Enviado por Thiago Venco
Zuckerberg nos condenou ao mesmo castigo de Sísifo
É inútil empurrar a “pedra” do debate morro acima: a discussão vai rolar timeline abaixo no dia seguinte
Se você é daqueles que acha que “discutir no Facebook é uma perda de tempo”… VOCÊ ESTÁ CERTO.

Leia este texto até o fim: acreditamos ter encontrado a prova científica – e portanto filosófica – que explica perfeitamente porque apenas 44 a cada UM MILHÃO de discussões no “face” chegam a algum lugar (na verdade, os números podem ser ainda piores).
Não, não foram os autores do Labirinto do Desacordo que chegaram a esta notável e precisa conclusão: foi um vencedor do prêmio Nobel em Economia e do prêmio Turing por contribuições notáveis a computação – ainda que ele tenha falecido 3 anos antes da fundação desta titânica rede social.
* * * * * * * *
Como no Mito de Sísifo, estamos condenados a ver desperdiçados nossos brutais esforços em debater temas importantes com nossos amigos.
Sísifo recebeu esta punição: foi condenado a, por toda a eternidade, rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido.
Por esse motivo, a expressão “trabalho de Sísifo”, em contextos modernos, é empregada para denotar qualquer tarefa que envolva esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso – algo como um infinito ciclo de esforços que, além de nunca levarem a nada útil ou proveitoso, também são totalmente desprovidos de quaisquer opções de desistência ou recusa em fazê-lo.
Sísifo, de Tiziano
* * * * * * * *
Trágico: discórdia e conflito são oficialmente sinônimos. Na teoria do conflito não é bem assim; já na realidade da maior rede social do planeta, no império do “curtir”, do “gostar”, todo desacordo online será castigado: o nome do jogo ali é ASSINAR EMBAIXO. Há quem fique naturalmente IRADO ao menor sinal de discordância; o FB apenas agrava esse problema (aos milhões).
Ainda que o ser humano (demasiado humano) tenha sua parcela de culpa no cartório – devido à sua dificuldade crônica em argumentar – adianto que o principal responsável pela falência do debate no Facebook é sua própria estrutura, os elementos principais que o constituem:
– O botão “curtir”
– A interminável e caleidoscópica “linha do tempo”
– A sequência linear de “campos de comentários”
Creio que acionistas, sócios de Zuckerberg, já calcularam o prejuízo de um hipotético botão “descurtir” (um botão “discordar com ressalvas” seria utópico); para os chatos que não fazemlogin com o objetivo de consumir suas marcas prediletas, é suficiente concessão ao modelo de negócios (propaganda!) que exista um campo de texto que lhes sirva de arena neutra para suas divergências. Fale o quanto quiser: ninguém vai limitar seu “mimimi”; “o choro é livre”; se você quer ser o “mala sem alça” que vai ao FB pra “falar sério”, o problema é seu.
Mas se o campo é livre, então porque a coisa teima em não funcionar para a discordância, para o debate construtivo – mesmo quando estamos nos dedicando de coração à empreitada? Porque a falência do debate “facebookiano” parece demais com uma maldição de um deus grego furioso com a impertinência dos reles mortais?
Você já deve ter experimentado o “efeito cascata” de uma divergência que virou discussão; de uma discussão que virou uma briga generalizada e desceu 300 posts página abaixo; o respeito foi abaixo, qualquer chance de acordo veio abaixo… SÓ O TEMPO GASTO FOI PRA CIMA.

Acrescente à fórmula acima a caótica aleatoriedade de centenas de amigos seus trazendo à linha do tempo, segundo a segundo, os mais variados assuntos – alguns felizes, outros tristes, muita “zuera”, muita coisa séria… sempre nos “tentando” a interromper nosso trabalho, não é mesmo?
INTERRUPÇÃO ALEATÓRIA: guarde essa ideia – ela é a principal chave do enigma do inevitável e inútil dispêndio de tempo e energia. Mas talvez não como você esteja imaginando agora… o problema não é o fato do “coffee break” (pausa pro café) ter virado a “checadinha nas notificações”. Lembre-se: ainda estamos focados nos fenômenos que acabam com as chances de um bom debate no “Face“.
