Os muitos caminhos da moral política, por Andre Araujo

Por Andre Araujo

A política não é ciência e nem técnica, é a arte da organização do poder. Não se confunde com moral, ética ou religião. Quando essas categorias se misturam com política o resultado é geralmente desastroso. Pede-se à política apenas eficiência nos fins. O melhor político é aquele que melhor organiza o poder, com maiores benefícios e menores custos à população.

Nessa análise de custos e benefícios, a moral ou a ausência dela é um fator e não um valor absoluto. Mais vale um político sem moral que traga benefícios do que um político ético e incompetente. A ética não tem valoração na política, a eficiência nos fins é o balanço final, aí entendido fins como benefícios aos governados. 

A História, grande mestra, registra os grandes políticos que praticamente sem exceção são indivíduos moralmente contraditórios, complexos, duvidosos, aventureiros ou até canalhas. Para ficar apenas na Era Contemporânea, Napoleão tinha imensos pecados que seus contemporâneos registraram em toda sua extensão e profundidade, mas seu legado foi de tal magnitude que o personagem se mitificou pelos seus feitos. 

Seu ministro e contemporâneo Talleyrand era a personificação do mau caráter, corrupto, viciado, sem escrúpulo algum, mas foi ele quem garantiu à França sair como vitoriosa depois de uma gigantesca derrota militar, ao invés de ser terra vencida e ocupada a França sai do Congresso de Viena com um dos poderes da Europa reorganizada e assim chegou à Conferência de Versalles, 104 anos depois. 

A arte da política é uma elevação de princípios frente à luta ancestral pelo poder. Nas espécies animais o chefe do bando conquista seu poder matando os rivais. Na história antiga o poder será geralmente consolidado pelo assassinato dos vencidos.  A arte da política visou dar uma certa ordem e civilidade na conquista do poder, diminuir os danos da luta, a política é nada mais do que isso, não vai além disso mesmo na democracia, que é a luta pelo poder com regras mais elevadas, mas ainda muito longe da perfeição dos princípios éticos. 

Lloyd George, o primeiro ministro britânico mais poderoso antes de Churchill, liderou a Inglaterra na Grande Guerra, conviveu toda a vida com acusações de baixa moral, em 1922 foi acusado de vender títulos de cavaleiro e nobreza, também foi acusado de especular com ações da companhia Marconi Wireless antes de dar a ela um grande contrato com o Governo. Admirava Hitler mesmo quando Churchill já alertava a Inglaterra contra o ditador alemão. Lloyd George era um sujeito muito controvertido,  advogado esperto daqueles que não se compra um carro usado, mas suas realizações foram tantas que é considerado da mesma estatura política de Churchill, se este ganhou a Segunda Guerra, Lloyd George ganhou a Primeira, tanto um como outro foram maus Ministros da Fazenda mas grandes estadistas do Império. 

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Churchill, um dos maiores políticos do Século XX, teve uma longa vida de mais de 90 anos permeada de altos e baixos, aventuras, comportamentos condenáveis em todos os campos, da bebida às manobras para obter dinheiro, Churchill não tinha uma fonte de renda definida quando estava fora do poder, era um cavador de “ajudas” financeiras de amigos e interessados nos seus serviços junto ao poder. Era um gênio político, mas não tinha convicções rígidas em nada. Foi até 1935 admirador de Mussolini, não achava ruim o fascismo e considerava Gandhi um faquir desprezível.

Sua ausência de escrúpulos morais ficou clara em uma de suas 300 biografias. “The Private Life of Winston Churchill”, de John Pearson, editora Simon & Schuster, mostra os imensos rolos da vida complicada de Churchill, como quando em 1957 aceitou convite para um cruzeiro no Mediterrâneo no iate “Cristina” de Aristóteles Onassis, cuja ficha pessoal era então pesadíssima. Confrontado pela imprensa, por que aceitou o convite de um finório como Onassis, respondeu “Mas ele me dá o melhor champagne e o melhor caviar e isso me basta”. 

Nos EUA Lyndon Johnson ostenta uma biografia que faria corar corrupto brasileiro. Operou a vida toda para a grande empreiteira Brown & Root (hoje HBR), que lhe pagava as campanhas e o deixou milionário. A Brown & Root tinha praticamente o monopólio de construção de bases militares americanas, a mistura entre Johnson e a B & R era tal que não se sabia onde acabava um e começava a outra. A trama dessas transações pode ser lida na enorme biografia de Lyndon Johnson por Robert Caro, lembrando que Johnson era do Texas, um Estado notoriamente corrupto até as entranhas.

