Ricardo Nunes associa série do De Olho nos Ruralistas a crime de “perseguição”
Observatório iniciou há duas semanas uma série sobre o poder em São Paulo, chamada Endereços; Secretaria de Comunicação enviou resposta definindo postura do veículo como algo “assemelhado” ao crime previsto na Lei Federal 14.132, relacionada ao stalking
Por Alceu Luís Castilho
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, associou o trabalho do observatório jornalístico De Olho nos Ruralistas a crime de “perseguição”. A afirmação ocorreu nesta quarta-feira (26), em resposta a uma lista de perguntas enviadas pela reportagem relativas ao terceiro episódio da série Endereços. O vídeo, disponível no YouTube do observatório, narra as relações do político do MDB com o município de Embu-Guaçu. Ali residem sua mãe, Maria do Céu Reis, e sua irmã, Janaína Reis Miron. Janaína é alvo de processo por ameaças contra o atual prefeito do município e contra uma ex-funcionária da principal empresa da família Nunes, a Nikkey Controle de Pragas.

“Em relação aos apontamentos feitos pela reportagem, o prefeito Ricardo Nunes afirma que não há qualquer irregularidade e que tudo está em conformidade com a legislação vigente”, inicia a nota, enviada pela Secretaria Especial de Comunicação da prefeitura. “O prefeito acrescenta que a postura do veículo De Olho Nos Ruralistas tem se assemelhado a perseguição, um crime previsto na Lei Federal 14.132, de 31 de março de 2021″.
Essa lei foi criada em meio às discussões sobre stalking em redes sociais — em particular, a prática de assédio contra mulheres. Ela define crime de perseguição como o ato de “perseguir alguém, reiteradamente e por qualquer meio, ameaçando-lhe a integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade”.
O conteúdo da lei não faz referência à atividade jornalística em temas de interesse público. A punição prevista no Código Penal é de seis meses a dois anos de reclusão.
Confira abaixo o vídeo que originou a resposta de Ricardo Nunes.
As ameaças de sua irmã, Janaína Reis Miron, serão detalhadas amanhã, em reportagem específica. Nos próximos dias publicaremos essa e outras notícias relativas ao poder público em São Paulo e a o município de Embu-Guaçu, com outros personagens além do prefeito paulistano e de seus familiares. Entre eles, um subprefeito e um ex-subprefeito, que foram secretários municipais em Embu-Guaçu, e o presidente da Câmara Municipal em São Paulo, vereador Milton Leite (União Brasil).
PREFEITO RECUSOU GRAVAÇÃO DE ENTREVISTA
Desde o início da série Endereços, que investiga a faceta espacial do poder em São Paulo, De Olho nos Ruralistas vem enviando semanalmente os pedidos de informação à assessoria de imprensa da prefeitura. No primeiro episódio, sobre o sítio do prefeito em Marsilac, a resposta chegou após a publicação do vídeo e foi detalhada em uma reportagem específica: “Prefeito de SP afirma que lotes em sítio estão “em regularização”“.

O segundo episódio foi sobre contratos da Nikkey Controle de Pragas, anteriormente controlada pelo político e, desde 2022, em nome de seu primogênito Ricardo Nunes Filho. Esses contratos foram feitos com o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e a Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô).
Por WhatsApp, a prefeitura informou que a própria empresa enviaria resposta. A Nikkey respondeu, logo no primeiro parágrafo, em tom de ameaça: “Diante de reportagens descontextualizadas e com objetivos eleitoreiros e escusos, a empresa irá recorrer ao Judiciário para defender a sua honra e legado diante de qualquer ameaça ou deturpação de sua história”. Confira a íntegra aqui.
Diante das informações relativas à irmã do prefeito, presentes no terceiro vídeo, De Olho nos Ruralistas solicitou a gravação de uma entrevista em vídeo com Ricardo Nunes. A assessoria de imprensa da prefeitura negou e pediu que as perguntas fossem enviadas por escrito. Foi a resposta a essas perguntas que associou o trabalho jornalístico do observatório ao crime de perseguição.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: www.catarse.me/jornalggn “
Deixe um comentário