* * * * * * *
Chega de mistério: revelemos o pensador e o pensamento que mataram essa charada.
Trata-se de Herbert Simon, em seu fantástico artigo “Arquitetura da Complexidade“.
Simon: pesquisador nos campos de psicologia cognitiva, informática, administração pública, sociologia econômica, e filosofia.
Para nosso objetivo aqui, basta traduzirmos um trecho deste texto; uma parábola incrivelmente esclarecedora.
* * * * * * *
Era uma vez…
…dois relojoeiros: um deles se chamava Tempus e o outro, Hora.
Ambos montavam finíssimos relógios. Tempus e Hora eram altamente apreciados e suas lojas no Facebook* recebiam frequentes “curtidas”, mensagens e comentários.
* (O texto é de 1962; portanto, na época, Simon disse que “os telefones de suas oficinas que tocavam constantemente“… mas enfim, o efeito para nosso problema é exatamente o mesmo!)
No entanto, Hora prosperava, mas Tempus se tornava cada vez mais pobre, até que sua loja faliu completamente. Qual a razão desta disparidade?
Watchmaker, por William Wetmore
Os relógios que estes senhores montavam consistiam de 1.000 partes cada um. Tempusconcebeu seu relógio de forma que, se ele estivesse apenas parcialmente montado, e fosse subitamente interrompido em sua montagem linear – peça após peça – parando o trabalho para responder a uma notificação aleatória em seu Facebook (…), sua construção imediatamente desmoronava e ele era forçado a remontar os elementos do relógio, um por um. O problema é que quanto mais os clientes apreciavam os relógios de Tempus, mais eles lhe mandavam mensagens, curtiam sua página, tornando mais e mais difícil que ele encontrasse condições ideais para finalizar uma construção, começando da peça 1 e chegando até a peça 1.000.
Os relógios que Hora faziam eram igualmente complexos se comparados aos de Tempus.
Mas Hora concebeu sua engenharia de uma tal forma que ele era capaz de montar sub-conjuntos de 10 peças cada um. A cada 10 destes “sub-sistemas” completos, ele era capaz de montá-los novamente em um conjunto maior (um sistema de 100 peças, portanto); assim, a cada 10 conjuntos de 100 peças finalizados, ele completava seu relógio de 1.000 partes.
Assim, quando Hora tinha que parar para atender seus chamados no Facebook (…), ele perdia apenas o trabalho relativo ao “sub-sistema” de 10 peças que ele estava montando naquele instante, de modo que, apesar das interrupções aleatórias, ele era capaz de construir seus relógios em apenas uma fração das “hora-homem” gastas por Tempus.
* * * * * *
A partir daí, Herbert Simon faz o que chama de “razoavelmente simples análise quantitativa” das dificuldades de Tempus e Hora. Para facilitar, explico seu raciocínio sem a matemática:
1) Aplique uma taxa idêntica de interrupções “facebookianas”, para ambos relojoeiros. Ou seja, a interferência que eles sofrem no trabalho é a mesma. Notem que, uma vez que o “ruído” é igual, este fenômeno isolado não explica porquê Tempus foi a falência.
2) Suponha que esta taxa de interferência “facebookiana”, por menor que seja, possa ocorrer durante as montagens dos relógios. Deste modo, a chance deles nunca serem interrompidos fica limitada.
Portanto, é lógico que a chance de Tempus terminar um relógio, partindo da peça 1 até a 1.000 sem nenhuma interrupção que o leve à estaca zero, é igualmente limitada.
3) Simon atribui uma taxa bem pequena de interrupção “facebookiana” para fazer suas contas:1% de chance que eles sejam interrompidos.
A partir desta hipótese, ele conclui (surpreendentemente) que:
– Tempus leva 4.000 vezes mais tempo, na média, para terminar um relógio que Hora.
– A cada relógio concluído de Tempus, Hora terá obtido uma taxa de sucesso 111 vezes maior.
