10 de junho de 2026

Conflito Israel-Palestino escancara divisão mundial entre o Sul Global e o “resto”, por Valdir Bezerra

Frustradas no Conselho de Segurança as tentativas para se encontrar uma solução pacífica para o conflito, o mundo viu uma série de tragédias
Destruição em Gaza é apontada como similar às que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial, aponta o Financial Times. Foto: Mustafa Hassona/Anadolu

do Observatório de Geopolítica

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Conflito Israel-Palestino escancara divisão mundial entre o Sul Global e o “resto”

por Valdir da Silva Bezerra

Com o início do conflito Israel-Palestina, o Ocidente foi novamente surpreendido com a reação do Sul Global, que não apoiaram de forma incondicional as ações de Israel em resposta aos ataques do dia 07. Essa situação evidenciou, de maneira clara e evidente, a incapacidade do Ocidente de controlar a narrativa global, como fazia no passado.

Na atual crise no Oriente Médio, o apoio irrestrito do Ocidente a Israel foi demonstrado por uma declaração conjunta emitida por Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido e Itália, apoio esse que forneceu um forte anteparo psicológico a Benjamin Netanyahu. Em resumo, as potências ocidentais deram carta branca à Israel para executar uma resposta altamente desproporcional e destrutiva do ponto de vista humanitário na Faixa de Gaza.

A Rússia, por sua vez, com o apoio do Mundo Árabe, da própria Palestina e do Sul Global, propôs no Conselho de Segurança da ONU uma solução negociada para a crise no Oriente Médio, através de resoluções que solicitavam a implementação imediata de um cessar-fogo humanitário. No entanto, desde o dia 16, as propostas russas foram vetadas por potências ocidentais, como Japão, França, Reino Unido e, principalmente, pelos Estados Unidos, prolongando o derramamento de sangue em Gaza.

Frustradas no Conselho de Segurança as tentativas para se encontrar uma solução pacífica para o conflito, o mundo testemunhou uma série de tragédias na região, incluindo o ataque ao hospital Al-Ahli em 17 de outubro, que resultou na morte de centenas de civis. Israel tem tentado culpar o grupo Hamas pelo ataque, mas essas afirmações são amplamente desacreditadas no Sul Global e no Mundo Árabe, devido à enorme disparidade no número de mortes entre israelenses e palestinos durante as últimas décadas.

Diante das atrocidades que se seguiram, manifestações surgiram em todo o mundo árabe, no Sul Global e em várias partes da Europa em apoio à Palestina e contra as ações desproporcionais de Israel no conflito.  As potências emergentes da Ásia, África e América Latina, por sua vez, romperam com as narrativas ocidentais sobre a suposta retidão das ações implementadas por Israel no âmbito de suas operações contra o Hamas, que mais se parecem com operações contra a própria população palestina em Gaza.

Até mesmo a simpatia da sociedade europeia em relação aos apelos políticos em favor de Israel tem sido abalada, como demonstrado pelos constantes protestos populares em apoio à causa palestina. O Ocidente, que sempre prioriza seus interesses geopolíticos acima de tudo e acima de todos, perdeu sua credibilidade e não consegue mais influenciar a opinião pública mundial, mesmo detendo o controle das principais redes de notícia e veículos de mídia.

A razão desse fracasso se deve à arrogância do Ocidente em imaginar que ainda seria capaz de ditar a narrativa global por meio da manipulação da informação, uma estratégia que já não funciona mais devido à multiplicidade de canais formais e informais hoje existente. Agora, o Ocidente precisa lidar com uma diversidade de novos atores políticos de peso, assim como com novas agências de notícias alternativas, cujo alcance e voz tem aumentado significativamente nos últimos tempos. Afinal, todos tem visto o que está acontecendo em Gaza. Já não é mais possível esconder os fatos, por maiores que sejam os esforços dos poderes hegemônicos, que antes dominavam de forma inconteste a esfera informacional. Em outras palavras, assim como a guerra por procuração contra a Rússia na Ucrânia, o conflito Israel-Palestina provou não mais existir uma única forma de interpretar os acontecimentos hoje em curso. Provou também que o mundo será cada vez mais marcado por uma oposição entre o Sul Global e o resto.

Valdir da Silva Bezerra é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estatal de São Petersburgo, na Rússia. Membro do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais sobre Ásia da Universidade de São Paulo (NUPRI-GEASIA). Pesquisador do Grupo de Estudos Sobre os BRICS da Faculdade de Direito da USP (GEBRICS-USP). Colaborador do Grupo de Estudos sobre a Rússia (PRORUS) da Universidade Federal de Santa Catarina. O autor também é colunista oficial da Sputnik Brasil. Desde o ano passado, Valdir Bezerra vem atuando em paralelo como comentarista político convidado para os canais Jovem Pan, Band News e Record News. Algumas de suas matérias e opiniões podem ser encontradas em publicações como: Folha de São Paulo, Valor Econômico, O Antagonista, Crusoé e Jornal GGN, no qual também escreve como colunista convidado.

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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