5 de junho de 2026

Um sonho libertador e vários pesadelos jurídicos


Noite passada, assaltado por pensamentos desagradáveis, fui dormir muito tenso e tive um pesadelo que foi dissolvido através de uma solução hawkinguiana.

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“Todos os meus inimigos e os inimigos dos meus amigos resolvem me atacar ao mesmo tempo. Não consigo sobrepujar todos eles. Fugir não é uma opção. Resolvo então acionar o dispositivo.

Minha arma para eliminar todos os inimigos de uma vez por todas é um buraco negro. Quando ele se abre, me coloco no limite exterior dele e passo a girar na borda do ‘event horizon’ com apenas duas dimensões. Meus inimigos, entretanto, não conseguem ver o dispositivo.

Distantes de onde estou tudo que eles podem ver é uma imagem minha em três dimensões. Quando tentam me agarrar a ilusão se desfaz e eles se precipitam dentro do buraco negro, girando e esticando à medida que desaparecerem até serem sugados completamente pelo seu vórtice. Readquiro minha forma tridimensional quando o dispositivo é desativado.”

Ao acordar fui consultar o livro de Stephen Hawking.

“Penronse e eu mostramos que a relatividade geral prevê que o tempo chegaria ao fim dentro de um buraco negro, tanto para a estrela quanto para qualquer astronauta desafortunado que caísse nele. Mas tanto o início e o fim do tempo seriam lugares onde as equações da relatividade não poderiam ser definidas.” (O universo numa casca de noz, Stephen Hawking, Saraiva de Bolso,Rio de Janeiro, 2012, p. 37)

O ser humano existe no espaço e no tempo. Ele é produzido pela relatividade geral. A matéria que o compõe está sujeita à ação da gravidade. A imaginação humana, porém, não pode ser limitada por equações físicas ou teorias cosmológicas. O dispositivo que foi acionado durante meu pesadelo cumpriu uma função psicológica. Ele me libertou da ansiedade provocada pela perseguição imaginária e eu acordei tranquilo.

Aqui mesmo no GGN eu disse que o buraco negro é um vírus em escala cosmológica https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/diario-da-peste-27/. Hoje eu direi algo diferente. Os anticorpos são buracos negros microscópicos que nos protegem dos inimigos invisíveis que atacam a relatividade geral convocada a existir no espaço e no tempo de maneira consciente.

E já que estamos falando de consciência, não posso deixar de notar uma ironia. Convocado a depor na PF, Sérgio Moro começou a demonstrar sinais de temor. Ele está com receito de ser vítima do padrão lavajateiro que ele mesmo inventou e aplicou quando era juiz?

O dispositivo acionado durante meu sonho era um buraco negro. Mas a matéria-prima que deu existência a ele não foi a explosão de uma estrela gigante e sim minha consciência tranquila. Sérgio Moro está intranquilo porque a consciência dele está pesada e o impede de acionar um dispositivo semelhante ao meu?

A partida política começou. O jogo é bruto.

Com toda sua atenção concentrada na próxima eleição, Jair Bolsonaro tratará Sérgio Moro como um inimigo que deve ser esmagado. A esquerda perseguida pelo marreco das araucárias não fará absolutamente nada para salvar o vilão lavajateiro. Se tivesse respeitado os princípios constitucionais do Direito Penal quando era juiz, Sérgio Moro não seria obrigado agora a sofrer as consequências das ambições políticas que o fizeram abandonar o campo jurídico. Moro cavou o buraco em que será jogado pelo mito. Bem feito.

Os anticorpos que preservam a racionalidade do campo jurídico, a credibilidade dos atores do processo e a consciência tranquila dos juristas são os princípios jurídicos consagrados na constituição e construídos ao longo dos séculos. A civilização somente existe dentro dos limites definidos por aqueles princípios e em razão da eficácia deles. Quem ousa desrespeitá-los, deformá-los e destruí-los não pode reclamar quando se torna vítima das exceções que legitimou.

No auge da Lava Jato e do Processo do Triplex, Sérgio Moro fazia questão de maltratar os advogados dos réus e violar as prerrogativas profissionais dos defensores de Lula. Agora ele mesmo precisará de um advogado. O ex-ministro da justiça ficará esperançoso ou aterrorizado quando ver seu defensor ser maltratado por um juiz bolsonarista que emprega métodos lavajateiros?

Aqui mesmo no GGN critiquei várias vezes os abusos cometidos pelo juiz da Lava Jato https://jornalggn.com.br/politica/sergio-moro-tem-muitas-vidas-algumas-delas-estao-no-fim-por-fabio-de-oliveira-ribeiro/ e https://jornalggn.com.br/justica/o-processo-nao-e-a-solucao-por-fabio-de-oliveira-ribeiro/. Ao que parece agora é tarde demais para Sérgio Moro prestar atenção aos adversários dele.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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