21 de maio de 2026

Economia de guerra, por José Luís Fiori

Não há dúvida de que foi na Alemanha que os impactos da Guerra da Ucrânia se fizeram sentir de forma mais contundente e destrutiva.

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Economia de guerra

por José Luís Fiori

Quatro fantasmas assombram a Europa neste início de 2024: a crise econômica, a revolta social, a volta do fascismo e a guerra com a Rússia. A Comissão Econômica Europeia está prevendo, para 2024, um crescimento do PIB de apenas 0,9%, e o Banco da Inglaterra, depois de dois anos de estagnação, está prevendo um crescimento britânico de 0,25%. E esta é a expectativa com relação a quase todos os países europeus, paralisados por suas altas taxas de juros, de inflação e de desemprego.

Como consequência quase direta desta crise, multiplicam-se as greves e os protestos sociais, de leste a oeste, e de norte a sul do continente, onde avançam os partidos de extrema direita, e os movimentos fascistas adquirem cada vez maior força eleitoral, ameaçando os próprios fundamentos ideológicos e políticos do projeto de unificação da Europa.

Não há dúvida, entretanto, de que foi na Alemanha que os impactos da Guerra da Ucrânia se fizeram sentir de forma mais contundente e destrutiva. A economia alemã retrocedeu 0,4% no último trimestre de 2023, e deve contrair ainda mais 0,1% no ano de 2024. E, mais grave do que isto, os alemães sofreram uma grande perda de competitividade, e vêm enfrentando um acelerado processo de desindustrialização depois de suspender seus contratos de importação da energia barata da Rússia – uma estranha maneira de punir os russos que está destruindo a própria economia alemã.

O preço da energia subiu 41%, as greves de transporte são cada vez mais frequentes e extensas, e os protestos dos agricultores alemães são quase permanentes. Por outro lado, as pesquisas de opinião indicam que o partido da extrema direita, Alternativa para a Alemanha (AFD) já conta hoje com o apoio de 19% dos eleitores, deve se transformar no segundo maior partido alemão. E não é impossível que seja chamado a fazer parte do governo alemão depois das eleições parlamentares de 2025, mesmo tendo forte presença de setores fascistas ou mesmo nazistas, que defendem posições xenófobas, anti-islâmicas, e favoráveis à retirada alemã da União Europeia.

Esta história poderia ter sido diferente se os europeus e a Alemanha, em particular, tivessem apoiado as negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia no início de 2022. Mas não foi isto que aconteceu. Num primeiro momento, a Alemanha adotou uma posição reticente frente à agressividade anglo-americana, mas a ala mais belicista do seu governo acabou se impondo, sob a liderança da ministra de Relações Exteriores, Annalena Baerboch, e do ministro da Defesa, Boris Pisterius, em estreita coordenação com a presidenta da Comissão Europeia, a Sra. Ursula von der Leyen, que havia sido ministra de Defesa da Alemanha entre 2013 e 2019.

Depois disto, o próprio primeiro-ministro social-democrata Olaf Scholz acabou se declarando partidário de uma “cooperação total da Alemanha com os Estados Unidos” e, de fato, durante os dois anos que já dura a guerra na Ucrânia, a Alemanha transformou-se no segundo maior fornecedor do armamento utilizando pelo governo Volodymyr Zelensky contra as tropas russas.

Uma vez definida esta posição ao lado da Ucrânia e contra a Rússia, o governo alemão criou um Fundo Emergencial de 100 bilhões de euros para aquisição imediata de armamento de última geração. E, em novembro de 2023, o ministro Da defesa Boris Pisterius divulgou as “Novas Diretrizes da Política de Defesa da Alemanha”, um documento de 19 páginas – o Zeitenwende – que define como novo objetivo estratégico das Forças Armadas alemãs transformar-se na “espinha dorsal da dissuasão e da defesa coletiva de toda a Europa”.

Junto com isto, Boris Pisterius anunciou a elevação do gasto militar alemão para 2% do orçamento federal em 2024, e para 3 e 3,5%, em 2025 e 2026, conclamando os demais países europeus a fazerem o mesmo que a Alemanha. Em completa sintonia com a Sra. Ursula von der Leyen, que anunciou sua candidatura à reeleição para a chefia da Comissão Europeia, ao mesmo tempo que prometia para breve “uma nova estratégia de defesa para a Europa” que se propõe “gastar mais, gastar melhor e gastar sobretudo com armamentos produzidos na própria Europa, utilizando-se da experiência na Ucrânia, para ultrapassar a Rússia”.