– Tempus vai perder na média 20 vezes mais trabalho para cada montagem interrompida (retroceder 100 partes, contra 5 de Hora)
– Tempus VAI CONCLUIR MÍSEROS 44 RELÓGIOS A CADA 1 MILHÃO DE TENTATIVAS (!!!)
– Hora, por sua vez, VAI CONCLUIR 9 RELÓGIOS A CADA 10 TENTATIVAS
– Tempus precisa fazer 20.000 vezes mais tentativas que Hora para acabar um relógio.

* * * * * *
As implicações desta chocante demonstração influenciaram muito mais a Teoria da Evolução do que os engenheiros do Facebook.
Isso porque interessa demais aos biólogos entender como é possível que os seres vivos tenham atingido tamanha complexidade, uma vez que o número de “tentativas” (gerações) não é tão grande assim. “Céticos” que desconheciam o trabalho de Simon fizeram uma contabilidade simplória de “quantidade de gerações x complexidade dos organismos” e geraram a patética falácia:
“Se Darwin estivesse certo, seria como se ao longo de milhões de anos, uma ventania qualquer finalmente fosse capaz de juntar as peças de um Boeing em um avião capaz de voar”.

ELE ESTAVA CERTO
* * * * * *
Espero que você tenha percebido que o problema do Facebook, em relação ao debate, não é o fato dele ser uma das maiores fontes de distração do trabalho na contemporaneidade:
O problema estrutural do Facebook, que destrói a qualidade dos debates em seu ambiente, é o fato de que na comparação com a parábola dos relojoeiros sua arquitetura de sistema seja equivalente ao método “sequencial-linear” de Tempus: o Facebook, tanto em termos da “timeline” quanto dentro de um post específico, é incapaz de montar “sub-conjuntos” do debate que permitam que a a discussão seja retomada com pequeno prejuízo a cada interrupção.
E por “interrupção” devemos pensar não na distração “ordinária”, mas sim, nos inimigos clássicos de debate (vide nosso texto “Um Bestiário do Desacordo em Massa“):
– Informações Falsas;
– Interpretações equivocadas;
– Negação Incondicional;
– Preconceitos Cristalizados;
– Rótulos Simplórios;
– Argumentos Inconsistentes (serviam para defender igualmente candidatos antagônicos, A e B);
– Agressões Irracionais;
– Multiplicação de Falácias;
– Promessas Impossíveis;
– Estatísticas Questionáveis;
– Meias Verdades;
– Blefes Convincentes;
Bestiário do Desacordo: quem dera a interrupção fosse o único “monstro” do debate…
Para concluir:
A simples idéia de que os posts existam para serem “gostados” já é por si só, um atentado estrutural ao objetivo de debater, pois nenhum debate inteligente é possível se todos estão ali para “concordar sem ressalvas”.
A linha do tempo é uma avalanche sem fim, que enterra nossos esforços de concentração em um tema específico, forçando-nos a atentar para uma nova modalidade de “jornalismo”, que chegou a uma tal velocidade de “notícias” que deveria se chamar “segundismo”. Não há estímulo para o foco, ao contrário.
A linearidade sequencial dos comentários, que cruza as vezes dezenas de diálogos entre centenas de pessoas em um único post é tão estúpida quanto a metodologia do relojoeiroTempus: simplesmente as interrupções te levam à estaca zero. Basta um ataque pessoal, uma informação falsa, um desentendimento, para que o foco no assunto se perca e começemos a discutir a própria discussão!
* * * * * *
Zuckerberg não está interessado em debates de qualidade; ele está focado em ganhar dinheiro, muito dinheiro, fazendo propaganda a partir do rastreamento (legal, mas imoral) de nosso comportamento.
Não é a toa que sua solução para controlar a proliferação de conteúdos de ódio, racismo, intolerância e violência, se resuma a um “algoritmo” que contabiliza cegamente a quantidade de queixas recebidas.

