21 de junho de 2026

Hegemonia, enfrentamento da miséria e Projeto de Sociedade

Por Ion de Andrade

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Recente artigo postado por Luis Nassif no dia 06 de janeiro corrente tratou da Indústria do Anticomunismo na disputa política como ferramenta utilizada pela mídia conservadora e pela direita para intimidar uma esquerda brasileira em nada assimilável ao velho modelo leninista do século XX, uma espécie de espantalho multiuso capaz de ter papel desde às críticas ao bolsa família, até à posição brasileira de oposição à espionagem americana recente.

Tudo o que é “não conservador” vem sendo tratado como expressão política de um neocomunismo utilitarista e multiuso. No dia 07 de janeiro um artigo de Jabor no Estadão (O Perigo Vermelho) retomou de forma incrivelmente caricata o chavão anticomunista. No artigo o eminente articulista adjetiva o PT nada menos do que de bolchevista. O estridente e ansioso artigo de Jabor, imediatamente subsequente ao de Nassif, permite enxergar o quanto é importante o enfrentamento desta questão para a ampliação e estabilização do processo de hegemonia progressista na política brasileira, pois se constitui numa espécie de último bastião da argumentação política conservadora, algo que se for convertido à irrelevância que merece reduzirá a direita, já sem discurso, a uma argumentação neoliberal de natureza tecnicista, teórica, impermeável e de difícil compreensão. Sem o anticomunismo, um viagra, o neoliberalês perde a alma e se torna ainda mais enfadonho.

O anticomunismo é, portanto, o último discurso conservador de natureza emocional, pois é fácil dizer “não somos bolchevistas”, mas é difícil explicar porque são neoliberais. 

O que fazer então para contornar este armadilha hipnótica que a direita põe sobre nós? Nassif percebe muito bem que há um travamento atual nos discursos e nas propostas atuais no cenário da política. Aponta que o discurso vigente da esquerda está marcado pelas políticas de enfrentamento da miséria, cruciais para chegar onde chegamos, mas incapazes de dar conta sozinhas das novas expectativas existentes na cidadania e que foram produzidas precisamente porque tais políticas vêm dando certo.

Isto significa que, embora as políticas de enfrentamento da miséria ainda sejam cruciais para a construção de uma sociedade mais justa e mais humana no Brasil, o discurso do que a sucede ainda não amadureceu suficientemente para dar conta das novas aspirações e necessidades que germinam no seio da cidadania e que em parte ajudam a explicar as manifestações de rua de 2013.

A saída do problema que nos deixa vulneráveis a uma crítica conservadora de matriz anticomunista é a mesma que permite a retomada do novo ciclo de desenvolvimento que sucede e incorpora as políticas de enfrentamento da miséria: o Estado de bem estar social e a sociedade de direitos.

A esquerda precisa mais do que nunca incorporar ao discurso de enfrentamento da miséria, (hoje tornado tático e em parte assimilado como consensual pela própria direita, que já não cogita exterminar as políticas sociais), um novo discurso de Projeto de Sociedade. Como será a sociedade brasileira na qual a hegemonia progressista estará consolidada? Ela será assim, assim, assim e assim. Nesta área funciona deste jeito, naquela outra área deste outro jeito. A burguesia nacional terá papel, o Estado terá papel e constrói-se uma sociedade de paz social, cultura, educação e saúde de qualidade, um país próspero e solidário, capaz de oferecer, por força de politicas sociais inteligentes, democráticas e bem articuladas, oportunidades para todos.

Utilizei noutro artigo o termo Suécia tropical para designar isto, mas é uma imagem alvo, uma espécie de norte mitológico que serve para sintetizar uma ideia, a Suécia também tem problemas e enfrenta uma onda neoliberal que está sendo enfrentada por uma cidadania mobilizada.

O projeto que temos que construir é o nosso próprio: o Estado brasileiro de bem estar social tem que falar de nós, de nossas esperanças e expectativas.

