10 de junho de 2026

China 2025: A Força Silenciosa de um Plano Bem Executado, por Maria Luiza Falcão

Enquanto Trump renovava suas ofensivas comerciais no segundo mandato, a China respondia com “resiliência prática”.
Reprodução

China 2025: A Força Silenciosa de um Plano Bem Executado

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por Maria Luiza Falcão Silva

O Plano que Transformou Pressão em Progresso 

A China acaba de fechar um capítulo e tanto com o 14º Plano Quinquenal (2021-2025). Num mundo cheio de incertezas — pandemia, guerra comercial, pressões geopolíticas —, esse período mostrou que o país não só navegou em águas turbulentas como virou o jogo a seu favor. Não ficou refém das políticas danosas de Trump, que tentaram frear seu crescimento com tarifas e ameaças de “decoupling”. 

Crescimento com pulso firme – Enquanto Trump renovava suas ofensivas comerciais no segundo mandato, a China respondia com “resiliência prática”. O país manteve uma média de crescimento de 5,5% ao ano, injetando 35 trilhões de yuans na economia. Um aumento maior que o PIB da Alemanha! E a estratégia usada foi apostar no próprio mercado: 86,4% desse crescimento veio de demanda interna, com o consumo das famílias na liderança. Ou seja, enquanto os EUA brincavam de “America First”, a China mostrou que seu povo é seu maior ativo. 

Inovação sob pressão – As restrições a tecnologias sensíveis, como chips, poderiam ter paralisado o país. Mas viraram combustível para a autonomia. Os investimentos em pesquisa dispararam quase 50%, e hoje a China já domina desde inteligência artificial de ponta a carros elétricos — são 31,4 milhões nas ruas, seis vezes mais que em 2020. Trump queria isolar a China, mas o que fez foi acelerar sua corrida tecnológica. 

Verde que vale ouro – Aqui o plano foi visionário. Enquanto o mundo discutia metas, a China agiu. Triplicou sua capacidade de energia renovável, fazendo hoje 1/3 da sua eletricidade vir de fontes limpas. Reduziu em 11,6% o consumo de energia por unidade de PIB e cortou emissões como nenhum outro grande poluidor. E isso não é só discurso, é estratégia. Afinal, quem lidera a transição ecológica dita o futuro. 

Abertura inteligente – Ao contrário do que pregava o protecionismo trumpista, a China ampliou seus laços globais. Atraiu 4,7 trilhões de yuans em investimentos estrangeiros, abriu setores como saúde e telecomunicações, e mostrou que empresas estrangeiras são parceiras, não ameaças. O resultado? Multinacionais hoje geram 1/4 da produção industrial chinesa e 30 milhões de empregos. Trump defendia muralhas; a China construiu pontes. 

O 14º Plano não foi só sobre números. Foi sobre redefinir regras. Enquanto os Estados Unidos (EUA) gastavam energia com tarifas, a China investia em transformação qualitativa, do campo à cidade, do chip ao painel solar. E o fez sem se render a provocações. Como disse Yao Jingyuan, economista chinês: “Relações Internacionais não são um jogo de soma zero”. O plano provou que, em vez de reagir a políticas hostis, é possível “criar novos caminhos”. 

O Plano Chinês e o BRICS

A China conclui seu 14º Plano Quinquenal (2021-2025) com números robustos e, mais que isso, com uma lição estratégica clara: em tempos de guerra econômica, quem inova, lidera. Enquanto Donald Trump renovava tarifas e tentava asfixiar o crescimento chinês, Pequim respondeu com uma jogada de mestre. Transformou a pressão em progresso e, de quebra, fortaleceu o BRICS como contrapeso geopolítico à hegemonia ocidental. Esses dois movimentos — o avanço do planejamento chinês e a expansão do BRICS — não estão dissociados. Pelo contrário, formam um novo roteiro para o Sul Global.

