Por Luiz Gonzaga Belluzzo (filho)
Os encontros e desencontros nas cercanias do judiciário brasileiro, leia-se Supremo Tribunal Federal, ofereceram a oportunidade para recordar o discurso do juiz Luiz Gonzaga Belluzzo, por ocasião de sua aposentadoria em 1965.
Uma coincidência biológica me proporcionou a ventura de frequentar as lições do juiz, meu pai, ao longo de 60 anos. Ele aposentou-se em 1965 por temer a invasão de suas prerrogativas de juiz independente por um esbirro fardado das oligarquias golpistas de 1964. Nada de heroico, apenas submissão aos valores liberais e republicanos que guiaram sua vida desde os tempos da Faculdade de Direito de São Paulo.
Discurso do magistrado Luiz Gonzaga Belluzzo
‘Preferi a tranquilidade do silêncio ao ruído das propagandas falazes; não suportei afetações; as cortesias rasteiras, sinuosas e insinuantes, jamais encontraram agasalho em mim; em lugar algum pretendi subjugar, mas ninguém me viu acorrentado a submissões; – dentro de uma humildade que ganhei no berço, abominei a egomania e a idolatria; não me convenceram as aparências, e para as minhas convicções busquei sempre os escaninhos. – Particularizando: no exercício das minhas funções de magistrado diuturnamente, dei o máximo dos meus esforços para bem desempenha-las, – e, ainda que em meio de uma atmosfera serena e compreensiva, em nenhum momento transigi com a nobreza do cargo; escapei de juízos temerários, tomando cautelas para desembaraçar-me das influências e preferências determinantes de uma decisão; – e, se alguma vez, inadvertidamente, pequei contra a lei, vai-me a certeza de que o fiz para distribuir bondade e benevolência.
Em suma, – cumpri o meu dever nos moldes e sob inspiração de minha formação intelectual, moral e sentimental.
Isso, apenas isso; o que, se é suficiente para permitir uma aposentadoria com imperturbável placidez de consciência, não enfeixa méritos autorizando outorgo de tão valioso prêmio, que, no entanto, tamanha a espontaneidade da oferta, recebo com júbilo, colocando tudo o mais à conta da generosidade dos bons amigos, que nunca me regatearam o calor das suas simpatias e desvelos; amigos, que não aqueles das ressurreições, os quais somente comparecem às homenagens que se realizam nos píncaros; mas, amigos que nos vêm obsequiar quando já abandonadas as alturas, – na planície -, num gesto largo de sinceridade na estima.
Neste meu entardecer, após tantas lutas e cuidados, não poderia almejar maior e melhor conforto.
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