A CNN e o anacronismo dos grupos midiáticos familiares nacionais

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A mídia brasileira nunca primou pela inovação, especialmente na área de recursos humanos e de modelos de cobertura. A última grande inovação jornalística da Rede Globo foi o Jornal Nacional e o Fantástico, ambos do início dos anos 70, implantados pelos especialistas que vieram com o acordo com a Time-Life. Depois, a aventura solitária do Globo Repórter, graças ao enorme talento de Caco Barcelos.

Na mídia brasileira em geral, desde os anos 90, o perfil do jornalista – especialmente nas estruturas de comando – é a do sargentão, capaz de enquadrar os repórteres aos comandos do aquário. Nas sucursais dos grandes veículos, especialmente em Brasília, se tornaram comuns os casos de assédio moral, sem que qualquer reação por parte da direção.

Os períodos impeachment-Collor e da guerra cultural do período 2005-2018, além disso, consagraram perfis parecidos de repórteres, o sujeito sem escrúpulos, individualista até a medula, capaz de gerar factoides e atropelar colegas, implacável no atendimento das demandas do aquário. Não me refiro ao conjunto de jornalistas, mas ao perfil mais valorizado pelas respectivas direções, nas distorções que marcaram a fase do jornalismo de esgoto.

Com isso, jogou-se para segundo plano os valores intrínsecos do bom jornalismo: a capacidade de apuração e contextualização dos fatos, o discernimento na apresentação das notícias. Sem critérios claros, a meritocracia foi para o espaço e instalou-se o vale-tudo. 

Nesse período, na banda moderna da economia houve notável avanço nas políticas de recursos humanos e das formas internas de trabalho. Passou a se valorizar o bom ambiente interno e a interação de cada funcionário com a equipe, especialmente depois que avançou o conceito do trabalho inter departamental. As chefias passaram a ser avaliadas também por sua capacidade de identificar e explorar os talentos genuínos da sua equipe.

Enquanto isto, o jornalismo pátrio continuava em seu modelo verticalizado, sufocando as melhores vocações, consagrando o oportunismo opinativo e a setorização da notícia.

E aí entro em um outro tema interessante que são os setoristas de Brasilia – provavelmente o último local que manteve a figura do jornalista setorista.

Desde sempre, me surpreendia o nível de conhecimento dos setoristas. O setorista do Banco Central ou da Fazenda entendia as nuances das contas públicas, do orçamento, os setoristas do Congresso conheciam profundamente as tendências e idiossincrasias de cada partido ou parlamentar, mas esse conhecimento era sufocado pela falta de uma visão sistêmica, uma análise que juntasse os diversos conhecimentos em um todo lógico. Na mídia tradicional, as informações saem de forma isolada, sem passar para o leitor suas consequências.

Faço essa longa introdução para mostrar como o anacronismo das empresas midiáticas levou  ao sub aproveitamento do potencial do mercado de jornalismo brasileiro e explica porque, com menos de um ano, a CNN se tornou o veículo preferencial dos segmentos A e B do público.

O primeiro ponto foi a concepção de cobertura jornalística. Não mais o mero jornalismo de fatos ou de intrigas, mas a contextualização.  Ou seja, envolver setoristas de várias áreas em torno de uma mesma pauta, com âncoras fazendo a mediação e extraindo informações e montando correlações que ajudam a compreender o todo. Não interessa a notícia solta, mas a notícia contextualizada.

Há uma diferença acachapante com seu maior competidor, a Globonews. Em ambos os casos, há programas juntando vários colunistas discutindo os casos do dia. Enquanto na CNN as discussões ajudam a desbravar temas objetivos, na Globonews há um toró de opiniões – algumas de bom nível, a maioria meramente de senso comum. E não faltam bons jornalistas na Globonews. Mas o modelo de cobertura não permite extrair o melhor deles.

Esse modelo só será bem sucedido com algumas pré-condições.

Primeiro, a identificação de jornalistas dotados de valores genuinamente jornalísticos, capazes de assimilar a metodologia de cobertura. Na CNN, houve uma seleção bastante competente do pessoal da linha de frente da cobertura. 

Segundo, o critério de caráter. O que escrevo aqui é de orelhada, analisando de fora. Mas, entre os mais experientes contratados pela emissora, há uma bem-vinda coincidência  de jornalistas conhecidos não apenas pela competência, mas pelo bom caráter. Pode ser efeito do bom discernimento individual dos organizadores. Mas, provavelmente, faz parte da metodologia das modernas empresas jornalísticas. A informação de que a CNN acionou um departamento de compliance para avaliar acusações de racismo contra a repórter Basília Rodrigues mostra que há uma metodologia por trás da política de RH.

Terceiro, a capacidade de cada jornalista de interagir com seus colegas. Intuo isso assistindo o  canal no seu início, com um certo exagero nos elogios recíprocos, deixando claro que um bom relacionamento conta pontos.

Obviamente, ainda há um longo caminho para aprimorar a cobertura interna. Na economia, repete-se o vício de reduzir o país à mera visão de mercado, deixando de lado a economia real e a enorme riqueza das visões setoriais e regionais. Há igualmente uma enorme dificuldade em escapar da visão primária do controle do déficit, deixando de explorar uma riquíssima discussão que está tomando conta dos principais centros acadêmicos, de revisão dos dogmas econômicos nas últimas décadas. Mesmo nas matérias gerais e políticas, por enquanto há excesso de Brasilia e de Vila Olímpia e carência de país. 

Mas é questão de tempo para haver um alinhamento, mesmo porque os ventos da opinião pública apontam para outros pontos de interesse.

De qualquer modo, a diferença entre a CNN e concorrentes diretas, como as Organizações Globo, é nítida na seleção de suas estrelas. A CNN foi atrás de Daniela Lima; a Globo preferiu Vera Magalhães. Para um bom entendedor, meio comentário de ambas basta para entender as diferenças.

E tudo isso se dá em um momento em que há um movimento mundial de conglomerização, juntando grupos de m´dia, de entretenimento, empresas de telefonia. Ou seja, os grupos nacionais entram no novo mundo despreparados até em relação a principios modernos de gestão

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