A reunião do G7, por Joaquim Pinto de Andrade

Além da questão da Rússia e Ucrânia, o mundo experimentou quebras substanciais nas cadeias produtivas.

Reuters

A reunião do G7

por Joaquim Pinto de Andrade

O G7, coletivo que engloba as democracias mais ricas do mundo, reúne-se, desde  domingo, 26 de junho de 2022, nos Alpes da Baviera, na Alemanha. Os líderes dos países do G7 – Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido e Estados Unidos – procuram manter a unidade contra a Rússia e traçar novas estratégias para detê-la. O presidente Biden anunciou, logo na abertura, a disposição de proibir as importações de ouro russo. A Rússia reagiu lançando mísseis sobre Kiev.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, havia dito na véspera que “isso confirma que os pacotes de sanções contra a Rússia não são suficientes, que a Ucrânia precisa de mais assistência armada e que os sistemas de defesa aérea – os sistemas modernos que nossos parceiros têm – não deveriam estar em áreas de treinamento ou instalações de armazenamento, mas na Ucrânia, onde agora são mais necessários. Mais necessários do que em qualquer outra parte do mundo”(1). Nenhum aceno para paz. 

Embora as sanções ocidentais desde o início da guerra tenham isolado a Rússia  de grande parte do sistema financeiro mundial, sua economia se mostrou mais resiliente do que muitos previam e, o risco de inadimplência em sua dívida externa, se deve principalmente às sanções econômicas que bloqueiam os pagamentos aos detentores de títulos. Com quase US$ 600 bilhões em moeda estrangeira e reservas de ouro, as finanças da Rússia continuam fortes, e a máquina de guerra de Putin mostra poucos sinais de afrouxamento. Há folego para continuar o conflito.

A escalada dos preços dos alimentos e dos combustíveis paira sobre a Cúpula. A guerra só agrava.  A Rússia tem nas mãos dois trunfos: limitar as exportações de gás e continuar bloqueando as exportações de grãos ucranianos. O cenário é de retardo na estagflação em que se encontra o mundo.

A guerra é antes de tudo dos Estados Unidos contra a Rússia. Nas palavras do filósofo  Noam Chomsky,  “Nós [os EUA] jogamos um jogo onde as vidas dos ucranianos estão em risco, assim como a própria existência da civilização, com o objetivo de enfraquecer a Rússia e garantir que ela seja suficientemente debilitada. Não há fundamentos morais para isso”.

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 Além de suprir a Ucrânia com mais armamentos, algumas propostas foram colocadas na mesa na reunião do G7 em andamento:

A primeira é uma ideia que vem sendo defendida por Janet L. Yellen, secretária do Tesouro dos EUA. A imposição de um teto de preço às vendas de petróleo russo para a Europa, para minimizar as chances de uma recessão global.  O ponto que está por trás da proposta da Yellen é reduzir a receita auferida pela venda do petróleo para os cofres russos. Isto reduziria a capacidade de financiamento da guerra. Além, é claro, de minimizar o efeito preço petróleo sobre a renda das economias europeias. O argumento é que isso ajudaria a baixar os preços do petróleo e da gasolina, em todo o mundo, diminuindo a inflação global. Também poderia encorajar mais produção de petróleo russa. “Mas falta combinar com os russos”.

É evidente que isso vai na contramão dos discursos de Joe Biden na campanha quando se colocava como grande porta voz na defesa de  substituição de combustíveis fósseis, geradores de gases de efeito estufa (GHE, na sigla em inglês)  por energias renováveis nas matrizes elétricas e energéticas de todo o mundo. De fato, as economias europeias e americana  estão, nesse momento,  aprofundando ainda mais a matriz energética intensiva em carbono. Aparentemente, não estavam preparadas para uma transição indolor. Tudo indica que o novo paradigma energético será adiado por muito mais tempo. Esta mudança de rumo vem acompanhada de grandes investimentos na matriz atual e que dificilmente serão abandonados no curto ou médio prazos.

Olaf Scholz, chanceler da Alemanha, advoga  que enfrentar a crise energética de curto prazo provocada pela guerra da Rússia não inviabilizaria as metas climáticas de longo prazo. “É importante discutirmos a situação hoje e, ao mesmo tempo, garantir que paremos as mudanças climáticas causadas pelo homem”, disse ele em um vídeo postado no sábado, 25 de junho. “Porque é isso que temos que fazer, evitando o uso de combustíveis fósseis a longo prazo.” Mas a triste verdade é que os combustíveis fósseis estão ressurgindo em tempos de guerra, com os líderes mais focados em reduzir o preço de petróleo e gás do que reduzir imediatamente suas emissões.

A presidência alemã do G7 convidou para participar da reunião deste ano não apenas a Ucrânia, mas, também, Argentina, Indonésia, Senegal e África do Sul. Por que será? O projeto do Senhor Olaf se estende para o Senegal porque pretendem montar uma infraestrutura considerável para suprir as necessidades de gás da Alemanha. Em maio deste ano, o chanceler alemão, Olaf Scholz, entrou em negociações com Macky Sall, presidente do Senegal que se prontificou a trabalhar na perspectiva de alimentar o mercado europeu de gás natural liquefeito (GNL). Péssimo, mas melhor do que o carvão mineral.  Na Argentina, parece óbvio que o interesse é no trigo. A África do Sul é um dos maiores produtores mundiais de ouro e os países da Otan estão boicotando as importações do ouro russo.  A Indonésia produz alimentos, entre eles o milho e nesse caso representa a Ásia. Mas a  Pegatron, fornecedora taiwanesa da Apple, esta planejando expandir suas atividades para além da China, onde a maioria das suas fábricas estão concentradas. A fábrica também poderá ser usada para produzir componentes de MacBooks de forma definitiva, deslocando parte da fabricação realizada na China para a Indonésia como parte da estratégia norte-americana de enfrentamento com a China.