Por fim, no dia 12 de fevereiro de 2024 – em entrevista concedida à Agência AFP – o primeiro-ministro Olaf Scholz afirmou que projeto do seu governo é superar a crise econômica e assumir a liderança militar da Europa. Nessa entrevista, Olaf Scholz conclamou os europeus a “produzirem material militar em massa” e defendeu a necessidade de que a Alemanha “abandone sua indústria manufatureira para concentrar-se na produção de armamento em larga escala”, porque “nós não estamos vivendo em um tempo de paz”.

Essas mesmas ideias foram levadas à Conferência Estratégica de Munich, realizada de 17 a 19 de fevereiro, e marcada pela difusão de uma informação “confidencial” atribuída a Bundeswehr, e vazada pelo tabloide alemão Bild, que anunciava uma invasão russa do território da OTAN para o ano 2025. A informação foi desmentida, mas depois de já ter provocado o pânico generalizado e haver mobilizado o sentimento “russofóbico” dos participantes, recolocando a Rússia na condição do grande “inimigo externo” dos europeus, como já havia acontecido com a malsucedida invasão francesa da Rússia em 1812, e com a fracassada invasão alemã da União Soviética, em 1941.

Resumindo, tudo indica que, hoje, o objetivo comum da Alemanha de Olaf Scholz, e da Comissão Europeia de Ursula von der Leyde é criar uma “economia de guerra” no território europeu. Uma economia de guerra liderada pela Alemanha, que abriria mão de sua indústria manufatureira para transformar-se na cabeça de um complexo militar, integrado a partir da própria Alemanha, envolvendo os demais países europeus, segundo as “vantagens comparativas” de cada um deles. Por este caminho, é óbvio, a “Europa dos cidadãos”, idealizada por Konrad Adenauer, ou mesmo a “Europa dos mercadores”, criticada por François Mitterand, seria substituída por uma nova “Europa dos soldados e dos canhões”, como nos velhos tempos da própria Europa.

O novo projeto alemão para a União Europeia conta com o apoio dos Estados Unidos e, se tiver sucesso, confirmará o declínio e a perda de protagonismo da França, mesmo dentro da Europa. E seria uma compensação pela destruição dos gasodutos do Báltico, o Nord Stream 1 e 2, que teriam sido fundamentais para o sucesso da economia alemã. Esta nova configuração de forças dentro da Europa deverá ser sacramentada pela escolha do primeiro-ministro holandês Mark Rutte para o cargo de Secretário Geral da OTAN, no lugar do norueguês Jens Stoltenberg, com o apoio exatamente dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Alemanha.

Mark Rutte é membro do Partido Popular para a Liberdade e Democracia, da extrema direita holandesa, militarista, xenófoba e anti-islâmica, mas muito próximo das posições belicistas e “russofóbicas” da Sra Von der Leyden, e do ministro de Defesa alemão Boris Pisterius. Neste sentido, a provável escolha de Mark Rutte para o comando da OTAN deve favorecer o processo de redefinição e centralização do poder que está em curso dentro da Europa, e que aponta na direção de Berlim.

Se tudo correr como está planejado, em cinco ou dez anos mais, a Alemanha somará à sua ascendência econômica e à sua tutela financeira do Europa, sua nova preeminência militar, incluindo sua influência sobre a OTAN, através de Mark Rutte, alcançando finalmente a hegemonia dentro do Velho Continente que vem buscando sem sucesso – por vários caminhos – desde o século XIX.

Essa estratégia vem sendo concebida junto com o governo Joe Biden, mas deve se manter mesmo em caso de vitória de Donald Trump. Se Trump vencer, é possível que a Alemanha recorra a um novo Acordo de Munique, para assegurar a cobertura atômica da Inglaterra, no caso de uma iniciativa nuclear alemã que não contasse com a cobertura atômica dos Estados Unidos. De qualquer maneira, o objetivo da Alemanha, neste momento, não é guerrear com a Rússia; é montar e comandar uma “economia de guerra” europeia, mas mesmo assim esse projeto demandará pelos menos uns cinco anos de “carência”, daí a necessidade alemã de que a Guerra da Ucrânia se prolongue na forma de uma “guerra de atrito” que não tenha vitoriosos.

