Observatorio de Geopolitica
O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.
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Para além do lago do Atlântico Norte, um mundo em ebulição, por James Onnig e Márcio Sampaio de Castro

Fórum Econômico de São Petesburgo conta com a participação de 139 países e reforça a aposta em uma nova ordem global sob a égide dos BRICS

Reprodução vídeo Euronews

Para além do lago do Atlântico Norte, um mundo em ebulição

por James Onnig e Márcio Sampaio de Castro

No primeiro semestre de 2022, quando as forças armadas russas invadiram a Ucrânia em nome da proteção da minoria étnica da região do Donbass, o chamado Ocidente coletivo prometeu isolar a Federação Russa do resto do planeta, reduzindo-a finalmente à condição de um mero “posto de gasolina”, conforme o apelido pejorativo imputado ao país cerca de dez anos antes pelo então senador republicano John McCain. A ideia era promover um gigantesco pacote de sanções econômicas, expulsar o país do sistema de pagamentos internacionais Swift e provocar uma crise econômica devastadora que acabaria por implicar em uma mudança de regime.

De fato, alguns sucessos foram obtidos nessa cruzada. Apresentações de grupos de balé russos em grandes capitais europeias foram canceladas, o Comitê Olímpico e federações esportivas, a grande maioria com sedes também na Europa, foram céleres em expulsar os atletas e equipes russas de seus quadros. Em Milão, uma universidade chegou a cancelar um curso livre sobre o escritor Fiódor Dostoiévski e sua obra. 

Mas no campo econômico, as coisas não saíram exatamente como planejadas. China e Índia, dois países membros dos BRICS, prontamente aumentaram suas aquisições de gás e petróleo russo. E mesmo o Brasil, ainda que goze de uma posição geopolítica relativamente frágil, aumentou o volume do comércio bilateral com o país euroasiático. O propalado isolamento não se confirmou e, ao lado de seus parceiros chineses, os russos vêm abertamente desafiando a “ordem internacional baseada em regras”, conforme expressão cunhada pelo Departamento de Estado estadunidense para referir-se à sua crescentemente questionada hegemonia econômica e militar.   

Mais um exemplo desse fenômeno foi a realização nos primeiros dias de junho na cidade russa que lhe empresta o nome do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo (SPIEF).  Sua 27ª edição pode ser entendida em seu aspecto mais geral como um importante avanço para a Rússia de Putin. Em meio a bloqueios e sanções liderados pelos EUA e União Europeia, que visavam e ainda visam asfixiar a economia russa e forçar a sua retirada da Ucrânia, o evento foi um sucesso em todas suas dimensões, contando com a participação de  representantes de 139 países. Com mais de US$ 70 bilhões em contratos assinados por centenas de empresas do mundo todo, o encontro propiciou a reafirmação dos anseios geopolíticos russos.

Entre os fatos curiosos, digamos, chamou a atenção a participação de uma delegação da autodenominada República de Srpska, região separatista da Bósnia-Herzegovina formada pela minoria sérvia, histórica aliada russa. A presença de representantes do Talibã, grupo outrora considerado terrorista pelo Kremlin, que controla o governo do Afeganistão, também mereceu destaque. O país já figura como observador no âmbito da OCX (Organização para Cooperação de Xangai) e é tratado como estratégico por russos no aspecto securitário e por chineses no âmbito da Nova Rota da Seda, além de possuir consideráveis reservas de cobalto, cobre e lítio.

É senso comum entre analistas que essa edição representou a sedimentação da guinada econômica russa com seus novos parceiros. Literalmente o Ocidente (EUA +UE) não enviou uma grande empresa sequer para o Fórum. É visível que o governo Putin sabe que a consolidação deste novo mapa econômico e comercial não seria possível sem a República Popular da China. O Presidente Xi Jinping e toda a cúpula do governo chinês estão em uníssono apoiando os esforços do Kremlin em construir uma nova realidade geoeconômica. Muitos dos acordos comerciais, pactos e alianças entre os dois países foram renovados e ampliados, alguns antes mesmo do Fórum.

 A estratégia russa de aproximação e fortalecimento de relações bilaterais e multilaterais vem se aperfeiçoando. A cada edição alguns países são convidados especiais e apresentam seu portfólio de projetos e suas expertises para o grande público formado por empresários chineses, indianos e de vários países africanos, para destacar de onde vieram as maiores comitivas.

Na América do Sul, a Bolívia recebeu o convite especial e o Presidente Luiz Arce e alguns altos-funcionários do governo estiveram presentes e diretamente envolvidos em muitas rodadas de negociações com empresários de diversos países, em especial russos.

