A corrida pela inteligência artificial (IA) pode estar produzindo um efeito menos discutido do que as previsões sobre produtividade, empregos ou uma eventual bolha tecnológica: o deslocamento de recursos de outros setores da economia. A avaliação é do economista Paul Krugman.
Em análise publicada nesta terça-feira (6), Krugman explica que o enorme volume de investimentos direcionado à construção de data centers e à infraestrutura necessária para o desenvolvimento da IA começa a pressionar recursos que poderiam ser utilizados em outras atividades. O fenômeno envolve não apenas capital financeiro, mas também eletricidade, semicondutores e capacidade produtiva.
O economista chama esse processo de crowding out, ou efeito de deslocamento, um conceito tradicionalmente associado à expansão dos gastos públicos em uma economia próxima do pleno emprego, quando a maior demanda por recursos pode pressionar os juros e reduzir o espaço para investimentos privados.
Para Krugman, porém, o mesmo mecanismo pode ocorrer quando a origem da pressão é uma explosão de investimentos privados. A corrida pela IA estaria concentrando uma parcela crescente dos recursos disponíveis, deixando menos espaço para outras formas de investimento.
IA disputa capital, energia e chips
Um dos sinais apontados pelo economista está no mercado de semicondutores. A expansão da infraestrutura de IA aumentou fortemente a demanda por chips e memória, contribuindo para a elevação dos preços e criando dificuldades para setores que também dependem desses componentes.
A disputa se estende à energia. Data centers exigem enormes quantidades de eletricidade para operar e, com a expansão acelerada da infraestrutura de IA, passam a competir com outras atividades econômicas pela oferta disponível.
O resultado é diferente daquele observado durante o boom tecnológico dos anos 1990. Naquela época, segundo Krugman, o crescimento dos investimentos em tecnologia não impediu que os investimentos fora do setor também avançassem. A entrada de capital estrangeiro nos Estados Unidos ajudou a financiar a expansão.
No cenário atual, o economista vê uma situação menos confortável: o investimento em infraestrutura de IA cresce rapidamente enquanto outros investimentos perdem espaço.
Krugman também questiona a ideia de que o volume de dinheiro privado destinado à IA seja, por si só, uma prova de que esses investimentos são economicamente sólidos. O setor privado, lembra o economista, também pode direcionar grandes volumes de capital para projetos que posteriormente se revelam pouco rentáveis.
O risco vai além das ações de tecnologia
Outro ponto de preocupação é o financiamento dessa expansão. Uma eventual desaceleração dos investimentos em IA não atingiria necessariamente apenas os preços das ações de empresas do setor.
Krugman chama atenção para os vínculos entre o boom dos data centers, o crédito privado, o mercado imobiliário comercial e segmentos menos regulados do sistema financeiro. Quanto maior a alavancagem utilizada para financiar a expansão, maior pode ser o impacto de uma eventual reversão das expectativas.
O economista também critica medidas tributárias adotadas pelo governo Donald Trump que, em sua avaliação, funcionam como incentivo indireto à expansão da infraestrutura de IA, transferindo parte dos custos da corrida tecnológica para os contribuintes.
O argumento central, entretanto, não é que a inteligência artificial esteja necessariamente prestes a entrar em colapso. A questão levantada por Krugman é anterior: o investimento em IA já pode estar consumindo recursos que fariam falta em outras partes da economia.
Nesse sentido, o problema econômico não depende de uma eventual explosão de uma bolha tecnológica. O próprio processo de concentração de capital, energia e capacidade produtiva na IA pode gerar custos para os demais setores, e a pergunta deixa de ser sobre transformação econômica para saber quanto da economia atual está sendo deslocado para financiar essa transformação.
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