Mas como ensina a história da Primeira Guerra Mundial, quando os europeus voltam às armas, eles também podem voltar à guerra, mesmo sem querê-lo: basta um erro de cálculo, provocado por uma bravata como as que costuma fazer o presidente Emmanuel Macron, ou o vazamento de uma conspiração de generais alemães para atacar a ponte da Crimeia, na Rússia, como acabou de acontecer, e toda essa cuidadosa montagem pode terminar em mais uma grande guerra europeia.

A diferença é que agora seria uma guerra da OTAN contra a Rússia e, neste caso, como disse recentemente o ex-presidente russo Daniil Mevedev, se trataria de uma “guerra assimétrica”, que obrigaria os russos a utilizar imediatamente seu armamento nuclear. Isso significa, em última instância, que se o novo projeto alemão para a Europa for bem-sucedido, ele encerraria os 80 anos de ocupação militar unilateral e explícita do território alemão pelas tropas americanas. Mas, ao mesmo tempo, recolocaria o Velho Continente na beira do abismo.

*José Luís Fiori é professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O poder global e a nova geopolítica das nações (Boitempo). [https://amzn.to/3RgUPN3]

Publicado originalmente na revista Observatório Internacional do Século XXI, n°. 4.

José Luís Fiori – Professor emérito dos Programas de Pós-graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ), e em Bioética e Ética Aplicada (PPGBIOS/UFRJ), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenador do GP do CNPQ, “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório de “Ética e Poder Global”, do NUBEIA/ UFRJ; pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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  1. JOSSIMAR

    20 de março de 2024 9:20 pm

    ESSES EUROPEUS E AMERICANOS SÃO BURROS MESMO. E OS ALEMÃES MAIS AINDA.
    DEIXAR A ALEMANHA SE ARMAR? NÃO VIRAM O QUE ACONTECEU EM 1914 E 1939?
    EU ACREDITO DESDE SEMPRE QUE O SONHO EUROPEU OCIDENTAL SEMPRE FOI METER A MÃO NAS IMENSAS RIQUEZAS NATURAIS DA RÚSSIA. A EUROPA, DURANTE TODA A HISTÓRIA DA HUMANIDADE CONHECIDA ROUBOU AS RIQUEZAS NATURAIS TODOS OS OUTROS. ESTÃO TÃO ACOSTUMADOS A ROUBAR QUE NÃO CONSEGUEM CONTROLAR A MÃO E ACREDITAM QUE É SEU DIREITO ROUBAR OS OUTROS.
    MAS, AGORA, ENCONTRARAM ALGUÉM CAPAZ DE ENFRENTÁ-LOS E DESTRUÍ-LOS, MESMO QUE O PREÇO SEJA A PRÓPRIA DESTRUIÇÃO.
    DEIXEM DE SER LADRÕES E COMECEM A PAGAR PELAS COISAS.

  2. Jicxjo

    20 de março de 2024 10:35 pm

    Olaf Blair, digo, Tony Scholz se olha no espelho e enxerga um Napoleão, mas é só mais um poodle dos americanos mesmo.

  3. José de Almeida Bispo

    21 de março de 2024 8:19 am

    E, mais uma vez a banca inglesa, em especial; e anglo-americana, como um todo, usa a Alemanha como poderoso aríete na sua multissecular ideia fixa de destruir a Rússia.
    Hitler deitou e rolou cometendo os mais absurdos crimes. Só lhe faltou apoio quando falhou na missão de destruir a Rússia, então União Soviética.
    Mais uma vez a Alemanha é chamada ao sacrifício.
    Na Segunda Guerra, como penitência pelo “erro” de Guilherme II que deu em outubro de 1917; dessa, burocratas politiqueiros alemães atuais cuidaram disso. E o eixo da virtude, Pequim-Moscou-Berlim se torna cada vez mais distante.
    Depois de segurarem o Brasil na velha posição de quatro, agora reduzem a Alemanha.
    Isso não vai acabar bem.

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