O Estado de bem estar social é apenas o polo oposto ao neoliberal, num contexto de Estado democrático de direito que pode, a depender da hegemonia, exprimir uma face mais burguesa ou mais cidadã. Temos que compreender este dipolo que será nossa companhia duradoura na política, esta é aliás a dinâmica pela qual se constrói o mundo pós-neoliberal.

Possa 2014 ver surgir no cenário do discurso progressista aquele que aponta para um grande Projeto de Sociedade, onde o homem, o cidadão, a comunidade possam ser o alvo.

O PAC atual da infraestrutura (mais do que necessário) precisa ser completado de um PAC da cidadania. Por ele começaremos a enxergar e a dimensionar os equipamentos sociais que constroem esta sociedade de bem estar social com que sonhamos. Para além de dimensionar no plano nacional estradas, portos e aeroportos, ou no plano local postos de saúde, escolas, delegacias e creches deveremos começar a dimensionar bibliotecas, teatros, centros poliesportivos, cineclubes, escolas de música e de línguas, deveremos ter propostas maduras de mobilidade urbana, de paisagismo urbano, de combate à violência ou de aprisionamento de detentos e de internacionalidade.

Se sairmos do oito hipnótico que nos põe no campo tático e nos expõe à estúpida crítica anticomunista e começarmos a exprimir aquilo que é estratégico e que corresponde à nossa missão histórica, veremos que não temos adversários, exceto nós mesmos.

 

 

Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

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8 Comentários
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  1. CELSO ORRICO

    11 de janeiro de 2014 1:05 pm

    vc tem razão nas suas críticas..

    em tese vc tem razão nas suas críticas mas quando olhamos para a realidade o que vemos é uma anomia quase absoluta, uma oposição sem propostas ou quando as tem são vazias, uma legião de jovens e adultos seguindo a manada virutal ou da grande mídia sem qualquer espírito crítico ou visão de pespectiva históric.., acho quem em 2014 será um grande enfrentamento entre o “novo” representado pelo que temos de pior na política brasilieira que infelizmente Marina e Eduardo Campos embarcaram e a continuidade de um processo de conquistas históricas caras à esquerda, mesmo que tímidas, e a depender do resultado das eleições avançará ou recuará..o segundo mandato de Lula foi muito melhor que o primeiro e entendo que tb assim se dará com Dilma..

    P.S. nunca fui e não sou filiado ao PT..

     

    1. democracia direta

      11 de janeiro de 2014 1:25 pm

      A REALIDADE

      A realidade é que a maior parte do PT aderiu ao fisiologismo, e se mantém, inútil e inoperante no Congresso. O PT assimilou os vícios da velha política, e ,dentre eles, o a mais execrável; a venda do país aos interesses estrangeiros. Não há nem como negar. Quem deu dinheiro ao Marcos Valério, para entupir o PT de dívidas, foi a VISA NET, uma multinacional do setor financeiro.

      O PT errou, e precisa não apenas reconhecer seus erros, mas principalmente corrigi-los. O que só pode ser feito, sinalizando que realmente quer mudar. Sem isso é insustentável qualquer apoio ao PT. O primeiro governo Lula foi o melhor de todos, porque enfrentou dificuldades muito maiores. O Lula dizia orgulhoso, ter criado condições para uma grande empresa de telefonia genuinamente nacional, a OI. Só que o Lula não se elegeu da primeira vez com recursos da VISA NET.  Cair na mão da especulação financeira internacional, tem tudo para transformar esse país novamente em colônia de exploração. O que já pode ter começado, com a entrega OI, de nossos aeroportos e poços de petróleo. Nessas condições, acho incoerente esperar pra ver o que vai dar o segundo governo Dilma. A não ser que tenhamos o direito de acompanhar mais de perto, e influenciar diretamente em suas decisões. 