Mas Lyndon Johnson foi um dos maiores presidentes americanos. Sob sua presidência avançaram enormemente as leis anti-racismo e as leis que incorporaram os negros ao mainstream da sociedade americana. Cafajeste e desbocado, Johnson recebia deputados sentado na privada, falava por palavrões, o mais politicamente incorreto presidente americano do Século XX.  

Em nossa terra Adhemar de Barros teve fama de político pouco honesto mas deixou um solido legado de obras e realizações, já com fama de ladrão foi eleito novamente para Prefeito e Governador, a despeito de diária campanha de desmoralização pela imprensa paulista, especialmente do ESTADÃO que sequer citava seu nome (era o sr. A.de Barros).

Qual o cálculo da população? Era a relação custo-benefício “rouba mas faz”, é melhor ele que um inútil honesto. Esse cálculo continua até hoje em grande parte da população.

Seu antípoda Jânio Quadros tampouco era santo, seu lema fosse a vassoura simbolizando a limpeza, tinha outro estilo, muito diferente de Adhemar, ficou rico nos governos com outra modalidade de operar com dinheiro na política. Seu método era arrecadar pessoalmente para campanha, não gastava nada e ficava com a arrecadação. Legou considerável fortuna para a única filha, simbolizada em uma sólida conta no Citibank de Genebra e mais de 60 imóveis. 

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O grande perigo na política são os que carregam a bandeira do moralismo, os politicamente corretos. Porque na política essa bandeira costuma ser apenas uma capa para ambições de poder. Sob essas bandeiras tornam-se inquisidores e ditadores, ditam regras a todos, a luta contra a corrupção tudo justifica, quem é contra sua cruzada é porque é a favor da corrupção.

Da mesma forma que o senador McCarthy rezava que quem era contra ele é porque era comunista. Aqueles que se agigantam carregando o galardão das cruzadas moralistas, se constituem em grandes riscos na política, porque operam com valores absolutos enquanto a política é o campo das relatividades, a política exige um eterno balanço entre e ruim e o menos ruim porque o bom puro é um objetivo quimérico dada a natureza falha dos homens e mais ainda dos homens no poder. 

Os grandes homens da política em todos os tempos são personalidades cheias de defeitos, inclusive de caráter, sempre foi assim através dos séculos. A busca do poder é uma luta terrível e nesse campo de batalha o lutador não é guiado por valores da vida beata. Os homens bons e de maior pureza de alma serão encontrados nos conventos, nas obras a favor da caridade e da bondade, na elevação do espírito dos profetas e santos, mas nunca na política, através dos tempos um campo pedregoso onde abundam os pecados da ambição, da vaidade, da volúpia do poder, assim foi desde a inicio da História dos homens.  

A questão da corrupção de máquina e não de pessoas foi algumas poucas vezes historicamente objeto de cruzadas direcionadas, foi o caso “Tammany Hall” a poderosa confraria que dominava a política municipal e estadual de Nova York, basicamente operada por aventureiros de origem irlandesa, extraordinariamente corrupta, enfrentada pelo prefeito Fiorello La Guardia no governo Roosevelt, depois de dominar Nova York por 80 anos, de 1854 a 1934.

A máquina Huey Long na Luisiana, também demolida na mesma época. Subsiste, todavia, a máquina da família Dailey que domina a política de Chicago há mais de 70 anos e foi decisiva para a eleição de Kennedy e de Obama e lá continua até hoje na tradição das oligarquias que em nada ficam a dever ao nosso coronelismo clássico da enxada e voto.   

Não há boas almas na política, a não ser os falsos, os fariseus, esses são muito piores do que os malandros que pelo menos costumam ser simpáticos. Os santarrões são o grande perigo, atrás da água benta vem o veneno da intolerância, da vingança e da violência sob a capa da justiça, as bandeiras dos pios que trazem atrás de si as fogueiras armadas da inquisição. 

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A despeito da sua malignidade intrínseca, a corrupção está longe de ser o mal maior da política. A incompetência e o excesso de burocracia podem causar muito mais prejuízos que a corrupção em si. Esta jamais será completamente eliminada. mas pode ser controlada sem que, todavia, o custo do controle supere o valor da corrupção. Não há sentido em se gerar custos de 1.000 para controlar uma corrupção de 10. No limite, o excesso de controle se transforma em um custo burocrático altíssimo, muitas vezes superior ao risco da corrupção. 

