Vale a pena a leitura do artigo “O colapso iminente de Trump”, de David Brooks, no The New York Times. Brooks é um canadense- americano, tipo como conservador moderado, e é um dos colunistas mais influentes do jornal.
Brooks sustenta que os EUA atravessam quatro colapsos simultâneos:
- Ordem internacional pós-1945 em fratura acelerada
- Tranquilidade interna, corroída por ações do ICE e uso político da força
- Ordem democrática, com ataques à independência institucional e ataques forjados a oponentes políticos.
- Colapso psicológico de Trump, que seria o vetor central de todos os demais
Ele se baseia na história romana para montar um raio X da ditadura trumpista. Recorre a Tácito, Salústio e Gibbon para comprovar a tese de que a degradação moral privada do governante precede e contamina a ordem pública.
Ele estabelece uma gradação nesse processo:
- Grandiosidade crescente
- Isolamento decisório
- “Corrida à servidão” dos aduladores
- Desaparecimento dos moderados
- Normalização do horror
- Perda dos hábitos democráticos (persuasão, compromisso, pudor institucional)
Seguindo ele, a tirania não começa com tanques, mas com bajulação, medo e fadiga moral.
O trecho mais impactante do artigo não é o ataque a Trump — é este diagnóstico social:
“O fluxo implacável de eventos terríveis acaba sobrecarregando o sistema nervoso; o que antes parecia chocante passa a parecer banal.”
- Não se trata apenas do tirano, mas do efeito anestésico contínuo sobre a sociedade
Brooks considera que os EUA ainda estão distantes do colapso do Império Romano. As instituições ainda são fortes e os valores democráticos ainda resistem. Mas já há um cheiro de fumaça no ar.
O texto mostra os limites do constitucionalismo liberal, quando submetidos a líderes como Trump, que se movem por impulsos, não por cálculo. Passa-se a acreditar na falsa crença de que as regras sobrevivem sem virtudes. Ou seja, uma economia monitorada por regras, tem que privilegiar a virtude.
Brooks argumenta que a maior ameaça aos EUA hoje não é um golpe clássico, mas a corrosão moral progressiva produzida por um líder narcisista, que normaliza o abuso, anestesia a sociedade e testa — dia após dia — se ainda existe caráter suficiente para sustentar a democracia.
Diz ele: “A trajetória da tirania se inclina para a degradação. Os tiranos geralmente se embriagam com o próprio poder, o que progressivamente reduz a moderação, aumenta o sentimento de direito e o egocentrismo, e intensifica a propensão ao risco e o excesso de confiança, ao mesmo tempo que agrava o isolamento social, a corrupção e a paranoia defensiva”.
Recorre então a Edward Gibbon em sua obra, de 1776, “Declínio e Queda do Império Romano”:
“De todas as nossas paixões e apetites, o amor pelo poder é o mais imperioso e insociável, visto que o orgulho de um homem exige a submissão da multidão. No tumulto da discórdia civil, as leis da sociedade perdem sua força, e seu lugar raramente é ocupado pelas leis da humanidade. O ardor da contenda, o orgulho da vitória, o desespero do sucesso, a memória de injustiças passadas e o medo de perigos futuros contribuem para inflamar a mente e silenciar a voz da piedade. Por tais motivos, quase todas as páginas da história foram manchadas com sangue civil.”
Vale-se também do historiador inglês do século 18, Edward Wortley Montagu, para diferenciar ambição e sede de dominação.
“A ambição pode ser uma característica louvável, pois pode levar as pessoas a servir à comunidade para conquistar a admiração pública. A sede de dominação, escreveu ele, é uma paixão diferente, uma forma de egoísmo que nos leva a ´centrar tudo em nós mesmos, o que acreditamos que nos permitirá satisfazer todas as outras paixões´”.
“A insaciável sede de dominação, continua ele, ´elimina todas as virtudes sociais´. O tirano egoísta se apega apenas àqueles que compartilham seu egoísmo, que estão ansiosos para usar a máscara da mentira perpétua. ´Sua amizade e sua inimizade serão igualmente irreais e facilmente conversíveis, se a mudança servir aos seus interesses.´”
O futuro não é promissor, ao menos com Trump.
