Setor elétrico: deu ruim, por Roberto Pereira D’Araujo

O que se verá nessa análise é um dos resultados de um Brasil que não aprofunda temas com debates que coloquem frente a frente visões distintas.

Enviado por Ronaldo Bicalho

Setor elétrico: deu ruim, por Roberto Pereira D’Araujo

“Avaliações energéticas apresentadas neste PEN 2019 indicam que, face à crise hídrica da região Nordeste, que se prolonga desde o verão 2011/2012, possivelmente o SIN terá um segundo período crítico com as dimensões próximas do período crítico histórico de junho/1949 a novembro/1956”

Roberto Pereira D’Araujo

Introdução:

O que se verá nessa análise é um dos resultados de um Brasil que não aprofunda temas com debates que coloquem frente a frente visões distintas. Os seminários são formados sempre pelos mesmos agentes e associações setoriais. Muitas vezes, a mesma “polarização” sentidas nas redes sociais, torna infactível críticas mais profundas. O assunto também tem a ver com o desmatamento da Amazônia, que, como se sabe, é um dos problemas que sofre uma certa descrença do atual governo.

Nesse cenário, a Eletrobras, que historicamente tinha um papel preponderante na estratégia do setor, está sendo desmontada e transformada apenas numa caixa registradora de energia cada vez mais cara. Ao ser vendida ou “capitalizada” vai trazer alívio insignificante para a crise fiscal e colocar o Brasil a mercê das “virtudes” voluntariosas e instáveis do mercado. Alguns dos graves defeitos desse modelo estão surgindo nessa análise.

O ONS (Operador Nacional do Sistema) acaba de publicar uma análise preocupante sobre o suprimento de energia elétrica.

Como o próprio ONS apresenta,

“O Plano da Operação Energética – PEN tem como objetivo apresentar as avaliações das condições de atendimento ao mercado previsto de energia elétrica do Sistema Interligado Nacional – SIN para o horizonte do planejamento da operação energética, cinco anos à frente, subsidiando assim o MME, através do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico – CMSE e a Empresa de Pesquisa Energética – EPE quanto à eventual necessidade de estudos de planejamento da expansão para adequação da oferta de energia aos critérios de garantia de suprimento preconizados pelo Conselho Nacional de Política Energética – CNPE.”

O que deveria nos deixar preocupados é que, segundo avaliações do próprio ONS,

“Avaliações energéticas apresentadas neste PEN 2019 indicam que, face a crise hídrica da região Nordeste, que se prolonga desde o verão 2011/2012, possivelmente o SIN terá um segundo período crítico com as dimensões próximas do período crítico histórico de junho/1949 a novembro/1956”

Acrescenta ainda que:

“Verifica-se, nos anos finais do histórico de vazões afluentes, um deplecionamento acentuado do SIN, à similaridade do que ocorre num período crítico, ou seja, tudo indica que o SIN estaria em um novo período crítico face ao longo horizonte de meses (79), a partir do qual saiu do armazenamento máximo e não houve mais reenchimento pleno do armazenamento (de junho/2012 a junho/2019), o que mostra uma compatibilidade entre as condições conjunturais de atendimento.”

A figura acima deixa bastante evidente que a atual situação se aproxima muito da pior situação hídrica verificada no histórico de vazões. Não é a toa que esses 5 anos históricos tem o apelido de crítico. Como mais de 60% da nossa energia está sujeito à hidrologia, o momento pode ser realmente um início de outra crise.

Antes de culpar apenas São Pedro (esquecendo o desmatamento) por essa preocupante situação, é preciso voltar a mostrar que nos últimos 15 anos, por falhas de planejamento e no modelo mercantil, o Brasil mais do que TRIPLICOU sua capacidade de geração térmica. Dado o cenário de avanço da energias renováveis no mundo, o Brasil, mais uma vez, rema contra a corrente.

Como o próprio ONS admite, o sistema só conta com aproximadamente 11 GW de térmicas com custos (CVU) abaixo de R$ 250/MWh. O restante tem custos acima e até muito acima desse valor. Por exemplo, térmicas a óleo combustível ou diesel que chegam a R$ 1700/MWh. Só nessa classe temos por volta de 5 GW!

Isso faz com que o sistema tenha uma parcela de “oferta” de energia que vale muito mais do que os já caros R$ 250/MWh. Ora, quando se tem esse caro potencial que, consequentemente, é pouco usado para evitar ainda mais aumentos tarifários, por incrível que pareça, acaba-se por usar mais geração hidráulica no seu lugar.

 Ou seja, térmicas caras ajudam a esvaziar reservatórios. Portanto, São Pedro não pode ser classificado como “malvado favorito”.

O próprio ONS admite isso:

“Sob esse aspecto, apesar das análises energéticas do PEN 2019 indicarem um equilíbrio estrutural do SIN durante todo o horizonte 2019/2023, com excedente de energia contratada e riscos de déficit bem abaixo do critério de garantia preconizado pelo CNPE, a participação de usinas térmicas na matriz com elevados custos operativos, mais de 40% acima de 250,00 R$/MWh, faz com que essas usinas sejam despachadas por mérito econômico somente em situações hidrológicas críticas, debitando estoques estratégicos de água armazenada dos principais reservatórios de regularização do SIN para atendimento à carga, o que torna o sistema suscetível a despachos de geração térmica fora da ordem de mérito e muito dependente das próximas estações chuvosas para recuperar o equilíbrio estrutural em situações hidrológicas críticas como as vivenciadas nos últimos anos na região Nordeste;”

Que análise crítica o ILUMINA pode apresentar?

  1. A avaliação do ONS é a última etapa de um processo que se inicia no planejamento que, institucionalmente, é realizado pela EPE e pelo MME. Dada a singularidade do nosso sistema, que exige simulações da operação na fase muito anterior do planejamento, fica evidente uma fragmentação de visões e de responsabilidades. O ONS apenas mostra problemas operacionais não percebidos na fase de planejamento e sugere mudanças.
  2. Para diagnosticar o problema, O ONS faz uma análise sobre o nível de regularização do sistema que, a nosso ver, carece de fundamento.

A figura abaixo mostra como irá evoluir a capacidade de armazenamento do sistema em função da energia máxima que pode ser estocada e o equivalente em meses de consumo.

O texto do PEN cita o fato de que não estamos mais construindo usinas com reservatórios como uma das causas da redução desse estoque estratégico essencial para gerir variações da hidrologia.

O que parece não ter sido percebido é que, por exemplo, caso necessitássemos elevar esse estoque de 5 meses para 6 meses de consumo, isso equivaleria a um incremento de 20% na capacidade de armazenagem. Para se ter uma ideia desse volume, todos os reservatórios do Rio São Francisco representam 18% da reserva atual total. Portanto, parece que essa solução não será mais viável, pois como achar locais na Amazônia capazes de formar reservatórios assim tão grandes? Se o Brasil expandir sua carga como previsto (3,8% a.a), a cada 5 anos precisaríamos um “rio São Francisco”.

  1. Como já mostramos aqui, as eólicas do Nordeste começam a competir com as térmicas. Isso fica evidente no gráfico abaixo.

Observar que as eólicas geram mais nos mesmos meses onde as térmicas são mais exigidas. Além disso, a complementariedade eólica solar ainda não foi percebida nesse ensolarado país.

Portanto, aqui se observa mais uma falha do planejamento que não considera esses benefícios sistêmicos, já que a filosofia do modelo é a individualização das fontes, mesmo num singular sistema físico cooperativo. (…) continua no site do Instituto Ilumina.