Fábio de Oliveira Ribeiro
30 de janeiro de 2015 4:14 pmNo Multiply, comunidade
No Multiply, comunidade virtual que frequentei durante alguns anos antes do Facebook crescer de maneira exponencial, os membros escolhiam seus amigos e grupos de discussão. Textos fotos e vídeo podiam ser publicados na página de cada um ou numa comunidade específica produzindo intenso debate. As discussões mais interessantes rolavam por meses a fio com vários participantes e intensa discussão paralela entre alguns deles. O resultado geralmente era interessante, pois a obsolescência das informações compartilhadas não era tão veloz. O Facebook velozmente devora tudo que passa pela timeline. Discussões interessantes raramente ocorrem e os participantes são compelidos a compartilhar sempre mais conteúdo destinado à imediata obsolescência. Fiquei muito triste quando o Multiply morreu, RIP. Quando o Facebook morrer apenas os viciados e maníacos em velocidade sentirão falta dele.
Flavio Patricio Doro
30 de janeiro de 2015 4:27 pmO Facebook como espaço de debate?
O Facebook não foi concebido para favorecer o debate de ideias. Sua vocação é o compartilhamento de instantâneos da vida, a conversa breve e descompromissada, a formação de redes de pessoas com interesses comuns. A velocidade da informação é seu ponto forte; sua qualidade, o ponto fraco.
Os grupos de discussão com moderação é que se prestam a um debate qualificado. Mas aí é preciso sujeitar-se a outro ritmo; não pode haver conversa em tempo real. Ou uma coisa ou outra.
No Facebook não é considerado de bom tom que você use o espaço de comentários para discordar frontalmente do que está sendo colocado pelo autor de um post. Ali é, em teoria, um encontro de amigos. É a mesma coisa que na vida real: você encontra um colega de trabalho no corredor; ele está conversando com outras pessoas, expondo, por exemplo, suas convicções políticas na rodinha. Você não concorda com as posições, acha-as até pueris. Que você faz? Intervém de forma enérgica para expressar suas divergências? Ou guarda suas considerações para si e segue adiante, porque se falar o que pensa vai dar… digo, vai ser muito desagradável?
Então, a lógica do Facebook, no que diz respeito à oportunidade das manifestações, é essa das rodinhas de pessoas. Mas, do ponto de vista da publicidade de tudo o que se diz, sua lógica é a da ágora, a praça pública. A combinação dessas duas características torna-o um excelente promotor de correntes de consenso amplas, volumosas e pouco permeáveis à reflexão e ao contraditório.
A forma de exercer o contraditório no Facebook é indireta. Você compartilha em sua própria linha do tempo o pensamento do qual discorda, e faz as considerações que quiser. Quem consultar sua linha do tempo terá acesso às duas posições: a que você critica e a sua.
O Mar da Silva
30 de janeiro de 2015 5:01 pmInteressante. Porém,
Interessante. Porém, confesso: não tenho ‘Face’. Faço parte de uma minoria que precisa do debate bem fundamentado para além de curtidas e coisas do gênero. Ainda assim, creio que a ferramente deve servir para qualquer outra coisa. Eu, honestamente, não vejo muita utilidade. E ainda estou vivo. k k k k k
Aliás, vivo sufocado pelos amigos que exigem que eu entre para o mundo do WhatsApp, outra ferramenta que ainda não uso. k k k k k
João Alexandre
31 de janeiro de 2015 12:01 amk k k k
k k k k
Rabuja
31 de janeiro de 2015 1:48 amEu também não aderi a nenhum dos dois
E tenho certeza que tenho mais tempo que os colegas para fazer coisas mais interessantes do que bisbilhotar a vida alheia e fofocar.
patinho medroso
31 de janeiro de 2015 2:19 amtem uma parte que serve para
tem uma parte que serve para os blogs tb.
gostei da parte em que fala do desvio da discussão do
tema principal para a própria discussão de uma
colocação equivocada de alguém, de um troll, por exemplo…
perde-se a sequencia do raciocínio do principal e
cai-se num lengalenga pueril e de baixo nível.
quanto ao facebbook, é a legitimação da unanimidade, a qual,
como se sabe, é burra.