Há também outra corrupção além daquela da propina, a corrupção indireta do nepotismo, do empreguismo, do funcionário que recebe salário sem trabalhar ou, a corrupção gigantesca dos supersalários, daqueles que valem 10 no mercado e ganham 50 no serviço público, a corrupção das aposentadorias infladas e precoces, todas essas esquecidas nas cruzadas anti-corrupção movidas por alguns que estão apenas interessados em desmanchar propinas. 

A disjuntiva nas cruzadas anti-corrupção são a relação custo-bneficio, tal qual em cruzadas sobre outros tipos de desvios, como cruzadas contra as drogas. A partir de um certo ponto as cruzadas se tornam contra-producentes. No caso da corrupção, o excesso de risco de punição fará com que os agentes públicos, por humana prudência, deixam de aprovar projetos virtuosos por meio de que poderiam ser visto como pro-empresas e para se proteger travam as aprovações.

Os bem pensantes dirão, mas se não há problema na aprovação porque dificulta-la?  E aí é que está o risco, o funcionário não tem segurança de que o que faz seja visto como legítimo, em um clima de caça às bruxas ele se julga inseguro e na dúvida passa a dificultar ao máximo a vida das empresas. O fiscal autua mesmo em casos onde não cabe autuação, o comprador da estatal adia as compras.

Todo processo de controle tem custo e esse custo não é neutro, no limite o País pode parar completamente no meio de uma campanha de terror cívico-ético-moralista. Melhor do que cruzadas são sistems de controle institucional como por exemplo a instalação de uma Controladoria em cada Ministério, empresa estatal e institutos e fundações, ligadas a uma Controladoria Central e não ao Ministro da pasta.

Esse sistema capilar construído em cima de uma teia de mecanismos de controle teria muito maior eficiência do que prender e punir ao infinito, atos que cuidam da vingança do passado e não da visão do futuro.

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30 comentários

  1. Todos querem sua casquinha na fama e no poder

    Quando a única ferramenta que você possui é o martelo, todos os problemas são prego.

    Quem sobe e desce os homens na vida é a Fortuna, querer substituí-la por estragemas humanos nunca dá certo.

    Como tornar os homens sábios e fazê-los acreditar que ter demasiados desejos é pior do que ser invejoso é o grande mistério. tá no Tao, 3 nascem amigos da vida, 3 nascem amigos da morte, 3 são indiferentes à morte e 1 é sábio. Não é tarefa fácil, o que talvez explique a vinculação de uns ao totalitarismo.

    Explicar o pode e sua origem para governar os homens é tarefa antiga.

    Sus dos estelas (a las cuales se refieren los expertos como H 2 A y H2B) están adornadas en su parte superior con una representación en la que el rey sostiene un extraño báculo y está delante de los símbolos de tres cuerpos celestes, los Dioses planetarios a los que él veneraba (Fig. 92).

    La larga inscripción que hay debajo comienza directamente con el gran milagro y su singularidad:

    Éste es el gran milagro de Sin 
    que por Dioses y Diosas 
    no ha tenido lugar en el país, 
    desde días ignotos; 
    que la gente del País 
    no ha visto ni ha encontrado escrito 
    en las tablillas desde los días de antiguo: 
    que el divino Sin, 
    Señor de Dioses y Diosas, 
    viviendo en los cielos, 
    ha bajado de los cielos 
    a plena vista de Nabuna’id, 
    rey de Babilonia.

    No resulta injustificada la afirmación de que éste fuera un milagro singular, pues el acontecimiento suponía tanto el regreso de una deidad como una teofanía, dos aspectos de interacción divina con humanos que, como la inscripción prudentemente califica, no era desconocido en los Días de Antiguo.

  2. Estou na casa dos 40 e moro

    Estou na casa dos 40 e moro em SP. Portanto, pra minha geração a personificação do político que rouba-mas-faz é Maluf. (apertando a tecla IRONIA rs ) Bons tempos em que havia esse político, pois hoje o que há é o político que rouba e não faz e até desfaz  (rsss).

    André, só uma questão. É inegável que um político como Maluf (nunca votei nele) fez obras fundamentais em SP e em cima delas roubou muito. Mas, no caso do Maluf, o que acontecia é que depois que ele sai do governo,deixava o próximo governante  com o cofre quebrado; aí o governante da vez fica sem dinheiro e na hora em que a grana fica curta, se ferram os de sempre =a população periférica, que mais depende de saúde e escola pública. Então acho que essa conta também tem que ser feita para ver se a trajetória de um político deixou saldo negativo ou positivo.

    A impressão é que a relação roubo-obras fundamentais feitas não é favorável pro país (rs). 