O Oriente Médio, que vem aumentando ano a ano sua participação, teve como convidado especial em 2024, Omã. Os empresários russos vêm aproveitando cada edição para fortalecer seus laços com os países da península arábica e do Golfo Pérsico. As principais áreas de sinergia estão nas novas tecnologias de gás e petróleo, tecnologia de informação, desenvolvimento agrário e produção de alimentos.

Durante o Painel de Energia do Fórum de São Petersburgo, o presidente da estatal russa de petróleo Rosneft, Igor Sechin, fez um pronunciamento questionando os mecanismos para se efetivar a transição energética e a adoção de fontes mais limpas. O executivo defendeu a OPEP + (plus), que agrega aos 13 estados-membros outros, como México, Rússia e Cazaquistão. Sechin foi enfático ao afirmar que são eles que, em caso de uma crise mais profunda, podem abastecer o mundo (ou fechar as torneiras petrolíferas). No atual quadro de disputas globais, ele lembrou que muito se gastou para implementar energias renováveis e pouco resultado se obteve até agora, em clara referência a países, sobretudo, da Europa ocidental.

A verdade é que o mercado dos hidrocarbonetos, aliado à economia de guerra, vem fazendo com que os russos driblem todas as expectativas depositadas em sua débâcle por conta das sanções econômicas. Em seu último relatório Perspectivas da Economia Mundial, o FMI (Fundo Monetário Internacional) afirmou esperar que a Rússia cresça 3,2% em 2024, superando as taxas de crescimento previstas para os EUA (2,7%), França (0,7%), Reino Unido (0,5%) e Alemanha (0,2%). Vale registrar que particularmente a economia alemã derreteu após o pacote de sanções e a criminosa explosão do gasoduto Nord Stream 2, obra que garantiria gás russo a preços muito competitivos para o país. Curiosamente, a discussão sobre a autoria do atentado é tratada como tabu por Berlim.

Mas, voltando ao Fórum de São Petesburgo, entre os temas importantes ali debatidos destacou-se também a ampliação dos BRICS, que entraram em uma nova fase com a adesão de novos países-membros no ano passado. A construção da nova multilateralidade foi pauta da conversa direta entre Dilma Rousseff, a presidente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NDB), e o anfitrião Vladimir Putin. Na conversa, ambos teriam discutido a criação do Unit, um sistema de pagamentos composto por moedas dos países membros do grupo, encarregado de garantir todas as transações bilaterais. Ou seja, uma renúncia direta e explícita ao emprego do dólar norte-americano.

Em seu discurso na plenária do evento, Putin não poderia ter sido mais claro: “A economia global entrou numa era de mudanças sérias e fundamentais. Um mundo multipolar está em formação com novos centros de crescimento, novos investimentos e laços financeiros entre Estados e empresas”.

Pelas ideias expostas, em pouco tempo estaremos discutindo a “geopolítica das moedas” em um quadro financeiro global que nitidamente começa a forçar passagem para a desdolarização.

O decano ministro das relações exteriores russo, Sergei Lavrov, em reunião com seus homólogos dos países membros dos BRICS, realizada poucos dias depois em Novgorod, também na Rússia, foi ainda mais longe.

“É o Ocidente que está tentando dividir o mundo ao criar diferentes blocos. A infame afirmação de (Josep) Borrel de que a Europa é um jardim rodeado por uma selva, e a afirmação de (Antony) Blinken de que aqueles que não querem sentar-se à mesa democrática correm o risco de estar no menu servido nessa mesa – isto é puro neocolonialismo. E o BRICS é contra. Os países do Sul Global não querem mais depender dos duplos padrões do Ocidente e dos seus caprichos”.

Diante dessa avalanche econômica e geopolítica em curso capitaneada por russos e chineses, enquanto do outro lado os antigos países centrais do capitalismo batem cabeça com baixo crescimento e graves crises políticas, cabem duas perguntas: Quem caminha para o isolamento? O Atlântico Norte teria se transformado em um lago? 

A resposta não é simples e os dados estão sobre a mesa. Façam suas apostas!

James Onnig, Professor de Geopolítica do Laboratório de Pesquisas em Relações Internacionais da FACAMP (Faculdades de Campinas) e pesquisador do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política da PUC-SP

Márcio Sampaio de Castro é mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É professor assistente nos cursos de Relações Internacionais e Propaganda e Marketing das Faculdades de Campinas (FACAMP), onde coordena o Grupo de Análise e Pesquisa sobre a China (GAP – China).

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