“Não tenho imaginação suficiente para saber de onde virá o próximo colapso — talvez por meio de alguma crise interna, criminal ou externa? Embora eu tenha ficado impressionado com uma frase que Robert Kagan escreveu em um ensaio sobre os efeitos da política externa de Trump na revista The Atlantic: ´Os americanos estão entrando no mundo mais perigoso que conheceram desde a Segunda Guerra Mundial, um mundo que fará a Guerra Fria parecer brincadeira de criança e o mundo pós-Guerra Fria parecer um paraíso´”.
“Mas eu sei que os eventos estão sendo impulsionados pela psique perturbada de um homem. A história não registra muitos casos em que um líder sedento de poder, rumo à tirania, de repente recuperou o juízo e se tornou mais moderado. Pelo contrário, o curso normal dessa doença é a deterioração e a depravação cada vez mais aceleradas”.
Paulo Dantas
24 de janeiro de 2026 7:22 pmA mim impressiona o silêncio do Partido Democrata.
Mas, creio eu, o Colégio Eleitoral , o bipartidarusmo e o voto distrital cobram o preço agora.
Renato Lazzari
26 de janeiro de 2026 11:31 pmCreio que o evento Trump apenas evidencia a tendência mundial, dos povos, pela busca justamente do que vem faltando cada vez mais: democracia entendida em seu mais amplo sentido. Maior participação popular nos resultados econômicos de seus países, maior participação popular nos processos decisórios sobre a coisa pública, ampliação do escopo para atendimento a demandas como Saúde, Educação, moradia, dignidade enfim…
Trump, ao mesmo tempo, é catalisador dessa exigência popular por aprofundamento da democracia – na medida em que usa de violência e retórica mafiosas promove reação no sentido oposto ao centralizador autoritarismo – e indicador da derrocada moral dos Estados Unidos. Mas não é o causador do colapso daquele país. Antes, me parece, é a consequência… Se não estivesse em curso já há umas décadas, a queda da tentativa estadunidense de imperar sobre o mundo, a sociedade “americana” não teria sentido necessidade de produzir um tipo como Trump.
A evidência da iminência e inevitabilidade dessa queda colocou os EUA não dilema em que nenhuma das opções favorece a manutenção do chamado “sonho americano”: ou os EUA cedem às demandas populares por democracia abrindo mão do ímpeto centralizador, o que os obrigaria a recuarem da intenção de imperar, ou aumentariam a violência e a arrogância, na intenção de continuar centralizando pela força, o que, como estamos vendo, só faz aumentar aquelas demandas populares… Ficaram, portanto, sem saída.
Quanto à forma de “buscar negócios”, os EUA fazem como relatado no filme “O poderoso chefão”: “De duas, uma: ou sua assinatura ou seus miolos estarão nesse contrato.”, o que é contraproducente se mudarmos a escala: O dono da “big band” que se recusava liberar o apadrinhado de Dom Corleone para sua pretensão de carreira solo, era uma pessoa física que, por óbvio, ao ter uma arma pontada para sua cabeça, teme por sua (individual) vida. Já quando se trata de povos, de coletividades, ainda mais coletividades cansadas de terrorismo vindo “de cima”, a história, me parece, é bem outra.
A impressão que tenho é de que os povos querem democracia e não querem mais esperar que isso lhes seja concedido, a está construindo por si mesmos… queiram os candidatos a centralizadores, como esses trumps e bolsonaros de vários países, ou não.
Fernando Monteiro
27 de janeiro de 2026 6:51 amConcordo inteiramente. Há uma fraqueza, moral inclusive, instalada no seio do partido Democrata. As últimas eleições mostraram isso. Não há liderança forte para dar um rumo ao partido. Então, não há oposição.