    E se há alguma coisa que nunca houve no Brasil foram políticos ou políticas pra realmente diminuir de verdade a desigualdade social do país, o maior câncer de um país e que no Brasil nunca foi atacada pra valer. 

    No mais, concordo em tudo com o que você escreveu. Aliás, há 500 anos Maquiável deixou bem claro que quem faz política sabe que não vai pro céu ( né, Cunha ? rssss )

     

     

  3. Excelente análise.

    Até Lincon, que tinha fama de honesto, operou um mesalãozinho  para aprovar a abolição da escravidão. Não precisa ler a biografia. Tá no filme. ” Aby honesto”  tava muito longe de ser santo. Mas era um craque da politica.

  4. uma historia que vivenciei

    Alguns anos atras trabalhei numa multinacional europeia com varias empresas no Brasil.

    Meu cargo era assessorar o controler corporativo ( um expatriado). Um dia um colega me confidenciou que um gerente financeiro estava desviando recursos. 

    Passei varios dias para entender como isso poderia ocorrer, afinal as empresas tinham bons controles internos.

    Depois informei o controller do ocorrido. No dia seguinte, sem alarde, sem escandalo, fomos visitar o gerente e começamos uma auditoria.

    O gerente pediu demissão no mesmo dia, continuamos nossa auditoria, informamos a matriz.

    Tudo resolvido. Sem escandalo, sem factoides, sem politquice.

    Deveria ser assim que a lava jato deveria estar agindo.

    O Brasil agradeceria .

     

     

     

     

  5. Questão básica!

    Melhor do que cruzadas são sistems de controle institucional como por exemplo a instalação de uma Controladoria em cada Ministério, empresa estatal e institutos e fundações, ligadas a uma Controladoria Central e não ao Ministro da pasta.

    Andy só uma pergunta: Quem controla o controlador?

    A Gestapo?

    • No final ninguem controla, o

      No final ninguem controla, o unico modelo menos ruim é um sistema de pesos e contra-pesos, uma Conttroladoria

      Geral com braços em cada Ministerio tem maior chance de funcionar mas nunca será a solução perfeita.

  6. Considero que, finalmente,

    Considero que, finalmente, estamos a passos céleres rumo à maturidade política. Claro, foi preciso que todo um ciclo se completasse, as máscaras caíssem, as ilusões fossem perdidas, os ídolos mostrassem seus pés de barro, a fim de percebermos o valor e a arte de saber governar. Passamos anos metendo o cacete nos ladrões contumazes da nação, nos coronéis, nos caudilhos, nos oligarcas, em moralismo sem fim – ainda hoje fazemos – sem aprendermos realmente o que vem a ser essa maneira que o ser humano inventou de administrar o caos, que é a política. O saber contemporizar, o saber compor, o saber negociar, o saber exercer pressão, o saber engabelar, o saber administrar as expectativas, fazendo tudo isso de maneira a que a população se sinta segura em apoiar, geralmente quando a situaçao econõmica lhe é favorável, ou quando as perdas possam ser minimizadas ao máximo.

    E agora? Creio que a conversa vai ser entre adultos… sabedores que somos que todos roubam, mentem, são safados até não mais poder; se assim não fazem, políticos não são. Mas, como diria o Frank Underwood (House of Cards) em livre interpretação: aquele  se vende  por uns poucos merreis (comissãozinha aqui, sitiozinho ali…) tem existência efêmera. São facilmente indentificáveis e “pegáveis”… aquele que almeja o poder, de fato, não se suja com essas coisas menores. Faz com que os outros se sujem e assim os tem na mão (esse era o exemplo do Eduardo Cunha; se ferrou por causa de grana). Na realidade, desprezam esses ladroezinhos de 5ª catiguria, consdierando-os uns fracos. À vista da situação atual do Páis, creio que boa parte de nossos políticos são uns merdinhas, minúsculos, imbecis caricatos.

    Agora, talvez, tenhamos experiência para distinguir entre essa reles gentinha  e aqueles que merecem realmente brigar pelos nossos votos, sem que tenhamos esses pruridos moralistas que crescemos ouvindo, principlamente da esquerda que se paresnetava como a guardiã da moral e dos bons costumes. Esse discurso “camisa de força” se rompeu e agora nosso  julamento será o mais uitlitário  possível. É experto (rouba sem deixar rastros…), é administrador eficiente(rouba, mas faz…)?  Hummm, tem boa chance de ser eleito…

     

     

     

     

     

     

  7. Concordo com seu ponto de

    Concordo com seu ponto de vista, principalmente sobre o ponto de vista ético e moral. Porém, é um paradigma que requer mudança, sob pena de ficarmos nessa “roda viva” da história, nesse atraso de consciência. Sejamos pragmáticos, mas não deixemos de sonhar com utopias. 

