A política externa da África do Sul sofreu uma profunda desestabilização e foi forçada a uma redefinição estratégica durante a administração de Donald Trump nos Estados Unidos. O impacto na diplomacia sul-africana foi comparado à mudança vista na política externa da Ucrânia após o encontro de Trump com Zelensky. Esta análise foi tema do programa “Observatório de Geopolítica”, transmitido ao vivo no canal TV GGN na última terça-feira, 10 de novembro, contando com o especialista em África do Sul, Anselmo Motávio, e o diplomata de carreira do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, João Bimbato, que atua em Pretória. A apresentação foi de Natália Fingermann, professora de Relações Internacionais da ESPM.
Segundo os analistas, o encontro entre o presidente Cyril Ramaphosa e Donald Trump na Casa Branca foi marcado por uma postura bélica por parte do líder americano, que utilizou notícias falsas para basear sua argumentação. Trump alegou que a África do Sul realizava perseguição aos fazendeiros afrikaners de origem branca, chegando a mostrar fotos falsas, referentes a outro país africano, para justificar a necessidade de ajuda do governo norte-americano. Essa tática levou a África do Sul a sofrer um certo “bullying” de Trump, similar ao que ocorreu com o Brasil e a Índia, manifestado pela aplicação de tarifas mais altas ou pelo uso de fake news. Curiosamente, embora Trump tivesse fechado fronteiras para muitos imigrantes, ele optou por abri-las especificamente para os afrikaners brancos.
Uma das consequências mais drásticas da política de Trump foi a decisão de cortar toda a ajuda humanitária para a África do Sul, o que resultou no fechamento da principal agência de cooperação dos Estados Unidos e inviabilizou muitos programas. A África do Sul dependia crucialmente desses recursos (via USAID) para o combate ao HIV/AIDS, sendo o país com o maior número absoluto de casos da doença. A retirada dos Estados Unidos gerou um vácuo imenso de poder e cooperação no cenário sul-africano.
Em resposta, a África do Sul reafirmou sua política de não alinhamento ativo e buscou um equilíbrio pragmático para preservar sua autonomia estratégica, procurando ativamente novos parceiros como China, Índia, Turquia e Rússia. Apesar das tensões diplomáticas e cortes, os laços econômicos com os EUA permanecem fortes, com cerca de 600 empresas norte-americanas operando no país, gerando 220 mil empregos, e os investimentos dos EUA correspondendo a aproximadamente 10% do PIB sul-africano.
A desestabilização nas relações com os Estados Unidos se intensificou “muito” devido ao posicionamento de Pretória em relação à questão de Israel e Gaza. A tensão escalou após a África do Sul entrar com uma acusação contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça (CIJ) no final de 2023. Essa ação gerou fricções internas com a Aliança Democrática (DA), o segundo maior partido, que possui uma orientação mais pró-Ocidental. No entanto, a DA precisou moderar seu ativismo internacional e “tirar um pouco o pé” do debate, pois a população sul-africana majoritariamente negra, apoiadora do ANC (Congresso Nacional Africano), e a grande população de fé muçulmana apoiavam o posicionamento do governo, seguindo o princípio histórico do ANC de que a África do Sul nunca seria livre enquanto a Palestina não fosse.
Em contraste com a postura americana, a África do Sul aprofundou sua parceria estratégica com o Brasil, estabelecida desde 2010. O Brasil é visto como um “país irmão” que oferece cooperação de maneira respeitosa, sem partir de uma posição de potência colonial ou de superioridade, buscando a reforma de um sistema internacional que ficou “seletivamente congelado no tempo” desde a Segunda Guerra Mundial. Essa relação mútua se manifesta em fóruns como o BRICS, o G20 e o IBAS, onde Brasil e África do Sul atuam como like-minded countries, apoiando-se mutuamente em agendas do Sul Global. A África do Sul demonstrou grande admiração pela democracia brasileira e pelo soft power do presidente Lula ao promover o diálogo, chegando a se inspirar nesse modelo para a formação do inédito Governo de Unidade Nacional (GNU) após as eleições de 2024, quando o ANC perdeu a maioria parlamentar.
Assista ao programa completo abaixo:
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Fábio de Oliveira Ribeiro
13 de novembro de 2025 9:50 amIsso talvez explique o aumento da pressão dos EUA sobre a Venezuela, mas é impossível saber qual dos dois cenários (Venezuela ou Zangezur Corridor) é o objetivo principal e qual o artifício para desviar a atenção mundial.
https://youtu.be/wzfobSGjpAw?si=it0lBIxGtspSTqea