
Por José Vitor Bomtempo
A bioeconomia envolve o uso de recursos biológicos renováveis que são convertidos em energia, produtos e materiais. O uso de matérias-primas renováveis, de biomassa de diversas origens, tem para a construção dos diversos setores da bioeconomia uma importância fundamental. É o caso por exemplo dos segmentos de bioenergia, produtos químicos e materiais derivados da biomassa, a chamada biobased industry.
A posição brasileira na produção desses recursos – cana de açúcar, culturas agrícolas, florestas para papel e celulose – gera uma oportunidade de aproveitamento desses insumos para a construção de uma forte indústria biobased. Mas qual o potencial inovador dessa trajetória baseada em recursos renováveis?
O discurso da capacitação tecnológica e inovadora é frequentemente reticente em relação às trajetórias baseadas em recursos naturais. A capacitação inovadora dos países emergentes costuma ser vista como um esforço de alcance do nível de capacitação dos países desenvolvidos nos segmentos dinâmicos da indústria. É o famoso processo catching-up que nas últimas décadas tem o exemplo coreano como o case exemplar. Trajetórias baseadas em recursos naturais seriam então a princípio limitadas para a geração de capacitação inovadora de ponta para o país.
Alguns trabalhos recentes têm se dedicado a questionar essa percepção. Talvez esteja se abrindo uma linha interessante de pesquisa que pode contribuir muito para o país entender o potencial da indústria biobased não só como geração de exportações competitivas – em geral de mérito reduzido na visão de alguns porque “não passam de commodities” como a soja – mas como fonte privilegiada de capacitação inovadora de ponta em escala mundial.
A especificidade dos recursos naturais e dos problemas que a indústria neles baseada enfrenta tornaria sem sentido a noção de catching-up pela inexistência de referências a alcançar. Em vez disso, o desafio é um path-creating para a solução de problemas novos e sem referência nos países desenvolvidos que, pela especificidade da trajetória e de seus problemas, têm pouco ou nenhum desenvolvimento no ponto.
O primeiro dos trabalhos é o de Wellington Pereira, na tese defendida na UFPR em 2015: A Participação Do Estado No Fomento Ao Etanol Como Uma Oportunidade Estratégica De Desenvolvimento Econômico: As Políticas Federais De Estímulo Ao Etanol No Brasil E Nos EUA
O foco da pesquisa é a discussão do uso dos recursos naturais como uma forma de estimular o desenvolvimento tecnológico e econômico. O autor destaca o debate sobre os resultados obtidos pelos países onde os recursos naturais são mais abundantes, comparativamente aos países mais industrializados. Na tese, busca-se recuperar essa discussão com o intuito de reinterpretar as trajetórias baseadas em recursos naturais, “tradicionalmente associadas a um viés negativo do ponto de vista do desenvolvimento econômico.” Estabelecida a discussão sobre o potencial caráter virtuoso das trajetórias baseadas em recursos naturais, o trabalho dedica-se ao caso do etanol e das políticas públicas voltadas para o seu desenvolvimento tecnológico, em particular visando ao etanol de segunda geração. O papel dessas políticas é destacado e faz-se uma detalhada comparação dos programas e mecanismos de apoio nos casos do Brasil e dos EUA. Chega-se à conclusão de que o potencial inovador do etanol não parece ser efetivamente reconhecido pelas políticas públicas no Brasil na mesma medida que nos EUA.
O segundo trabalho, o artigo de Paulo Figueiredo: Discontinuous Innovation capability Accumulation in Latecomer Natural Resource-Processing Firms, publicado na revista Technological Forecasting and Social Change, em 2010, adota uma abordagem diferente. A pesquisa se dedica a caracterizar detalhadamente como a indústria florestal, de papel e celulose no Brasil desenvolveu caminhos de construção de capacitações que se afastam da lógica do catching-up e que poderiam ser próprios das indústrias de processamento de recursos naturais. O trabalho extrai suas conclusões do estudo de 13 empresas dos segmentos florestal, papel e celulose. As trajetórias de desenvolvimento tecnológico e inovador dessa s empresas foram estudados no período 1950 a 2007. Vale a pena reproduzir a amplitude dos resultados obtidos na forma que nos é apresentada por Paulo Figueiredo:
“ (1) in contrast with the majority of case studies reported in the literature, the pathways followed by firms in their accumulation of innovation capability involved aqualitative departure from the established technological trajectory at an early stage in the development of their capability;
(2) the pathways of firms along the new technological trajectories were nevertheless characterised by a high degree of variability (from intermediate to world leading innovators) in terms of the levels and speeds of the accumulation of innovation capability;
(3) firms that have attained progressively higher levels of innovative performance have more rapidly developed a combination of internal and external research-based arrangements in order to undertake increasingly complex, but firm-centred innovation efforts.”