     

  8. A política e a moral

    Política e moral são categorias distintas e incompatíveis. Não apenas a moral é incapaz de pautar a política, como o oposto também é verdadeiro – já dizia Luther King, não se pode legislar sobre moral. Quanto a isso não há dúvida, e você apenas repete o óbvio. O problema começa quando você tenta sub-repticiamente utilizá-lo como argumento para justificar a imoralidade na política.

    Não faltam exemplos de homens públicos que foram ao mesmo tempo éticos e incompetentes na política, como Ruy Barbosa, lembrado por seu desastroso desempenho como ministro da fazenda do primeiro gabinete republicano, bem como figuras que brandiram elevados ideais apenas para escamotear intenções profundamente antiéticas – Adolf Hitler é o exemplo mais extremo. Políticos são imorais porque eles são seres humanos, iguais a mim e a você, com seus erros e fraquezas, mas que por uma conjunção de fatores, seja pelo direcionamento que deram a suas carreiras, seja por estarem no lugar certo na hora certa, puderam tomar ações que alteraram o rumo da História e beneficiaram determinados grupos que os lhes emprestaram apoio. Mais tarde os historiadores, ocupados apenas com o alcance histórico de seus atos, esqueceram as falhas morais desses indivíduos em suas vidas privadas e perpetuaram apenas aquilo que eles fizeram como atores políticos. Mas ainda que esses políticos tenham agido de forma imoral, o julgamento moral que pesa sobre eles não é anulado – lembrando o que já apontei, não se pode legislar sobre moral. E se os atos desses indivíduos estão inexoravelmente presos ao contexto político do momento, e no mais geral, à extensão de suas vidas, por outro lado a moral transcende as gerações, e em seu sentido mais geral não se prende a contextos de época – a moral cristã, por exemplo, tem dois mil anos. Ainda que nenhum indivíduo vivo siga integralmente os preceitos morais, estes permanecem como referência e parâmetro de avaliação. O resultado é que, se política e moral entram em conflito, no fim a moral sempre prevalesce, ainda que a cabo de muitos anos.

    Entre Churchill e Hitler, prevalesceu Churchill, e ninguém duvida que Churchill era menos imoral do que Hitler. Entre Stalin e McCarthy, prevalesceu McCarthy, e ninguém duvida que McCarthy era menos imoral do que Stalin. Os métodos dos Robber Barons eram aceitáveis no século 19, mas são inaceitáveis hoje. Penso então que se você invoca o argumento da amoralidade da política para justificar procedimentos imorais do presente, você está apostando suas fichas em um cavalo que um dia, fatalmente, será derrotado. E no Brasil atual, é possível que esse cavalo em quem você aposta suas fichas já esteja derrotado.

    • Moral? Que moral, parece que não leu o Andy!

      ninguém duvida que McCarthy era menos imoral do que Stalin

      Ninguem quem?

      O oportunista McCarthy venceu a 2ª Guerra Mundial? Foi decisivo para isso?

      Stalin tinha motivos de Estado. 

      Obvio não era santo, nem esta na lista dos canonizaveis.

      Mas comparar Stalin e McCarthy é comparar alguem que para o bem ou para o mal foi um dos grandes líderes do século XX com alguém que sera relegado ao rodapé da História!

       

      • O julgamento muda com o tempo

        Em seu tempo, Stalin, assim como Hitler, foi considerado um grande herói e teve multidões de entusiastas apoiadores. Mas hoje em dia a imagem de Stalin é tão negativa que mesmo os marxistas procuram desvencilhar-se dela – você deve ser um dos últimos que ainda o enaltece.

        McCarthy morreu como uma criatura desperezível, e anos depois seu julgamento não mudou – ele permanece como uma criatura desprezível, mas não é um monstro como Stalin. Isso ilustra o que eu afirmei: quando política e moral entram em rota de colisão, no fim a moral sempre vence. O mundo atual pode comportar pequenos canalhas com o McCarthy, mas personagens sinistros como um Stalin ou um Hitler não são mais cabíveis.

    • MC carthy prevaleceu onde?

      MC carthy prevaleceu onde? Foi um canalha, desmascarado no fim da cruzada anti-comunista, morreu de bebedeira, um crapula, Stalin morreu de morte natural, reverenciado e idolatrado.

