Resposta anticíclica de Putin é auge da guerra semiótica entre Rússia e o modelo de Deep State, por Wilson Ferreira

Putin explora muitos elementos do teatro de vanguarda, sob a influência do “Rasputin” Vladislav Surkov, trabalhando na linha tênue entre ficção e realidade.

Resposta anticíclica de Putin é auge da guerra semiótica entre Rússia e o modelo de Deep State

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Algo saiu do script! De repente, pareceu que algum release que viria diretamente da OTAN para o ponto eletrônico dos repórteres cessou. Deixando-os gaguejantes, consternados, sem ter o que dizer ao vivo após um irritado e impaciente Putin ter reconhecido a independência e soberania das regiões separatistas da Ucrânia. Para depois, enviar “tropas de paz” para as regiões. Biden aproveitou o feriado e se fechou na Casa Branca, e, no vácuo, aliados prometeram “uma reposta rápida a Putin”. A resposta anticíclica de Putin, rompendo a “política do megafone” de Biden é a culminância aos primeiros sinais das diferenças semióticas EUA/Rússia: o salão oval versus a gigante mesa oval de reuniões do Putin, p. ex.. As diferenças não são meramente estéticas: Putin explora muitos elementos do teatro de vanguarda, sob a influência do “Rasputin” Vladislav Surkov, trabalhando na linha tênue entre ficção e realidade. Nada do que o Ocidente também não faça. Porém, com uma diferença: enquanto o Deep State ocidental precisa criar uma cena ficcional com atores que acreditam ser os próprios personagens que encenam, Putin é a própria realpolitik russa. Mas, também, essa diferença oculta uma ameaça mortífera.

“Acho necessário tomar uma decisão que deveria ter sido tomada há muito tempo… reconhecer imediatamente a independência e a soberania da República Popular de Donetsk e a República Popular de Lugansk”, discursou Vladimir Putin, pela TV, ao reconhecer as duas regiões separatistas da Ucrânia nessa segunda-feira.

Sem ponto, teleprompter, visivelmente irritado e impaciente, Putin fez um discurso duro, repleto de argumentos históricos sobre a ancestralidade russa das terras do leste ucraniano. “A Ucrânia é parte integrante da nossa história”, afirmou. 

accent russo em si já inspira em um estrangeiro que ouve uma certa “dureza” pela quantidade de consoantes nas palavras. E ainda mais com um emissor flagrantemente enraivecido…

Alguma coisa deve ter saído do script. O que mais se viu nos canais fechados de notícias, ao vivo, eram jornalistas esbaforidos, gaguejando, consternados, ao terem que encarar um acontecimento anticíclico – depois das previsíveis semanas de “política de megafone” do John “Sleep Joe” Biden (a política siderada pelos signos de uma diplomacia deteriorada em slogans de propaganda), com jornalistas mecanicamente repetindo textos que mais pareciam releases diretamente despachados do Pentágono via ponto eletrônico.

De repente, repórteres se viram tendo que preencher os longos tempos ao vivo atrás de alguma resposta do Ocidente que não vinha de lugar nenhum – Biden se encastelou na Casa Branca e, aproveitando o feriado nos EUA, deixou a imprensa a ver navios. Enquanto os aliados falavam o protocolar discurso das “sanções econômicas contra Rússia” e “Putin não ficará sem resposta…”. 

O descabelado “colonista” da GloboNews, Guga Chacra, era o mais transtornado: “Olha, os EUA não estão lidando com um Sadam Hussein, um Muamar Kadafi… É A RÚSSIA! A segunda potência militar do planeta [questionável]”. Alguns até lembraram, saudosos, de Angela Merkel, ex-chanceler alemã: “ela falava fluentemente russo…”. 

Kiev é Bagdá?

Como esperado, a primeira resposta foi a do próprio jornalismo corporativo internacional, sempre mostrando imagens noturnas ao vivo de Kiev. Como que torcendo para algum ataque inesperado russo… algum míssil… recall das imagens ao vivo de Bagdá do repórter Peter Arnett, da CNN, durante a Guerra do Golfo de 1990 – a primeira guerra transmitida ao vivo. 

Maidan Square, Kiev, ao vivo na CNN: recall de Bagdá na Guerra do Golfo…

No grande vazio de respostas assertivas do Ocidente, destaque para entrevistas com o cônsul da Ucrânia no Brasil, Jorge Rybka, protestando ao dizer que “Putin está atrapalhando a ordem mundial…”. Ordem de quem, cara pálida?

A resposta anticíclica de Putin (deixou de ser apenas reativo, para agir… uma boa lição para as esquerdas tupiniquins sempre sequestradas pelas pautas da grande mídia) foi a culminância de uma guerra semiótica que já estava saltando aos olhos de muitos comentários nas redes sociais: a diferença entre o salão oval e a gigantesca mesa oval de reuniões que distanciava Putin do presidente francês Macron e, depois, do chanceler alemão Olaf Scholz; ou o kitsch acúmulo de objetos (com suas respectivas guarnições), da Casa Branca com o décor austero e salas com pé-direito alto do Kremlin.

O “Rasputin” Surkov

Essas diferenças semióticas não são meras opções estéticas. Putin tem o seu “Rasputin” como consultor, como aponta o documentarista Adam Curtis no seu documentário HyperNormalisation (2016): é Vladislav Surkov, doutor em economia, empresário e ex-estudante de artes cênicas. Veio do universo das relações públicas e departamentos de publicidade de TVs russas. 

Na famosa entrevista para a revista americana “The Atlantic”, em 2014, Surkov descreveu que “meu currículo no Kremlin e no governo inclui ideologia, mídia, partidos políticos, modernização, religião, inovação, relações exteriores e… arte contemporânea”. Curtis afirma no documentário que Surkov levou para a cena política russa “muitos elementos de teatro de vanguarda”. 

Vladislav Surkov: teatro de vanguarda em Moscou

Fã de rap, jazz e pintura surrealista, Sarkov aplicou no governo Putin, mais precisamente, elementos do teatro do absurdo, trabalhando na linha tênue entre ficção e realidade – o exemplo da gigantesca mesa oval no meio daquele cenário que combinava austeridade com a estética dourada que remete à época dos czares, certamente é um desses elementos tributados de, por exemplo, “Esperando Godot”, de Samuel Backett.

Claro, o álibi é a pandemia (garantir o distanciamento social). Mas, não com muita teatralização.

Também é claro: nada do que também o Ocidente não faça. Por exemplo, a guerra híbrida do Ocidente, que derrubou, através de uma revolução popular híbrida em 2014, o então presidente aliado de Moscou, Viktor Yanukovytch. No lugar, entrou o comediante e ator da série “Servo do Povo”, Volodymyr Zelensky (que, na ficção televisiva, tinha se tornado presidente do país).  Zelensky foi eleito na onda anti-política impulsionado pela guerra híbrida, dizendo que não tinha conhecimento aprofundado sobre qualquer tema e com o bizarro slogan antissistema “Sem promessas, sem decepções”.  

Porém, há uma diferença abissal entre a espetacularização da política entre Rússia e o Ocidente.

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Wilson Ferreira

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