4 de junho de 2026

Os dois tipos de esquerda na Europa

Sugerido por Assis Ribeiro

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Da Carta Maior

Qual esquerda? Os dois tipos de esquerda na Europa

Michael Lowy

Há dois tipos de esquerda na França e na Europa, que não são apenas diferentes, mas irreconciliáveis.
 
A primeira é a esquerda oficial, institucional, representada por certos governos de centro-esquerda – na França, por exemplo – e pelos grandes partidos de centro esquerda. Quer esses governos e partidos sejam « honestos » ( ?) ou corrompidos, partidários do « crescimento » ou da « austeridade », social-liberais ou neoliberais, eles não representam mais do que variantes da mesma política, a do sistema. 
 
Como seus adversários de centro-direita – com os quais frequentemente governam em (Grécia, Alemanha, Itália) – sua política é a do capitalismo globalizado. Uma política que perpetua e agrava as desigualdades, que perpetua e acelera a destruição do meio ambiente, que conduziu à presente crise econômica e que conduzirá, em algumas décadas, a uma catástrofe ecológica. 
Mas existe também outra concepção de esquerda : aquela da esquerda radical. « Esquerda » significa aqui combate permanente contra a desigualdade, a injustiça, a dominação, em defesa da criação de uma comunidade política livre e igualitária.

O ponto de partido dessa outra política de esquerda é a « indignação ». Celebrando a dignidade da indignação e a incondicional recusa da injustiça, Daniel Bensaïd escreveu : « A corrente fervente da indignação não é solúvel nas águas mornas da resignação consensual. (…) A indignação é um começo. Uma maneira de se erguer e se por a caminho. Nós nos indignamos, nos insurgimos, e depois vemos o que fazer » (1) 
 
Sem indignação nada de grande, de profundo, se fez na hisyória humana. Para dar um exemplo recente, o movimento zapatista de Chiapas, México, começou em 1994 com um grito : Basta ! Mas o mesmo vale para a Primavera Árabe, para a revolta dos Indignados na Espanha e na Grécia, para o movimento Occupy Wall Street, para as jornadas de junho no Brasil. A força dessses movimentos vem, em primeiro lugar, desta negatividade radical, inspirada por uma profunda e irredutível indignação. Se o pequeno panfleto de Stéphane Hessel, « Indignez-vous ! », teve tanto sucesso é porque ele correspondia ao sentimento profundo, imediato, de milhões de jovens, de excluídos e oprimidos pela mundo.
 
A radicalidade dessas revoltas resulta, em larga medida, dessa capacidade de insubmissão, dessa disposição inegociável a dizer : Não ! Os críticos oportunistas e os medios de comunicação insistem fortemente no caráter excessivamente « negativo » desses movimentos, em sua natureza « puramente » contestatória e na ausência de proposições alternativas « realistas ». É preciso recusar categoricamente essa chantagem : mesmo que esses movimentos não tenham uma proposição a fazer – e eles têm ! -, sua indignação e revolta não serão menos justificáveis.
 
O outro ingrediente da esquerda, no melhor sentido – ou seja, plebeu – do termo, é a utopia. O sociólogo Karl Mannheim cunhou uma definição « clássica » de utopia, que ainda hoje é a mais pertinente que temos : todas as representações, aspirações ou imagens de desejo, que se orientam na direção da ruptura da ordem estabelecida e exercem uma « função subversiva » (2).
 
Sem indignação e sem utopia, sem revolta e sem isso que Ernest Bloch chamava de « paisagens do desejo », sem imagens de um outro mundo, de uma nova sociedade, mais justa e mais solidária, a política de esquerda torna-se mesquisa, vazia de sentido e ôca.

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4 Comentários
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  1. Josaphat

    27 de dezembro de 2013 12:59 pm

    tsi-tsi

    não é só na Europa os dois tipos de esquerda, não…

    1. Lucinei

      27 de dezembro de 2013 1:07 pm

      Aqui tem bem mais de duas…

      Aqui tem bem mais de duas…

  2. Fernando G. Trindade

    27 de dezembro de 2013 3:39 pm

    O Prof. Löwi (ilustre

    O Prof. Löwi (ilustre intelectual brasileiro radicado faz muito na França) acerta na crítica ao que ele chama de primeira esquerda (basicamente a social-democrata) que efetivamente faz a política da globalização capitalista, tanto quanto a centro-direita européia. Acrescento (importante ‘detalhe’ não lembrado por Löwi) que essa primeira esquerda faz também a política do neocolonialismo, como o governo de Hollande no Mali recentemente (como na ocasião dito pela nossa Presidenta Dilma).

    No que se refere a essa primeira esquerda é importante ter claro que apesar da sua posição integrada ao capitalismo globalizado, uma esquerda consequente não pode deixar de ter em conta que ela é esquerda e não direita ou centro-direita e não pode tratá-la como tal como faz o esquerdismo inconsequente.

    Ademais, dá certo desânimo perceber que o Prof. Löwi continua na mesma toada da metafísica universalista hegeliano-marxista ao fazer o elogio do que ele chama segunda esquerda. Perceba-se as expressões “defesa da criação de uma comunidade política livre e igualitária”, ‘utopia, ‘outro mundo’, ‘outra sociedade’. Infelizmente é a escatologia de sempre que muito emula mas não constrói alternativas factíveis.

    Da minha parte, já tendo compartilhado no passado da metafísica universalista (vertente marxista) estou cada vez mais convencido de que as esquerdas têm que construir é alternativas nacionais (mesmo na Europa ‘unida’).

    Aliás, a crise na Europa tem é demonstrado as fragilidades desse papo europeísta (e universalista), que têm por trás é a hegemonia do capital, materializada agora na troika, sob supervisão alemã, como agora está ficando claro.

    Enfim, com todo respeito ao Prof. Löwi e à segunda esquerda, a política que defendem ambos não passa, nem passará dos 15%, no máximo 20% dos votos, em qualquer dos países da UE.

    Eu lamento, pois o que a segunda esquerda devia fazer (com a sua admirável energia e capacidade de mobilização) é sair da metafísica e fincar os pés no chão, procurando dialogar em cada País com a sua simbologia nacional e popular específica e não deixar a direita chauvinista crescer livremente e nadar de braçada a partir da defesa dessa simbologia(como na França, em que a FN está se tornando o partido com mais intenções de votos e hoje detêm a maioria das bases operárias, outrora do PCF).

    Por fim e a propósito, essa polarização e tensão entre o nacional-popular X cosmopolitismo (universalismo, no caso ocidentalismo subalterno) tem muito a ver (embora de forma bem diferente, pois aqui somos Sul e lá eles são Norte) com a polarização trabalhismo X udenismo (ou populismo X elitismo) cujo retorno assistimos no Brasil desde os idos da campanha de 2006. Mas essa parte fica pra depois…

  3. Lucas Gomes

    27 de dezembro de 2013 4:30 pm

    assim como há que se separar

    assim como há que se separar o joio do trigo no que diz respeito ao próprio PT, há que se separar o joio do trigo nos protestos. Bem disse o autor: há sim uma reivindicação propositiva nas revoltas de junho, o transporte público gratuito, público e gratuito da mesma maneira como o são a educação e a saúde.

    Não deixa de ser engraçado que muitos petistas acusam o fato de os protestantes e o “pig” de estarem juntos no momento do protesto, mas não fazem a auto-crítica pelo fato de estarem PT e “pig” juntos na defesa do transporte público com cobrança. E dá-lhe argumentos técnicos (quantos argumentos técnicos contrários não devem ter havido quando a sociedade lutava pelo SUS?)

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