O Pentágono autorizou o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) a testar uma arma de calor de uso militar na fronteira sul do país, no limite com o México. A medida, detalhada em um memorando assinado pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, e revelada pela rede CNN, marca uma escalada tática inédita nas políticas de imigração do governo Donald Trump.
O equipamento, classificado como não letal e batizado de Sistema de Negação Ativa (ADS), dispara um feixe invisível de ondas eletromagnéticas com alcance superior a 800 metros. Ao atingir o corpo humano, a energia provoca uma intensa e imediata queimação na pele, comparada por especialistas militares à sensação de abrir um forno quente.
De acordo com as Forças Armadas norte-americanas, o efeito de formigamento dura entre 10 e 15 minutos e gera “um impulso instintivo e irresistível de fugir do efeito”.
Operação e histórico
O documento aprova o empréstimo da tecnologia ao DHS por um período inicial de sete meses, retroativo a setembro, com possibilidade de renovação. O texto isenta o Pentágono da responsabilidade direta sobre o uso na fronteira, determinando que o sistema “não deverá ser operado por integrantes do Departamento de Guerra”. O pedido do DHS não especificou em quais trechos geográficos os testes ocorrerão.
A aplicação do raio térmico na segurança civil não tem precedentes nos Estados Unidos. O sistema chegou a ser enviado ao Afeganistão há quase duas décadas, mas as Forças Armadas decidiram não empregá-lo em combate ativo. Planos para utilizá-lo no controle de distúrbios em instalações militares no exterior também foram descartados.
Dilemas legais e de segurança
Na Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP), o uso do equipamento para dispersar aglomerações é debatido há anos. A eficácia, a legalidade e as questões de soberania internacional, caso o feixe atinja pessoas que ainda estão em território mexicano, sempre representaram obstáculos institucionais.
O risco de acidentes fatais também preocupa os agentes, especialmente em áreas de travessia fluvial. “Mesmo que estejam perseguindo pessoas de volta ao rio, você não quer que elas entrem na água e se afoguem”, relatou um ex-funcionário da CBP à CNN. “Considerando o custo, o treinamento e as políticas que você vai criar, vale a pena?”, questionou.
Em 2018, uma proposta semelhante chegou a ser avaliada, mas acabou rejeitada pela então secretária de Segurança Interna, Kirstjen Nielsen. O temor envolvia a equiparação de civis a alvos militares.
“A questão era tratar imigrantes e cidadãos como combatentes inimigos”, afirmou um ex-integrante do DHS ciente das negociações anteriores. “Em termos gerais, tratamentos desumanos costumam ser rejeitados“, pontou.
Atualmente, com a queda recente nos índices de travessias irregulares e o aumento do efetivo policial na fronteira, parte dos próprios agentes da CBP questiona a necessidade de incorporar a tecnologia militar à rotina de patrulhamento. Questionado sobre os testes em andamento, o Pentágono não comentou e redirecionou as perguntas ao DHS.
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