8 de junho de 2026

A sonegação da história da química no Brasil

Por Bruno de Pierro, da Agência Dinheiro Vivo.

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Peças antigas do laboratório do famoso químico alemão Heinrich Caro (1834-1910), como amostras de reagentes, estão guardadas no Instituto de Química da USP há mais de 70 anos, sem receber o reconhecimento, pela comunidade científica, do valor histórico que possuem. Considerado um dos pais da indústria química alemã, e um dos responsáveis pela fundação da BASF, Caro teve os objetos trazidos da Europa em 1934, por seu neto, o também químico Heinrich Rheinboldt (1891-1955), quando este desembarcou no Brasil para criar o Departamento de Química da USP e, a partir daí, inaugurar a pesquisa química no país.

O fato chama a atenção por representar um paradoxo. Rheinboldt sempre foi um pesquisador preocupado com a preservação da história da ciência – e talvez por isso guardasse, cuidadosamente, os materiais do avô. Porém, tais objetos não dispõem de local propício para a exibição. Embora sejam preservados, eles não podem ser vistos pelo público em geral, por exemplo, em um museu, servindo como ilustração não só da história de Caro e seu neto, Rheinboldt, mas também da própria Química e, em particular, a brasileira. Segundo pesquisadores do instituto, a BASF foi questionada sobre se a empresa teria interesse de cuidar do material, mas a resposta foi negativa. 

Em 1934, o químico Heinrich Rheinboldt deixou a Universidade de Bonn, na Alemanha, e mudou-se para o Brasil, junto com outros dois professores alemães. O grupo passaria a integrar a recém criada Universidade de São Paulo, mediante a união das faculdades de Direito, de Medicina, da Escola Politécnica, da Faculdade de Farmácia e Odontologia e da Escola Agrícola.

Até então, a formação de químicos no Brasil era extremamente fraca, voltada para questões pontuais do cotidiano do mercado. Não havia grandes cabeças pensando cientificamente a Química. Logo nos primeiros meses, Rheinboldt empenhou-se, junto com Herbert Stettiner e Heinrich Hauptmann, na criação do Departamento de Química, que culminou, mais tarde, no Instituto de Química da USP.

Rheinboldt morreu em dezembro de 1955, aos 64 anos, deixando um grande legado para a sociedade científica do país. Como relembrou, em artigo de 1993, o professor Paschoal Senise – morto em julho deste ano -, que trabalhou com Rheinboldt na USP, “já em 23 de fevereiro de 1956 realizava-se concorrida solenidade, no auditório da Biblioteca Municipal, promovida por três sociedades, às quais Rheinboldt, direta ou indiretamente, estava ligado”. O químico alemão teve participação ativa e integrou importantes instituições científicas, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Associação Brasileira de Química.

As qualidades de Rheinboldt como pesquisador e professor foram enaltecidas, após o falecimento, mas, principalmente, sua habilidade de lidar com a didática. O professor, segundo constam em artigos históricos, possuía grande capacidade de tornar a ciência atraente para seus alunos, ao colocar no mesmo patamar de importância conteúdo e forma.

De acordo com Senise, as aulas fascinavam os alunos pela clareza cristalina de suas explicações acompanhadas por experiências ilustrativas muito bem planejadas, apresentadas e conduzidas com elegância, “sem esquecer pormenores que poderiam parecer até insignificantes ou supérfluos, mas que na verdade eram fruto de seu raciocínio lógico resultante, por sua vez, de todo um trabalho prévio imaginativo de profunda reflexão”.

E essa facilidade de lidar com as palavras se consolidava na faceta de historiador da ciência, em particular da Química. Rheinboldt achava que tão importante quanto ensinar conceitos abstratos, leis e equações químicas, era também apresentar aos alunos o contexto histórico que original essa ou aquela teoria, articulando com áreas como política e economia. Um perfil hoje pouco encontrado, ainda mais nas ciências ditas exatas.

Mas o que poucos sabem é que Rheinboldt era neto de Heinrich Caro, um dos principais responsáveis pela química industrial do mundo. Caro esteve à frente da pesquisa Chemische Fabrik Dyckerhoff Clemm & Co, que mais tarde se tornou a BASF, para a qual Caro desenvolveu importantes patentes, como o conhecido Ácido de Caro, sendo, portanto, um dos principais responsáveis pelo sucesso da companhia até hoje.

Quando deixou a Alemanha, Rheinboldt não tinha apenas o convite para compor o quadro de professores da USP como fator motivacional. O químico fugia do nazismo, que àquela altura estava em ascensão. Preocupado com a memória da família, Rheinboldt deixou a Europa levando consigo materiais pertencentes ao avô. O espírito de historiador fez com que o neto trouxesse pequenas amostras, reagentes e pequenos recipientes, que nunca foram usados senão para lhe servir como referência histórica e afetiva.

A BASF,que poderia se interessar pelo material – e até providenciar um espaço para a construção de um museu da Química brasileira –, por se tratar de pertences de um de seus fundadores, foi procurada por um dos professores do Instituto de Química, mas a resposta foi negativa.

Rheinboldt sabia da importância do desenvolvimento de uma indústria forte de química pesada no Brasil e, por isso, lutou para consolidar o Departamento de Química da USP, considerado o núcleo da formação da Química brasileira. Mas tinha noção também de que o desenvolvimento da inovação em um país está atrelado ao grau de importância que é dado para a divulgação científica e a História da Ciência. A iniciativa privada e a própria USP devem a Rheinboldt uma explicação.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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