As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos representam mais do que uma disputa pelo controle do Congresso. Para o economista e colunista Paul Krugman, o pleito também coloca em questão a influência de um pequeno grupo de bilionários sobre a política americana e a capacidade das instituições democráticas de limitar o poder dos mais ricos.
Em artigo publicado às vésperas da votação, Krugman argumenta que os chamados oligarcas americanos têm interesses diretos no resultado eleitoral. Segundo ele, a possibilidade de os democratas ampliarem sua presença no Congresso representa uma ameaça aos interesses de empresários e grandes investidores que se aproximaram do presidente Donald Trump após sua vitória em 2024.
O receio desse grupo, afirma o economista, é que uma eventual maioria democrata abra investigações parlamentares sobre casos de corrupção associados ao governo Trump. Para evitar esse cenário, megadoadores têm direcionado volumes expressivos de recursos às campanhas republicanas, numa tentativa de reduzir o avanço dos democratas.
Krugman cita levantamento publicado pelo The New York Times, segundo o qual apenas 20 doadores — aproximadamente 0,00001% da população adulta americana — já destinaram cerca de US$ 2 bilhões às eleições de meio de mandato. O montante representa aproximadamente 15% de todos os gastos eleitorais.
Esses financiadores apoiam majoritariamente candidatos republicanos, o que, na avaliação do economista, evidencia a capacidade de uma parcela extremamente reduzida da população de influenciar o processo político e os rumos do país.
Concentração de riqueza e influência política
Para explicar como um grupo tão pequeno conseguiu acumular tamanho poder, Krugman aponta dois fatores. O primeiro é a decisão da Suprema Corte americana de 2010, no caso Citizens United v. Federal Election Commission, que abriu caminho para uma ampliação significativa dos gastos de empresas e organizações independentes em campanhas eleitorais.
O segundo, considerado pelo economista ainda mais importante, é a concentração crescente da riqueza. A acumulação de patrimônio nas mãos de uma parcela ínfima da população ampliou também sua capacidade de interferir nas decisões políticas, tornando os interesses dos super-ricos cada vez mais presentes no financiamento das eleições.
Krugman recupera uma declaração do ex-presidente Woodrow Wilson, feita em 1913, para ilustrar o risco de captura do governo por interesses privados. Na ocasião, Wilson advertiu que, se existissem homens suficientemente poderosos para controlar o governo dos Estados Unidos, eles tentariam fazê-lo. A questão, segundo a reflexão recuperada pelo economista, seria saber se a sociedade teria força para retomar o controle das próprias instituições.
Mais de um século depois, Krugman considera que o país enfrenta novamente esse dilema. A eleição de meio de mandato seria, portanto, um teste para determinar até que ponto a concentração de riqueza pode se converter em domínio sobre a política americana.
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