicadores do que conquistá-los para a grande tarefa de construir um modelo educacional à altura dos desafios do pais.

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Obviamente, é uma discussão para frutificar no próximo governo, entre organizações de níve: as ONGs empresariais, os verdadeiros pedagogos, as associações de professores. Ministério que possui um Ministro do nível com o nível de imbecilidade de Abraham Weintraub deve achar que pedagogia é nome de obra marxista.

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4 comentários

  1. Excelente reflexão! Tenho feito este raciocínio desde há muito. Como alguém que observa e, como pesquisador quer entender e, professor, intervir de forma efetiva e otimizada, tenho as mesmas impressões.
    Na minha opinião, projeto e ações orientados por reflexões como estas tem um significativo potencial de intervenção positiva.
    Parabéns!
    Fico tranquilo de saber que pessoas como Luis Nassif cuida com tanto zelo da nossa tão sofrida e carente de cuidadores como é a nossa Sociedade Brasileira.

  2. Nassif eu tô com vontade de me educar melhor na arte comentárica ggnista,se eu me esforçar,pesquisar e etc… e postar um belo de um comentário vc põe em destaque?Não é minha praia mas posso tentar !!

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  3. É preciso que as pessoas entendam como a legislação trata serviços públicos e empreendimentos privados. Por lei, um empreendedor privado pode fazer qualquer coisa que não seja PROIBIDA por lei. Já o dirigente/gerente público só pode fazer o que for expressamente PERMITIDO por lei. Ou seja, para (tentar) proteger o patrimônio e investimento públicos se sacrifica as possibilidades de inovação, já que você está restrito ao que já é previsto em lei. Desse modo, quem diz que irá gerenciar nos moldes privados a coisa pública, estará mentindo .

  4. então é isso, o estado de exceção, a irresponsabilidade
    social desses governos golpistas de direita, inviabiliza
    qualquer possibilidade da pessoa exercer
    esses cargos e funções tão importantes para o
    desenvolvimento e o crescimento do país…
    sem o exemplo institucional dos maiores representantes
    do estado democrático de direito, esvai-se qualquer
    possibilidade de de que algo dê certo na sociedade….
    aO INVéS DA PAZ, CrIa-SE A TRENSÃO E O CAOS….

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