Renato Lazzari
27 de janeiro de 2026 11:09 amDemocratas, Republicanos, qual é a diferença? Quando foi, nos últimos 100 anos, que os estadunidenses deixaram de atacar outros povos, de sabotar iniciativas por independência, soberania, desenvolvimento e prosperidade de outros países? A Doutrina Monroe, por exemplo, que reza que os Estados Unidos tem direito a oprimir os povos todos da América, foi editada há mais de 200 anos, em 1823, e tem sido seguida desde então até os dias de hoje sem interrupção. Essa opressão é feita pelos estadunidenses de diversas formas: ataques militares, bélicos, infiltração de “coiotes” e “chacais” na nossa sociedade civil, aliciamento e cooptação dos nossos classe média através de propaganda, suborno aos nossos funcionários públicos, sabotagens diretas à nossa infraestrutura (Chevron no pré-sal, a explosão da plataforma P36, incêndio na base de Alcântara, sem falar no estrangeiro, p. ex. como a destruição do gasoduto russo, e muitos, muitos outros crimes), independentemente de qual partido seja o presidente deles, lá…
Eles cavaram, ao longo dessas décadas e alternando partidos e pessoas nas instituições deles, suas próprias covas, iludiram-se e enganaram-se, deixaram se enredar por pretensões arrogantes e crenças messiânicas, como o tal Destino Manifesto… Mas o que os estadunidenses fazem é problema deles.
Me parece que a melhor e única saída para nós é deixarmos tudo e qualquer coisa ou pessoa que venha dos Estados Unidos prá lá e cuidarmos de nós mesmos, buscando fortalecer relações comerciais e diplomáticas com os muitos outros povos do mundo. Não só construiremos um Brasil cada vez melhor para nós mesmos como, de quebra, nos livraremos dos arrogantes, “convincentes e simpáticos” (na fantasiosa visão deles sobre eles mesmos) porém realmente mafiosos estadunidenses.
Marcos Vinicius
28 de janeiro de 2026 6:29 pmVocê não acha que o partido Democrata não é sócio desse processo? Temos que entender que os Estados Unidos em sua política externa e interna se movem de maneira sincronizada – agenda única, pacto de poder selado. A alternância de poder é retórica entre os republicanos e os democratas. Observe que existe uma sincronia convergente entre eles. Aqui, estamos falando de uma conveniência política. Trump fez com Venezuela o que o Obama e Biden evitaram fazer – e os Democratas (como partido) queriam isso e não se opuseram, pois também era uma agenda deles. Espero estar errado, mas não creio que o Trump tenha acabado com o pacto de poder, os Estados Unidos não flexionam para lados opostos, eles seguem uma mesma agenda.
alfredo machado
24 de janeiro de 2026 10:01 pmAnálise de primeiro time, nenhum tirano foi capaz de retroceder, é sempre insaciável. Chama atenção a omissão do Congresso e da Suprema Corte em relação às diversas decisões estapafúrdias de DTrump, afinal, como explicar a intensa repressão aos que protestavam contra o genocídio em Gaza ? Em minha opinião, tais indiferenças vindas de Washington tiveram o efeito de um rastilho de pólvora, o que possivelmente explica, dentre outras ideias tresloucadas em curso, a criação de uma ONU by DTrump e anexação da Groenlândia.
Paulo coutinho
26 de janeiro de 2026 12:27 pmPrecisa ler mais e com calma os textos de Nassif…
Vladimir
25 de janeiro de 2026 11:15 amO cabelo amarelo dos falcões do norte não normalizou o abuso e nem o criou. Assim como o milico miliciano que ocupou a presidência de nosso país,ele surfa em uma onda moralista criada pelo soft power americano há trocentos anos. Assim,a situação é muito pior,ele representa uma horda de desajustados sociais criados por este sistema.
A grande diferença dele,e que vem sendo pouco analisada,é que ele atua como um gangster do mercado,fazendo declarações simplesmente para promover os movimentos especulativos com todo o sistema financeiro,principalmente com aqueles de alta volatilidade,como a bolsa de valores e as commodities,sobretudo o petroleo e ouro e prata.