      1. CELSO ORRICO

        11 de janeiro de 2014 1:53 pm

        mais uma vez..

        mais um vez vc tem razão em algumas críticas e o cenário que descreve só que há um porém: com um segundo mandato de Dilma temos uma chance de influir mais na reorientação das política do Governo, com as oposições não existe essa possiblidade..

        1. democracia direta

          11 de janeiro de 2014 5:41 pm

          A Dilma perdeu sua melhor

          A Dilma perdeu sua melhor oportunidade, provando que se não foi dessa vez, nem nas manifestações da copa, jamais apoiará uma maior democratização do país, para quer tenhamos os mesmos direitos que um americano ou suíço.

          Os outros partidos podem inclusive apresentar propostas muito mais inovadoras em seus programas de governo…

  2. democracia direta

    11 de janeiro de 2014 1:07 pm

    A TRISTE REALIDADE DA MILITÂNCIA DE ESQUERDA

    O Nassif apontou muito bem a situação da esquerda no Brasil. Temos sentido as pessoas perplexas, não há como defender o governo nos meios virtuais, os petistas e aliados sentem-se até envergonhados. A internet é diferente das TVs e jornais, a resposta vem de pronto, e eles se perderdem no deserto de argumentos em defesa do governo. A economia já não está tão bem, e percebemos a tentação de se elevar ainda mais os impostos, fora o Joaquim Barbosa querendo um salário de 40 mil. Estudos mostram que nosso sistema de ensino regrediu, continuando entre os piores do mundo; e pra completar, o PT trai seus próprios filiados, e zomba das manifestações de rua. O senador petista do RJ, Lindberg Farias, retira da PEC 03/2011 nosso direito de convocar referendo, quando eles não aprovarem nossas iniciativas populares de lei:

    http://politicoscontraademocraciadireta.blogspot.com.br/2013/12/a-luta-do-senador-lindberg-farias-pt-rj.html

    Como apoiar um governo assim? Político tem muito mais responsabilidade, que cidadão comum. Quem apoia ou se omite diante de uma traição, também é traidor. Esse senador precisa ser expulso do partido. Não é possível que os políticos do PT façam de conta que não viram. A situação do Lindberg Farias é constrangedora, o político petista, seja ele vereador, senador, ou presidente, que não se manifestar sobre isso, ou é completamente irresponsável e sem vergonha, ou está de acordo em retirar esse direito do povo. Atitudes assim é que fazem a população perder a credibilidade e o respeito por seus políticos. Pessoas como o Supliy, o Tarso Genro, o Paim, e a Dilma, precisam perceber que isso também lhes atinge, e não podem admitir uma coisa dessas. Porque só tem duas explicações, ou é traição mesmo, ou é falta de vergonha na cara. Acho que são duas quailidades indesejávies, para quem quer governar o país.

    Não é por acaso, que a campanha “anticomunista” citada, também acusa o governo de ser uma DITADURA. E fatos como esse vão consolidando esse entendimento no eleitorado brasileiro. Se a copa do mundo tiver os mesmos manifestos do ano passado, e a Dilma despencar novamente, ela não se recupera mais até a eleição. Se quiserem recuperar o prestígio e respeito, para que seus militantes não fiquem mais envergonhados, quando debaterem política com os outros; devem tomar uma atitude enérgica contra esse senador traidor, que zombou dos protestos de rua. Se quiserem evitar a derrota nas urnas, precisam se antecipar às manifestações da copa do mundo.

    Recentemente, políticos do PT e da base aliada tiveram uma iniciativa muito positiva, e conseguiram apoio para convocar um plebiscito sobre a reforma política. Só que acabou tornando-se obsoleto, porque assuntos, como as assinaturas on line para as iniciativas populares de lei, acabaram sendo desenrolados no próprio Congresso. Uma nova e melhor elaborada proposta evitaria surpresas desagradáveis ao governo. Mas o plebiscito não deve ser usado para assuntos triviais, que possam ser resolvidos no Congresso. Ele deve trazer questões mais polêmicas e de extremo interesse da população, sendo indispensáveis essas três perguntas:

    __O povo deve ter direito ao voto impresso?

    __O povo deve ter direito de convocar referendo por iniciativa popular, quando suas propostas forem recusadas pelo Congresso?

