A invasão do Iraque sem o aval da ONU, o genocídio em Gaza, o ataque combinado de EUA e Israel ao Irã e os interesses financeiros de pessoas próximas à Casa Branca em meio ao conflito. Para os especialistas que participaram do Observatório de Geopolítica da GGN nesta sexta-feira santa, esses episódios não são eventos isolados, mas sintomas de um Ocidente em colapso moral e político.
O debate reuniu o professor Alexandre Wehara, coordenador do curso de Relações Internacionais da ESPN; o geógrafo Edilson Adão, especialista em Ásia Ocidental; e o economista Lício da Costa, pesquisador de economia política e sistema internacional.
“Liderança benigna”
Mediador do programa, o mestre em ciências da comunicação Márcio Sampaio abriu o debate com uma linha do tempo das últimas décadas: a construção da ordem liberal americana no pós-Segunda Guerra, o 11 de setembro e a invasão do Iraque, a crise financeira de 2008, a guerra na Ucrânia, o massacre em Gaza e, mais recentemente, o ataque americano e israelense ao Irã, todos eventos que, na sua avaliação, colocam em xeque a liderança ocidental.
Para Wehara, o enfraquecimento da hegemonia ocidental já vinha sendo discutido no campo das relações internacionais, primeiro no plano econômico, com o avanço das economias asiáticas, e agora também no plano político.
“Na área econômica, a Ásia começa a ganhar mais força. Já havia uma discussão de que o século XXI seria um período em que a Ásia passaria a ter maior protagonismo”, afirmou. “E o que a gente percebe agora, com os fatos recentes, é que também na área política parece que há um enfraquecimento, sim”, apontou.
Na avaliação do professor, as instituições multilaterais criadas no pós-guerra, a exemplo da ONU, FMI, Banco Mundial, também mostram sinais de fragilidade, o que pode anunciar uma reorganização da ordem internacional com países asiáticos ocupando posições de maior protagonismo.
Oriente Médio
Edilson Adão foi ainda mais direto ao avaliar a responsabilidade ocidental sobre os conflitos na região e chamou atenção para algo que considera fundamental: a própria nomenclatura “Oriente Médio” já é uma imposição colonial. “Oriente, para quem? Médio, a quem?”, questionou, lembrando que a expressão define a região a partir de um referencial externo, europeu.
Para o geógrafo, o Oriente Médio contemporâneo é, em larga medida, uma construção do pós-Primeira Guerra Mundial, fruto do desmembramento do Império Otomano e das fronteiras arbitrárias traçadas pela Inglaterra. “O Ocidente tem toda a responsabilidade, pois o Oriente Médio é um produto, é uma criação do Ocidente”, afirmou.
Sobre a questão palestina, Adão recorreu à Resolução 242 da ONU, de 1967, que exigiu a retirada israelense dos territórios ocupados na Guerra dos Seis Dias, medida que nunca foi cumprida. “Israel não só não se retirou da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, como trouxe judeus de outras partes do mundo para ocupar terras vazias.”
Quanto à palavra “genocídio”, termo que carrega peso jurídico e político, o especialista foi cauteloso, mas firme. “O que aconteceu na Faixa de Gaza pode ser incluído no glossário do genocídio, sim”, disse, lembrando que mais de 70 mil civis palestinos foram mortos numa região de menos de 400 quilômetros quadrados, com uma população de 2 milhões de pessoas. “É difícil você não atrelar essa atitude a uma coisa chamada genocídio.”
Interesses financeiros
O economista Lício da Costa trouxe ao debate uma dimensão que, segundo ele, revela a face mais crua do colapso moral americano: os supostos ganhos financeiros de pessoas ligadas ao círculo interno da Casa Branca às vésperas do ataque ao Irã.
O mediador havia levantado informações sobre operações no mercado futuro de petróleo feitas por pessoas próximas ao governo Trump dias antes das ações militares contra o Irã, quando o barril estava a 70 dólares e passou a bater a casa dos 120. Também citou o papel de Jared Kushner, genro de Trump, como idealizador de projetos de reconstrução e transformação de Gaza.
Para Costa, o episódio não surpreende. “Quando a América elege para presidente um gangster, não há outro tipo de postura possível”, avaliou. Mas foi além da crítica individual. Para o economista, o que está em jogo é o fim de um capital moral que os Estados Unidos acumularam no pós-guerra e que lhes permitiu, durante décadas, se apresentar como líderes do “mundo livre”.
“A América gozava de uma estatura moral bastante relevante, que permitia a ela se arvorar o direito de se auto-intitular líder do mundo livre. Isso, ao que parece, definitivamente acabou”, disse. “A América enfrenta um colapso interno de grandes proporções em várias frentes da sua sociedade.”
Risco geopolítico
Ao final de sua análise, Costa não poupou palavras ao identificar o principal fator de instabilidade global no momento. “Hoje, perguntado qual é o maior risco para o mundo do ponto de vista geopolítico e econômico, eu não tenho nenhuma dúvida em dizer: esse elemento chama-se Donald Trump. Ele é o maior risco à paz mundial e à estabilidade mundial.”
O economista também avaliou que a relativa estabilidade geopolítica atual, apesar de tudo, se deve, em parte, ao perfil dos líderes à frente de potências como Rússia e China. “Se não estivessem à frente de países tão importantes, do ponto de vista da sua capacidade bélica, homens como Putin e Xi Jinping — indivíduos históricos à frente de situações políticas relativamente estáveis dentro dos seus países —, nós talvez estivéssemos à beira de alguma crise de muito maior proporção no mundo.”
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