      • Comparando Stalin e McCarthy

        Stalin morreu idolatrado e McCarthy morreu desprezado. Mas atualmente Stalin é considerado um monstro, enquanto McCarthy continua sendo considerado apenas um ser desprezível. Isso ilustra o que eu afirmei: quando política e moral entram em rota de colisão, no final, mesmo que leve muitos anos e todos os protagonistas já estejam mortos, a moral prevalece. Aquele que foi idolatrado recebe o justo julgamento da opinião pública, e não mais serve de exemplo a ser imitado.

        Para os coadjuvantes do processo histórico, o risco é errar o “timing” dessa disputa entre moral e política. Apostar da moral quando o que vale mesmo é o pragmatismo pode ser fatal. Mas a recíproca também é verdadeira: quem aposta em táticas e expedientes que já não são tolerados pelos costumes políticos do tempo presente tem o mesmo destino.

  9. bandidos úteis X inúteis bandidos

    Desde que uma nação tenha os meios de canalizar os prodígios de um politico bandido para os interesses de seu povo e de sua soberania estariamos num processo virtuoso. Nossos bandidos saqueiam o povo  e a nação em beneficio de uma pequena plutocracia, processo caótico. 

  10. São com estes questionamentos

    São com estes questionamentos que mudaremos o mundo,uma sociedade melhor para todos !!!

    OBRIGADO ANDRÉ ARAÚJO !!!!

  11. Ótima análise

    André, parabens pelo o artigo e pela coragem de em tempos de fanatismos ter a coragem de remar contra a maré e dizer umas verdades, um choque sobre a realidade da natureza humana não faz mal a ninquém, enfim, é preciso que fique claro que o poder não é dado por Deus ou deve ser dado aqueles que se acham os escolhidos virtuosos de Deus, o poder é conquistado ou adquirido por meros homens mortais e será exercido de acordo com o juizo e astúcia deste homem, cujas conseguencias dos seus atos, bons ou maus, repercutirá na vida de milhares ou milhões de pessoas.

  12. Belo texto Sr.André, como

    Belo texto Sr.André, como outros já publicados, que nos leva a discussão de qual projeto de País que desejamos para o Brasil. Textos que são o contrário do que é pregado por parcela das elites brasileiras (aqui considero elites políticas, econômicas, intelectuais – à direita e à esquerda -, alguns que fazem parte da tecnoburocracia estatal, dentre outros. Incrivel como o chamado complexo de vira latas paira sobre o pensamentos dessas pessoas, e lastimável. Realmente, o Brasil e seu povo são muito maiores que suas elites (parte melhor dizendo) não evoluiram na forma de pensar. E aqui não poupo ninguem, seja de direita ou de esquerda. 

  13. Dúvida

    André, seguindo esse raciocínio, você acredita que teria sido melhor para o país a Dilma ter fechado o acordo proposto pelo Eduardo Cunha no final do ano passado para salvar sua cassação em troca do engavetamento do pedido de impeachment? Ou isso era irrelevante e a instalação do impeachment seria consumado do mesmo jeito?

    • O alvo deveria ser NÃO ter

      O alvo deveria ser NÃO ter Cunha na presidencia da Camara, para isso Dilma deveria ter feito um acordo com o nucelo duro dos grandes partidos onde não se queria Cunha, jamais lançar o Chinaglia pelo PT, erro fatal que impediu qualquer acordo

      e não tinha nenhuma logica, Chinaglia teve apenas 137 votos, seria possivel perfeitamente barrar Cunha e ter um nome consensual, para isso teria que ter algum articulador na Casa Civil e jamais um Mercadante.

      • Comentário ao post de André Araújo

        André, não penso que haja problema intrinseco algum em se procurar exercer a política pautado na busca da eficiência, na busca do respeito às leis  e colocando os interesses coletivos dos mandatários acima de interesses pessoais. Essa é uma forma ” honesta” de  se exercer a política, é assim que os políticos se apresentam para pedir votos e continuo exercendo esse direito dentro da perspectiva de que existem politicos “honestos” sim, embora a mídia tradicional tente camuflar os corruptos “amigos” e rotular de verdadeiros corruptos os poucos políticos “honestos” que conseguiram manter vivo esse valor mesmo  no exercicio da política real. Não vejo nenhuma relação custo benefício favorável  em se relativizar esses valores em nome de uma “eficiência” absoluta e mal definida. Eduardo Cunha foi muito” eficiente” em financiar e formar uma leal bancada composta,  principalmente,  de “eficientes”  pastores evangélicos (eles foram eficientes ao transformar a fé religiosa em votos…) . Tenho muita dificuldade em encontrar qualquer articulador político que fosse hábil o suficiente para superar essa “eficiência” de Cunha e eleger qualquer outro nome (óbvio, dentro do quadro de partidos da base “aliada” que existia na época) para presidente da câmara. Chance poderia haver se fosse um nome da oposição apoiado pelo PT… Mas isso faria sentido?     