Além da contribuição metodológica para uma linha de pesquisa que estude o processo de construção de capacitações inovadoras nas indústrias baseadas em recursos naturais, o trabalho identifica que algumas empresas foram capazes de criar uma posição de liderança mundial a partir do desenvolvimento de capacitações que seguiram caminhos próprios e inovadores para resolver problemas que não tinham referência em outros países, como no caso do cultivo do eucalipto que se tornou mais produtivo no Brasil do que no seu país de origem, a Austrália.
Para ilustrar o potencial do segmento de papel e celulose analisado na pesquisa de Paulo Figueiredo do ponto de vista da construção de capacitação inovadora de nível mundial, pode-se lembrar o artigo recente publicado na revista Economist –Pulp producers in Brazil: Money that grows on trees – no qual a competitividade das empresas brasileiras na produção e exploração de recursos florestais é destacada e elogiada de forma entusiasmada. Mais interessante para a perspectiva da construção da bioeconomia é a conclusão do artigo que aponta a busca de novas oportunidades para o uso do eucalipto na produção de biocombustíveis, bioprodutos e bioplásticos. Citam-se iniciativas de algumas empresas nessa direção e o dirigente de uma delas afirma entusiasmado: “Money can grow on trees. “It just takes time.”
Um terceiro trabalho que merece ser destacado é a tese de doutorado de Rafael Gonzalez, sob orientação do prof. Paulo Figueiredo, defendida recentemente na EBAPE/FGV: Processo Alternativo De Catch-Up Em Indústrias Intensivas Em Recursos Naturais: Uma Análise Empírica Da Trajetória Tecnológica Da Indústria De Bioetanol De Cana-De-Açúcar No Brasil.
A tese continua a exploração do processo de desenvolvimento tecnológico e inovação em indústrias intensivas em recursos naturais no contexto de economias emergentes que Paulo Figueiredo tinha iniciado. A tese explora como a acumulação de capacidades tecnológicas e os mecanismos de aprendizagem influenciaram a trajetória tecnológica na indústria de bioetanol de cana-de-açúcar no Brasil, durante o período de meados da década de 1970 a 2014. O ponto de partida novamente é a tendência dos estudos de capacitação tecnológica e inovadora de tomarem o catching-up como um processo tendo em vista as atividades industriais normalmente reconhecidas como de elevado conteúdo tecnológico. Os estudos não costumam reconhecer que o desenvolvimento de capacitações inovadores de primeiro nível poderia ocorrer em indústrias intensivas em recursos naturais. Essas indústrias intensivas em recursos naturais são geralmente identificadas como commodities e low-tech, caracterizadas por uma limitada oportunidade de aprendizagem tecnológica e acumulação de capacidades tecnológicas.
Baseando-se em evidências da indústria de bioetanol do Brasil, Rafael Gonzalez faz um riquíssimo levantamento do processo de aprendizagem tecnológica e acumulação de capacidades tecnológicas no bioetanol brasileiro, incluindo as trajetórias agrícola e industrial. Foram exploradas 20 organizações envolvidas com o etanol junto às quais foram colhidas evidências empíricas do processo de capacitação inovadora em longo prazo. (…) Continua no Blog Infopetro.
zesergio
13 de abril de 2016 2:11 pmas vantagens brasileiras…
Que “Bomtempo” seria para a nação brasileira se todos pensassem assim. A produção de conhecimento, capital, infraestrutura, qualidade de vida, industrialização com o minimo de impacto ambiental, com tecnologias renováveis, acessiveis a todas as regiões do país. Mas então vem os ecoxiitas, a burocracia estatal que quer a parte do “urubu”, quero dizer do leão, os interesses estrangeiros, combatidos em público e defendidos a quatro paredes. O país que não sabe para onde quer ir, mantendo a elite de sempre, que vende mapas para lugar nenhum.