A segunda proposta é a recomposição das cadeias de suprimento que com a pandemia e a guerra no leste europeu se desarticularam.  Faz-se necessário evitar novos gargalos para não comprometer a produção global.

Além da questão da Rússia e Ucrânia, o mundo experimentou quebras substanciais nas cadeias produtivas. Isto levou Joe Biden a propor um grande projeto de investimentos em infraestrutura com objetivo de garantir o fluxo de oferta dos insumos, que reúne grande parte dos países em desenvolvimento e exige a participação de outros países do G7 para complementar o custo do investimento. Não se trata apenas de criar meios de transporte e comunicação mas de garantir a oferta de matérias primas essenciais às cadeias produtivas.  Esta proposta se contrapõem e/ou compete com a rota da seda,  a Belt and Road Initiative (BRI),em andamento sob a liderança da China. O BRI é um conjunto diversificado de investimentos em infraestrutura, transporte terrestre e marítimo, em energia (oleodutos) e em demais setores de logística, conectando as regiões da Ásia, África e Europa. Hoje já são mais de 145 envolvidos nessa iniciativa. A Argentina já mostrou interesse em participar e se tornar parte dessa ambiciosa iniciativa. O Brasil do presidente Jair Bolsonaro optou por ignorar as conversações que estavam em andamento, nos governos do PT, para incluir o Brasil neste projeto que era uma forma de melhorarmos a deficiente infraestrutura brasileira.

O que se vislumbra são dois enormes consórcios de países que possuem cadeias de produção e oferta de insumos subordinadas aos dois polos fundamentais: de um lado a China, e de outro os países do G7 liderados pelos Estados Unidos. A união entre as nações para enfrentar a crise parece não existir, pelo contrário. 

Um terceiro ponto é barrar a hegemonia da China que tanto incomoda os dirigentes norte-americanos.

 O mundo ameaça deixar de ser unipolar para ser bipolar. A liderança dos Estados Unidos  não é mais suficiente para reduzir o avanço da China. A economia americana está em pleno emprego mas com inflação de 8% ao ano. Os gastos na recuperação foram excessivos pelo que tudo indica. Como conduzir a economia para uma aterrisagem suave é a grande questão. Isto pode comprometer as políticas de Biden. E até os resultados da eleição que se aproxima. Uma das sugestões de política de combate à inflação que   Janet Yellen (secretária do Tesouro) advoga com suporte de Lawrence Summers (secretário do Tesouro 2001) é a eliminação de impostos sobre as importações notadamente provenientes da China. A ideia é que sem os impostos os produtos chegarão aos mercados com preços menores. Essa proposta é curiosa quando sabemos da intenção dos Estados Unidos de combater as “práticas comerciais inovadoras  da República Popular da China às quais os líderes americanos  chamam de “predatórias” em escala internacional”.

Nesta nova configuração das economias podemos salientar a importância dos BRICS formado pelo Brasil, Índia, China, Rússia e África do Sul.  Juntos são detentores de mais de 21% do PIB mundial – graças à China e Índia,  42% da população do Planeta , 45% da força de trabalho e o maior poder de consumo do mundo. São grandes parceiros comerciais e produtores de commodities essenciais e, de certa forma, complementares. Ficou clara essa interdependência durante a guerra. Brasil precisa dos fertilizantes da Rússia, a China e a Índia do petróleo russo, são alguns exemplos. A China tem surpreendido com a produção e exportação para todos os demais de bens intensivos em alta tecnologia. Juntos criaram o Banco do BRICS, para fortalecer as suas economias e a de outros países subdesenvolvidos. A iniciativa de certa forma visa concorrer com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Juntos deverão desempenhar um papel importante no novo mundo principalmente para os países emergentes e em desenvolvimento. A Argentina e o Irã formalmente já pediram sua associação ao grupo. Muitos outros vêm manifestando suas intenções.

Há uma grande chance de que essas economias sejam os ricos de amanhã, embora hoje tenham mais de 50% da população em estado de insegurança alimentar. Poderão no futuro dar mais equilíbrio a um mundo dividido entre países ricos e países pobres. Os países em desenvolvimento têm uma grande chance de reverter esse quadro. Mas precisam de uma atuação conjunta.

Armar, destruir, emitir mais gases de efeito estufa, matar de fome são as propostas que os  países “desenvolvidos aliados”,  os mais ricos do mundo, reunidos na Baviera  – vão  apresentar ao mundo dos emergentes.

Logo após a Cúpula do G7 será realizada a reunião da OTAN  cujo principal objetivo será examinar os limites da crise econômica provocada pela guerra e a contribuição dos mais ricos “em buscar a paz” mesmo que o conflito no leste europeu perdure por muito mais tempo. As sanções energéticas da Rússia em contrapartida aos boicotes do países ricos tem elevado muito o custo da guerra. A conquista dos territórios da Ucrânia tem sido lenta mas parece inexorável.

Notas:

(1) https://www.president.gov.ua/en/news/zhodni-rosijski-raketi-zhodni-udari-ne-zdatni-zlamati-duh-uk-76057

Joaquim Pinto de Andrade é formado em economia na UFRGS, com mestrado na EPGE FGV e doutorado em economia na Universidade de Harvard. Pós Doutorado em Stanford e Harvard. Atualmente é professor emérito da Universidade de Brasilia.

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