    __O povo deve ter direito de cassar os políticos por iniciativa popular?

    A consulta seria feita junto com a eleição desse ano, sem custo algum ao eleitorado; evitando o desgaste político durante a copa. Mesmo se houver manifestações, o governo e seus aliados sairão de cabeça erguida. A presidenta precisa avaliar o tamanho de sua responsabilidade, e tomar a frente dessa campanha, porque depois não vai resolver reclamar. Aliás, isso é de interesse de todos os políticos, porque se o povo não for ouvido e respeitado, uma avassaladora campanha pra não reeleger ninguém já está em curso, e muita gente boa vai pro olho da rua. 

     

    1. Helcio dias de sa

      11 de janeiro de 2014 5:06 pm

      democracia direta.

      “Porque o Brasil é de todos os brasileiros;Não,o Brasil tem donos e nao somos nós,entramos apenas com nosso votinho e o traseiro.Nesse ping pong preliminar da campanha,onde todos os entendidos nao sabem mais o que fazer para enrolar e explicar o que nao entendem,a psicologia do voto.Vamos nos divertindo,e nesse inicio do ano com a ausencia do tomate ,simbolo da” inflaçao”que foi substituido pela lagosta dos Sarneys,o cartel midiatico continua delirando.O mensalao foi barato pra caramba para o pt que indicou a maioria dos deuses ministros e os tornou trasparente para nó.Deveriamos estar festejando e nao demonizando a oportunidade de conhecer o “como funciona”.Tem banqueiro preso que aprontava desde os tempos de Juscelino(banco rural).as manisfestaçoes correu com o cartel midiatico e afazem agora de desentendidos.As “santas” da bolsinha da esquina..O cartel midiatico brasileiro é a nascente e o posto Ypiranga da corrrupçao.Todos os politicos9donadoni,mensalao 1 ,menbsalao 2,mensalao3 e 4, estao enrolados nas verbas de publicidade que alimenta quem?Respondo o cartel.Gentileza me explicar os depositos de globo e Folha nas contas do Marcos Valerio,dizem chamar BV(bandidos e vigaristas).

  3. hc.coelho

    11 de janeiro de 2014 1:53 pm

    O anticomunismo é o viagra dos neoliberais, perfeito

    Sem nehuma mensagem positiva e concreta, o que é uma pena, por pura preguiça mental e diante do aplauso anestesiante dos seu “pares”, estes “neoliberais” cairam no pior dos mundos. Só lhes resta a violencia (boba) como a do artigo inacreditável e idiota do jabour. Quem se chafurdou na lama da mentira, da calúnia e da chantagem só podia mesmo acostumar com ela. Estão perdidos. A revistinha do esgoto adora o esgoto em que se mergulhou, por exemplo.

    Tomara que o psdb, tão prjudicado, ainda possa sair deste lamaçal. Basta levar em conta o cheiro desagradável.

    “O anticomunismo é o viagra dos neoliberais”, perfeito.

     

  4. Anarquista Lúcida

    11 de janeiro de 2014 8:25 pm

    O socialism real nunc foi socialist mas foi convenient dizer iss

    E quem diz isso nao sou só eu, mas Chomsky. Foi conveniente para os dirigentes da URSS se apresentarem como socialistas (quando o que fizeram foi um capitalismo de estado autoritário) e foi conveniente para os oponentes os apresentarem assim, para poder demonizar o socialismo. Vou tentar achar o vídeo em que Chomsky diz isso. 

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=zDJee4stYN0%5D

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