  14. O caminho da morte da democracia real.

    Ao defender que o politico deve ser eficiente, está se defendendo uma moral e uma ética da politica.  Um exemplo claro do texto:”Mais vale um politico sem moral que traga beneficios do que um politco ético e incompetente”. Isso obviamente é um juizo de valor (“Mais vale”), portanto um juizo ético. Entendo que o texto defende que haveria uma moral e uma ética da politica que seria diferente da moral e da ética em outros campos.

    A questão em todo esse debate me parece que é: qual a etica e a moral da politica?. Entendo que o texto defende que a ética da politica seria  a ética da eficiencia. Mas aqui eu vejo um problema: a ética da eficiencia é a mesma ética do mercado. Pelo texto parece que a politica e a democracia são um grande hipermercado em que o mais eficiente “vence”, vende melhor o seu produto  para os ‘consumidores’ – também conhecidos como eleitores ou população.

    Pode ate ser algo “realista”. Mas sejamos “realistas” quanto ao ‘resultado’ da ética de supermercado na politca, Não é a intromissão de qualquer outra ética ou moral que leva a morte da democracia e da politica é a propria ética de supermercado da politica praticada continuamente e sem outros ‘freios morais’. A ética de mercado na politica deve ser compartilhada pela maioria da população que os politicos supostamente representam para que haja uma democracia real. Se a maioria da população deixa de aceitar a ética do mercado na politca, a moral de supermercado na politica só pode se manter com um ‘monopolio’ – em uma ditadura –  ou com a  “propaganda enganosa”- a pura e simples manipulação apolitica, uma democracia de fachada.

    Então fica um dilema ético na poliitca: o que “Mais vale” a “eficiencia” de um ditador como Hitler e Stalin ou uma democracia real ‘ética nas incompetente’ ? A conclusão do texto, me parece, é que “mais vale” a primeiro opção. Mas se defender a segunda é moralismo, sou moralista com muito orgulho e morrei sendo, mesmo em uma ‘ditadura eficiente’.

  15. Tudo certo

    Artigo corajoso no Brasil da hipocrisia e do moralismo sem moral. Como bem apontado no próprio texto, corre o risco de ser apontado como favoravel à corrupçao, já que nao subscreve a cruzada “anti-corrupçao” atual.

    Sempre disse: o pior de 2014 não era nem Dilma nem Aécio, mas Marina.

    E por isso, como a política – à brasileira – não basta, rogo aos Céus: que nunca seja eleita para nada relevante!

    • Finalmente encontrei alguém

      Finalmente encontrei alguém que concorda comigo.

      Era a pior candidata disparada em 2014 e continua sendo agora.

      Entretanto, há muitos brasileiros trouxas que votam nesta nulidade. Este é o perigo. Maior até do que o perigo Temer.

  16. Creio que não devamos

    Creio que não devamos caminhar para uma perspectiva demasiada funcionalista da política. O Brasil republicano tem sido caracterizado por um desapego institucional extremamente deletério aos interesses do país.  Grandes personalidades substituem instituições e, quando precisamos delas, não as temos, pois nos momentos de bonança não houve preocupação com a modernização e a adaptação das mesmas aos novos tempos. O que realmente dói é ver que, em 2016, o Brasil ainda tem um estado nacional por fazer, incapaz de prevenir choques institucionais, e que não não há perspectiva de reforma em leis vitais para o país nem uma reforma institucional verdadeiramente efetiva.

    Considerei o texto muito verdadeiro e conveniente ao momento atual. 

  17. “Há também outra corrupção

    “Há também outra corrupção além daquela da propina, a corrupção indireta do nepotismo, do empreguismo, do funcionário que recebe salário sem trabalhar ou, a corrupção gigantesca dos supersalários, daqueles que valem 10 no mercado e ganham 50 no serviço público, a corrupção das aposentadorias infladas e precoces, todas essas esquecidas nas cruzadas anti-corrupção movidas por alguns que estão apenas interessados em desmanchar propinas. “

    Esta é a do Judiciário de maneira geral.

     

  18. ”Mais vale um político sem

    ”Mais vale um político sem moral que traga benefícios do que um político ético e incompetente.”

