O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, desembarcou em Atlanta (EUA) nesta sexta-feira (30) para a reunião de chanceleres do G20. O encontro de dois dias, presidido pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, ocorre sob forte tensão diplomática após a fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para Miami, viabilizada com apoio logístico dos governos dos Estados Unidos e da Argentina.
O Itamaraty prevê a participação de Vieira em três sessões de trabalho sobre geopolítica, energia e cadeias de suprimento. Embora um comunicado oficial afirme que o chanceler “manterá, ainda, reuniões bilaterais“, não há agendas formais confirmadas.
Operação de fuga internacional
Flávio Bolsonaro deixou o Brasil na noite de terça-feira (27) utilizando um passaporte italiano, o que descumpre a ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para a retenção de seus documentos. O senador é investigado pela Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
A saída do político contou com o envolvimento direto de aliados de Donald Trump e Javier Milei. Reportagem do The New York Times revelou que Jason Miller, funcionário do governo americano, providenciou o jato utilizado no deslocamento. “O plano foi colocado em prática na segunda-feira, depois que o Sr. [Flávio] Bolsonaro foi orientado a entregar seus passaportes, informou a fonte“, destacou o diário.
O embarque inicial ocorreu no país vizinho. Segundo o jornal Clarín, Santiago Caputo, assessor estratégico de Milei, viajou a Puerto Iguazú para monitorar a fronteira. “Do terminal, acompanhou cada etapa da operação para garantir o transporte da família Bolsonaro, com uma preocupação central: impedir que fotos ou vídeos do que acontecia no local fossem divulgados.“
Crise diplomática
O episódio agrava uma relação já desgastada com Washington e Buenos Aires. A Casa Branca não comentou a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas recentes eleições brasileiras. Trump tem passado uma narrativa de desconfiança institucional, sem provas: “Eu não tomei partido, mas pareceu muito estranho. Para mim, pareceu muito ruim“.
O atrito com os americanos escalou em agosto passado, quando o visto da embaixadora do Brasil nos EUA, Maria Luiza Ribeiro Viotti, foi revogado. A medida foi uma retaliação à demora do governo Lula em conceder o aval diplomático (agrément) a Daniel Pérez, nome escolhido por Trump para assumir a embaixada no Brasil.
Em relação à Argentina, os laços esfriaram desde os ataques de Milei a Lula, que resultaram no recolhimento de embaixadores também em agosto.
Esvaziamento do G20
A reunião ministerial serve como etapa preparatória para a Cúpula de Líderes, agendada para 14 e 15 de dezembro, em Miami. No entanto, o governo brasileiro avalia a atual presidência americana no bloco com ceticismo.
Membros da diplomacia enxergam um esvaziamento do fórum sob o comando de Rubio, alinhado à visão de Trump, que prioriza acordos bilaterais e rejeita pautas multilaterais. O Brasil, que liderou o grupo anteriormente e lançou a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza, considera que a atual gestão americana promoveu retrocessos, dificultando a aprovação de acordos por consenso entre as maiores economias do mundo.
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