A Cúpula do BRICS realizada no Rio de Janeiro, em julho de 2025, marcou uma inflexão histórica. Sob a liderança do Brasil, o bloco deixou de ser uma articulação econômica para se afirmar como força política global. O ingresso da Indonésia como membro pleno e a adesão de dez novos países-parceiros — incluindo Nigéria, Vietnã e Cuba — transformaram o BRICS numa coalizão de 11 nações permanentes e dez associadas, O BRICS+, com um objetivo declarado: criar estruturas de governança paralelas que desafiem o monopólio decisório dos Estados Unidos e da Europa. Como sintetizou o chanceler brasileiro, “não somos anti-Ocidente; somos pró-multipolaridade”. O gesto simbólico se reforçou com o apoio público de China e Rússia ao assento permanente do Brasil e da Índia no Conselho de Segurança da ONU, um recado direto ao status quo.

Trump quis isolar a China, mas o efeito foi inverso: ela ampliou suas alianças e redes de cooperação. A sinergia entre seu plano nacional e a diplomacia do BRICS produziu resultados concretos. Um exemplo é a Declaração sobre Finanças Climáticas, com a criação de fundos verdes voltados ao desenvolvimento de energias limpas e a meta ambiciosa de alcançar 40% de participação das renováveis na matriz energética chinesa até 2025. Em paralelo, a governança global da inteligência artificial passou a integrar a agenda do bloco. A China, que já lidera o setor com ferramentas como o DeepSeek — rival do ChatGPT — compartilha agora seu know-how tecnológico com os parceiros do Sul Global. A cooperação se estende ainda à área da saúde, com programas voltados ao combate de epidemias negligenciadas nas periferias urbanas e zonas rurais, onde a presença da OMS é escassa. “Quando países ricos controlam algoritmos, nós viramos fornecedores de dados. O BRICS quer mudar essa lógica”, observou o professor Xiao Youdan, da Academia Chinesa de Ciências.

Em meio à guerra de chips e restrições ocidentais, o BRICS transformou-se num verdadeiro laboratório de soberania tecnológica. A China treina engenheiros brasileiros e indianos em semicondutores e baterias de lítio, abrindo caminho para um ciclo de transferência de tecnologia e autonomia produtiva.

No campo da energia, o bloco articula uma transição justa e cooperativa. Países como Arábia Saudita (com expertise em petróleo) e Brasil (referência em bioenergia) somam forças na busca por financiamento coletivo de iniciativas como o hidrogênio verde e a energia solar. Trata-se de uma aliança voltada para o futuro, mas atenta às armadilhas do presente. A pesquisadora sul-africana Thelela Ngcetane-Vika advertiu: sem inclusão digital, a inteligência artificial apenas reforçará as desigualdades. O BRICS quer justamente evitar um novo ciclo de neocolonialismo digital.

Os resultados já são visíveis. A aposta no BRICS não é retórica; é pragmática e mensurável. O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para cima a previsão de crescimento da China em 2025, de 4% para 4,8%, impulsionado pela redução parcial das tarifas impostas pelos EUA e pela abertura de novos mercados dentro do bloco.

 O comércio intra-BRICS cresceu 22% no ano, com transações feitas em moedas locais: soja brasileira, minério sul-africano e petróleo russo circulando à margem do dólar. O Novo Banco de Desenvolvimento, braço financeiro do grupo, destinou US$ 8 bilhões a projetos de infraestrutura verde, como ferrovias na Etiópia e parques eólicos no Nordeste brasileiro.

O 14º Plano Quinquenal chinês, portanto, foi mais do que um esforço de crescimento interno. Foi um ato de geopolítica aplicada. Enquanto Trump investia em muralhas tarifárias, o BRICS respondia com pontes diplomáticas e a China asfaltava o caminho. O bloco já não é apenas uma iniciativa econômica. Tornou-se um projeto civilizatório. Um projeto onde o Sul Global dita regras, compartilha tecnologia, investe em sua própria infraestrutura e constrói alternativas. Como afirmou o economista chinês Zhao Hai, “unidos, viramos jogadores; divididos, seremos apenas peças”.

A lição está dada: autonomia não se conquista com discursos, mas com planejamento, inovação e alianças audaciosas. A China compreendeu isso. O BRICS está colocando em prática. E o mundo, diante dessa nova arquitetura, não será mais o mesmo.

Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA. 

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  1. Luiz Gonzaga Belluzzo

    6 de agosto de 2025 9:40 am

    Excelente artigo de Maria Luisa Falcão

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