     

    A partir deste trecho, podemos analisar o quão maléfico André Araújo não ter se empenhado nas aulas de filosofia e nas leituras mais aprofundadas do tema em questão – a ética. A menos que tenha criado uma nova categoria de pensamento, não nos é plausível vislumbrar um político incompetente que seja ético. Se a boa vontade (Aristóteles) é a volição para o bem comum como prerrogativa da ética, então estaremos assim correndo contra o próprio rabo sem chegar a lugar nenhum.

    Geralmente bom em suas análises, Araújo confunde aqui o leitor com a moral subjetiva associada ao homo politicus.  É chover no molhado apontar os inumeráveis casos de alcova, de cacoetes existenciais, de idiossincrasias dos poderosos, mas associá-los ao ato político é errôneo. Em uma era em que temos ainda o Estado como paradigma da moral objetiva perfeita hegeliana, racional e universal é paradoxal que a subjetividade da ética utilitarista seja destacada como corolário da ética na política e na vida civil em geral.

    O que se deve assinalar aqui é sobre a questão do Estado como força coletiva de indivíduos em prol do bem comum. Hitler, sob o argumento de Araújo, seira um político aceitável, pois trouxe inúmeros benefícios econômicos e sociais aos alemães em um país decadente pós primeira Guerra, evidente em contrapartida foi nefasto para os não-alemães. Prosseguindo no subjetivo, há algo a se falar de Hitler no campo pessoal? Ele era amador neste quesito. Existe algo mais aprazível do que ver fotos do carrasco nazista com crianças ao derredor, isso no campo da semiótica do ato político? Imaginem, se possível, algo com Merkel ou Thatcher…

    Julga-se portanto Hitler sob a égide do Estado, pois ele de posse deste usou-o de modo a não satisfazer a ética coletiva, privando grupos distintos de sua ideologia nefasta  dos direitos elementares no campo da política e de humanismo. O carrasco austríaco não teria conseguido seus intentos de modo efetivo se não tivesse sido alçado a chefe de Estado- com apoio de junkers, Krupps, Bayers e Thyssen e espalhado a sandice nazista não so na Alemanha mas em toda a Europa e além fronteiras. Portanto não há de se julgar Hitler por suas mediocridades literárias, suas possíveis amantes ou seus quadros Kitsch, mas por ter usado o Estado para seus intentos subjetivamente doentios.

    Pegue-se agora Churchill e seus devaneios que beiravam o racialismo. Podemos não concordar com suas assertivas de superioridade europeia sobre outros povos (algo comum em seu tempo), mas não devemos condená-lo, pos não houve po sua parte a personalização de suas ideias distorcidas enquanto estadista. Seus pileques e chistes não são classificáveis no campo da ética coletiva, ele não impunha seu vício ou suas subjetividades ao coletivo por meio do Estado. Franco, ”generalíssimo” era um carola empedernido, assim como Salazar, claro que tinham seus segredinhos de alcova, nada demais , as que poderiam suar a aurea de santidade governamental em seus empreendimetos estatais a serviço. Estes ibéricos em conjunto fizeram, as despeito de suas atrocidades estatais, bons governos – para a burguesia, ressalte-se em detrimento do bem estar do povo comum.

    Araújo vislumbra o ataque ao Estado como extensão das subjetividades exaltadas em seu texto, o que inicia aí no erro fatal, pois não há caráter subjetivo nos empreendimentos, nos oligpólios e quetais gerenciadores remotos do Estado contemporâneo. Como conservador romântico, Araújo nos cega com sua presunção de personificação na entidade empresarial que achaca o Estado com a conivência do político instituído pelo sufrágio, destituído da prerrogativa da pessoalidade em seus intentos e protocolos. Política S/A é o que há quando se trata de companhias de petróleo, empreiteiras e lobbies nas esferas de poder nos quatro cantos do mundo moderno. A crônica social não coaduna com o repertório da política (daí políticos não parecerem no Amaury Jr como não apareciam no Ibrahim Sued). Uma análise da conjuntura política sob esta ótica é imparcial e não joga luz no debate sob a ética ´subjetiva-coletiva e nas questões de Estado, cada vez mais descarcterizado de sua proposta inicial.

     

  19. ÉTICA É DIGNIDADE

    A questão está exposta de maneira clara e honesta, pois resta explicitado que o cerne da ótica defendida no artigo tem por estribo a equivocada e antiquada visão segundo a qual os fins justificam os meios. Desde Maquiavel esta celeuma serve bem para separar duas visões divergentes sobre a essência das relações sociais. E, na minha humilde opinião, todas as alegações do pragmatismo exibidas até hoje são incapazes de alterar o fato de que a ética é o único parâmetro de conduta compatível com a dignidade humana.

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