Rui Ribeiro
25 de janeiro de 2026 3:33 pmPor onde andaste, Vlad? Senti a tua falta. Obrigado por retornar
Mário Mendonça
25 de janeiro de 2026 11:43 amMouro, toda essa pantomima de Trump esconde os quase 40 trilhões de dívida pública impagável, com os compradores dessa dívida se desfazendo dela, como o Japão e demais, que enxergaram que o declínio ianque é irreversível, pois passou do ponto de não retorno, e basta ver a corrida pelos metais preciosos para entender o buraco negro em que estão metidos! Como um palhaço de circo,Trump tenta distrair com diatribes, mas a conta chegou!
WRamos
25 de janeiro de 2026 12:14 pmEm artigo, Paul Krugman vai além, mostrando que Trump não é mais culpado que seus habilitadores. O problema é menos individual do que de castas
“At this point, however, there are no more excuses. In a way the cowards and opportunists enabling Trump are more to blame for where we are than Trump and company themselves: monsters are monsters and can’t help themselves, but the enablers have a choice. And they have chosen, again and again, to accommodate and facilitate evil.”
Rui Ribeiro
25 de janeiro de 2026 3:35 pmPor onde andaste, Vlad? Senti a tua falta. Obrigado por retornar
Assis Ribeiro
26 de janeiro de 2026 4:49 amEstá faltando na mídia alternativa comentário mais abrangente sobre esses problemas pontuados no texto.
Diz qualquer estudo sobre democracia que “o poder emana do povo”,
isso quer dizer que, em sentido estrito, os os políticos eleitos representam o povo, e no sentido mais amplo que os políticos eleitos são reflexos do que se passa na sociedade.
Por isso as populações têm escolhido personagens como Trump, Bolsonaro e tantos outros, o que demonstra que a
“corrosão moral gradual de instituições e costumes”
não ocorre pela presença no poder de Trump ou Bolsonaro e outros. Esses são efeitos do que está ocorrendo na sociedade e não causa.
Esses líderes demonstram, sim, falência do modelo de sociedade, a insatisfação das populações com o todo, o modelo.
O que será o novo mundo?
Alguns estudiosos como o filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever um sistema político surgindo.
Outros estudos apontam a possibilidade do surgimento de uma nova sociedade com a democracia mais horizontal (participação mas direto das populações nas demandas do Estado ) e menos vertical como a atual poder exercido por representantes eleitos pelo povo.
Sugestão de pauta para o jornalistas.
Rui Ribeiro
26 de janeiro de 2026 11:09 amO povo vota mas não elege. Quem elege é o poder econômico. O povo vota apenas para legitimar as eleições burgueses mas quem elege é o capital.
E nos EUA tanto fazia eleger Trump quanto a Kamalla. Tudo a mesma merda.
Victor Lima
26 de janeiro de 2026 8:17 pmE Lula achando que pode obter ajuda no combate ao crime organizado internacional justamente do chefe da quadrilha. Temos que usar de brasileira malandragem diplomática para não cutucar essa águia velha com vara curta e continuar a sair fora dessa arapuca norte americana que, na hora em que a canoa virar mesmo, vão querer levar todo mundo para o fundo..
Jair Cunha
27 de janeiro de 2026 8:46 pmTrump está levando os EUA a ruína devido ao seu narcisismo.
Rui Ribeiro
28 de janeiro de 2026 9:07 amTrump é o efeito da ruína estadunidense, não a sua causa.
Deka
30 de janeiro de 2026 3:50 pmTrump apenas representa as opiniões de muitos americanos moralistas, conservadores e preconceituosos. Os moderados e os progressistas são a minoria. E isso não só ocorre nos Estados Unidos mas também em muitos países da América Latina e Europa. E isso vai até atingir países da Ásia, África e Oriente Médio. Aqui no Brasil essa onda do moralista/bolsonarista, começou nas religiões evangélicas e daqueles que todo o sette de setembro pediam a volta do governo militar e na época era um grupo pequeno. Mas com toda essa onda que está acontecendo no mundo teve muito apoio da imprensa tradicional.