4 de junho de 2026

Para recuperar eleitorado, partidos europeus de centro-esquerda fazem guinada à esquerda

"Nossa retórica está altamente carregada com mensagens de esquerda, como a precariedade e as mudanças climáticas. Fizemos isso para nos aproximar dos setores que nos abandonaram”, diz parlamentar recém-eleito do PSOE

Jornal GGN – Os europeus estão insatisfeitos com as respostas dos partidos de centro, especialmente centro-esquerda, que ocuparam os governos nos últimos anos levando as siglas a buscarem o apoio e o discurso mais à esquerda para agradar o eleitorado. A análise é da matéria de Giovanni Legorano, no Wall Street Journal.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A movimento mais recente foi nas eleições para a escolha da nova composição do parlamento na Espanha. O centro-esquerda PSOE, do primeiro-ministro Pedro Sánchez, conquistou 123 das 350 cadeiras, 85 a mais do que nas últimas eleições, em 2016, se pautando em um discurso mais radical.

Enquanto isso, o Partido Popular (PP), algo equivalente aqui no Brasil ao PSDB, teve o pior resultado em relação às eleições anteriores caindo para apenas 66 vagas, ante as 137 que detinha. Ele perdeu boa parte das vagas no Parlamento para o partido Vox, de extrema-direita, que elegeu 24 deputados (não tinha nenhum), graças principalmente à irritação dos nacionalistas espanhóis com as ambições separatistas da Catalunha.

No Natal, Sánchez elevou o salário mínimo em 20% garantindo uma boa repercussão entre o eleitorado mais pobre. “Sua defesa de impostos maiores para as empresas marca um contraste com o último premiê socialista da Espanha, José Luis Rodríguez Zapatero, que há mais de uma década disse que ‘cortar impostos é de esquerda'”, pontua o articulista.

Legorano reflete que, da mesma forma, os partidos de centro-esquerda na Alemanha, Itália e Reino Unido estão tentando atrair eleitores “que se sentirem traídos por políticas centristas que, acreditam, os fizeram mais pobres e ameaçaram a segurança de seus empregos”.

“Parte desse eleitorado migrou para partidos novos, à esquerda e à direita”, completou o analista político. Um dos socialistas que se elegeram para o Parlamento espanhol no domingo, Pau Marí-Klose admitiu que o PSOE “claramente” se virou a esquerda.

“Nossa retórica está altamente carregada com mensagens de esquerda e acrescenta novos temas, como a precariedade e as mudanças climáticas. Fizemos isso para nos aproximar dos setores que nos abandonaram, como os jovens.”

Legorano chama essa guinada de “angústia existencial” dos partidos de centro-esquerda da Europa também refletida dentro do Partido Democrata dos EUA. Na tentativa de ganhar eleitores e responder ao desafio do presidente Donald Trump (Republicano), os Democratas se viram questionando-se se deveriam ou não mirar no centro, ou mais para a esquerda. Quando decidiram por essa segunda alternativa, nas eleições legislativas de 2018, tiveram uma onda de votos conquistados na esquerda.

“Quando a ideia de governo grande caiu em descrédito, ao fim da Guerra Fria, os partidos de centro-esquerda no Ocidente passaram a aceitar cada vez mais a visão econômica de livre mercado, ao mesmo tempo em que buscavam limar as arestas do capitalismo em vez de mudá-lo radicalmente”, remonta Legorano.

“Na Europa, líderes como o britânico Tony Blair e o alemão Gerhard Schröder conduziram a mudança de perspectiva, dos generosos Estados de bem-estar social e da intervenção estatal para a desregulamentação, a privatização e a concorrência. Líderes de centro-esquerda na França, Itália, Espanha e em outros países os seguiram. Com o tempo, os eleitores da classe trabalhadora na Europa passaram a considerar esses partidos como cada vez mais distantes das pessoas comuns. Seus seguidores sentiram-se traídos quando alguns deles, como os socialistas da Espanha e os democratas da Itália, respaldam cortes na seguridade social para escorar as finanças do governo durante a crise financeira”, completou.

Esse cenário é que vai resultar no fenômeno atual de declínio dos partidos tradicionais de centro-esquerda e o aumento dos populistas de extrema-direita e extrema-esquerda ganhando mais espaço “entre eleitores desiludidos, com ataques ao sistema”.

A cientista política da Universidade Livre de Amsterdã, Catherine De Vries, corrobora essa avaliação apontando que o insucesso popular dos governos de partidos de centro-esquerda e levante dos extremos, fizeram alguns desses partidos “retomar seus princípios fundamentais para recuperar eleitores.”

Nas eleições de 2015, por exemplo, o Partido Trabalhista britânico sofreu uma derrota inesperada. A experiência levou a sigla a se tornar uma das primeiras a virar à esquerda para reconquistar apoio.

“Seu líder, Jeremy Corbyn, atraiu milhares de jovens com mensagens contra a austeridade e a guerra. Ele também defende reestatização da água e das ferrovias. Nas eleições de 2017, o Partido Trabalhista conquistou 40% dos votos, ante os 30% de 2015, mas ficou em segundo lugar, abaixo do governante Partido Conservador”, pontua Legorano.

John Martin McDonnell, um dos líderes do Partido Trabalhista britânico declarou recentemente: “O socialismo voltou à agenda”.

Na Alemanha e Itália, os partidos de centro-esquerda que estiveram nos governos implementando políticas econômicas pró-empresas, sofreram reiteradas perdas nas eleições passadas e agora voltam ao discurso original.

Em 2017, o Partido Social-Democrata (SPD) alemão, sofreu seu pior resultado no pós guerra para os Verdes, de tendência esquerdista, e o Alternativa para a Alemanha (AfD), de extrema-direita.

“Na Itália, o Partido Democrático perdeu votos desde 2013 para o Movimento 5 Estrelas, antissistema, e para a Liga, de extrema-direita, que hoje governam juntos o país”, destaca Legorano lembrando que entre as políticas que afastaram os eleitores do Partido Democrático está a reforma da Previdência. “O apoio popular ao Partido Democrático caiu pela metade desde o início de 2014”, completa.

Agora, o recém-eleito líder dos democratas, Nicola Zingaretti, afirmou que analisa uma aliança eleitoral com parlamentares que deixaram o partido no passado por considerá-lo centrista demais. “As forças populistas se saíram melhor do que as progressistas por causa de um anseio por mais justiça”, admitiu Zingaretti em abril.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Anônimo

    30 de abril de 2019 5:29 pm

    Até que enfim uma análise correta do que está acontecendo na Europa.

  2. Carlos D.

    30 de abril de 2019 11:56 pm

    Olha, eu acho que nem escancarando o óbvio, o PT algum dia vai fazer algum tipo de autocrítica.
    Não se ligaram em 2013. Não se ligaram quando a Dilma chamou o Levy. Continuaram não se ligando quando abraçaram um discurso vitimizatório cômodo e absolutamente fora da realidade.
    A limitação intelectual do PT só se compara a uma outra: a do Bolsonaro. Os dois são absolutamente análogos em obtusidade, prepotência e autossuficiência.

Recomendados para você

Recomendados