Sobre a atualidade do Arco de Ulisses
por Luiz Henrique Lima Faria
Na Odisseia, epopeia composta há quase três milênios, há um episódio cuja atualidade analítica continua a me impressionar. Após vinte anos de ausência, Ulisses retorna a Ítaca e encontra seu palácio ocupado por homens que disputam a mão de Penélope e, por consequência, o próprio reino. Convencidos de que o antigo rei jamais regressaria, os pretendentes já se julgavam seus legítimos sucessores. Penélope, entretanto, decide submeter essa pretensão a um critério objetivo. Casar-se-á com aquele que conseguir encordoar o arco de Ulisses e fazer uma flecha atravessar os orifícios de doze machados alinhados.
O episódio, recentemente reintroduzido ao grande público pela adaptação cinematográfica de Christopher Nolan, permanece tão atual quanto quando foi narrado por Homero. Nenhum dos pretendentes consegue sequer preparar o arco para o disparo. A prova estabelece uma distinção fundamental entre ocupar uma posição e possuir as competências necessárias para exercê-la. O arco converte-se, assim, em um critério objetivo, indiferente às alianças, às influências políticas e à autoconfiança de quem acredita estar apto a empunhá-lo.
Entendo que a Psicologia Cognitiva oferece uma chave interpretativa particularmente fecunda para esse episódio. Ao investigar os mecanismos da autopercepção, David Dunning demonstrou que a incompetência encerra um paradoxo singular: indivíduos com domínio limitado sobre determinado campo do conhecimento frequentemente não dispõem das habilidades metacognitivas necessárias para reconhecer suas próprias limitações. A ignorância, nesse caso, não se limita à ausência de conhecimento; ela compromete a própria capacidade de perceber essa ausência.
Esse fenômeno, frequentemente descrito como metaignorância e difundido pelo chamado efeito Dunning-Kruger, ajuda a compreender por que a confiança nem sempre acompanha a competência. Paradoxalmente, aqueles menos preparados tendem a manifestar maior convicção acerca de suas capacidades, enquanto os verdadeiramente competentes, precisamente por compreenderem a complexidade da realidade, costumam avaliar suas próprias limitações com muito mais prudência.
Os pretendentes ao trono de Ítaca e à mão de Penélope parecem antecipar, com surpreendente precisão, esse mecanismo psicológico. Em nenhum momento lhes ocorre questionar se possuem as competências necessárias para encordoar o arco de Ulisses. A convicção de que eram sucessores legítimos parece bastar como evidência de que estavam aptos a ocupar seu lugar.
Homero sugere, assim, uma distinção fundamental. Autoconfiança e competência não são equivalentes. O fracasso dos pretendentes demonstra que a realidade permanece indiferente tanto às percepções que construímos sobre nós mesmos quanto ao reconhecimento que grupos e alianças conferem às nossas pretensões. Cedo ou tarde, ela impõe critérios objetivos diante dos quais a convicção cede lugar à competência efetivamente necessária.
Nesse sentido, percebo que o problema assume uma dimensão ainda mais estrutural quando deixa de ser individual e passa a organizar as próprias instituições. A teoria política emprega o conceito de caquistocracia para designar sistemas em que a escolha dos dirigentes deixa de responder às exigências da função e passa a privilegiar relações de lealdade, conveniência e pertencimento a determinados grupos, reproduzindo sobretudo os interesses daqueles que já detêm o poder.
É precisamente por isso que o arco de Ulisses adquire um significado que transcende a própria narrativa homérica. Em meio às disputas por poder e legitimidade, ele permanece como um critério objetivo diante do qual as pretensões humanas perdem relevância.
O arco permanece indiferente às alianças, às aclamações e à ocupação circunstancial do poder. Sua força simbólica reside justamente em submeter todos ao mesmo critério, tornando irrelevantes as influências políticas e as convicções que cada um alimenta sobre si mesmo. Diante dele, as narrativas perdem a capacidade de sustentar aquilo que apenas a competência pode legitimar.
Sociedades e organizações começam a degradar-se quando deixam de distinguir confiança de competência, autoridade de capacidade e conveniência política de mérito efetivo. Quando a metaignorância impede indivíduos de reconhecerem seus próprios limites e a caquistocracia converte essa limitação em critério para a ocupação do poder, o problema deixa de ser apenas psicossocial. Ele assume uma dimensão institucional, comprometendo a qualidade das decisões, a legitimidade das lideranças e a capacidade coletiva de responder aos desafios de seu tempo.
Reside justamente aí a extraordinária permanência do arco de Ulisses. Indiferente às narrativas, às alianças e às formas pelas quais os indivíduos procuram justificar o poder que exercem, ele permanece submetido a um único critério. Diante dele, a realidade revela uma verdade tão antiga quanto atual: nenhum compadrio e nenhuma autoconfiança são capazes de substituir a competência quando a realidade finalmente a exige.
Luiz Henrique Lima Faria – Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) e Editor-Chefe da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (RINTERPAP).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário