Na disputa à sucessão de Raquel, Augusto Aras alinha discurso ao presidente Bolsonaro

Subprocurador elogia Bolsonaro, critica STF e anuncia equipe com conservadores; 'Presidente tem sido vítima dessas edições maledicentes', diz sobre declarações polêmicas de Bolsonaro

Augusto Aras. Foto: Arquivos/STF

Jornal GGN – O subprocurador-geral Augusto Aras rebateu ideias de esquerda e voltou a fazer um discurso alinhado ao conservadorismo em entrevista à Folha de S.Paulo, publicada nesta segunda-feira (12). Ele é considerado favorito à sucessão da Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, que termina o mandato em setembro.

Neste ano, Aras se encontrou reservadamente com Bolsonaro em seis oportunidades. A última reunião aconteceu dia 5 de agosto. Mas, na última semana, passou a receber uma série de ataques de bolsonaristas nas redes sociais acusado de ser “à esquerda”, depois de a Folha ter resgatado uma entrevista que concedeu à TV Câmara de Salvador em 2016.

“Essa política do medo tem consequências desastrosas, que é o crescimento de toda […] uma doutrina de direita, uma direita radical”, disse Aras naquela ocasião.

Na mesma entrevista, o subprocurador citou uma frase notabilizada no Brasil como slogan de campanha do ex-presidente Lula. “Agora, mais do que nunca, a esperança precisa vencer o medo”, disse.

Sobre a primeira declaração, ele respondeu na entrevista mais recente, à Folha, que não expôs, naquela ocasião, toda sua posição ideológica mas sim sua explicação da doutrina da lei da ordem, sobre a qual havia sido perguntado por ser professor na Universidade de Brasília.

O subprocurador disse também que a ciência política moderna não sustenta mais a dicotomia entre direita e esquerda – na entrevista de 2016, Aras criticou a “direita radical”. Ao ser perguntada pela reportagem da Folha se ele se enquadraria hoje a esse movimento que representa o governo Bolsonaro, respondeu que não, porém com algumas ressalvas.

“Não enquadro por uma razão simples: uma coisa é se fazer um trabalho ideológico de radicalização, outra coisa é se fazer um trabalho, ainda que seja partidário, de defesa da segurança pública e da segurança nacional. Entendo que o presidente Bolsonaro vem buscando a segurança pública e a segurança nacional como valor essencial”, defendeu.

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“Uma coisa é uma doutrina, como a posta na Hungria [com Viktor Orbán], por exemplo, essa política da lei e da ordem que está em curso em vários lugares do mundo tende ao radicalismo. Não se trata de um fenômeno brasileiro, se trata de uma doutrina que foi exposta naquele ambiente [em 2016] de perguntas acerca de diversos pontos”, prosseguiu.

Já sobre o uso da frase que foi slogan na campanha de Lula, Aras disse que sua referência não foi o petista. “Eu usei uma frase do filósofo Luciano, que viveu no século primeiro da era cristã, que dissera: ‘A esperança venceu o medo’. Essa frase é porque o filósofo concluiu que, para o governante, manter a esperança do povo gerava muito mais expectativa positiva do que o medo”.

“Editaram também um discurso meu numa audiência pública, no ano de 2018, versando sobre a criminalização dos movimentos sociais. Pinçaram o nome MST, como se eu fosse um defensor do MST. Certamente se eu fosse do MST eu estaria sentado no Supremo Tribunal Federal, eu não estaria me rebelando contra um estado de coisas que emerge exatamente do período em que o MST esteve criando situações de desconforto para os proprietários rurais”, cutucou.

Movimentos bolsonaristas que atacam o Supremo Tribunal Federal, acusam alguns membros da corte de terem atuado em defesa do movimento social que atua na luta por reforma agrária antes de serem indicados ao cargo na Corte.

Aras aproveitou o debate em torno da sua entrevista para dizer que, assim como Bolsonaro, ele foi alvo de edições deturpadas, defendendo o presidente em duas declarações que tiveram repercussão negativa.

“Essas edições são uma velha prática que no Brasil é tida como ilícita. O próprio presidente tem sido vítima dessas edições. Ele disse recentemente que no Brasil não tinha fome, e, na verdade, ele quis dizer, e ele disse, o contexto era no sentido de que o Brasil produz alimento para que ninguém passe fome. No entanto, o presidente sofreu uma edição dessa matéria”, avaliou.

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“O presidente também tem tido edições maledicentes em torno de outros assuntos. O caso em que ele, num contexto de informalidade, num contexto mais largo, fala de ‘paraíba’ foi um desses outros exemplos de malsinadas edições de falas do presidente”, prosseguiu.

No dia 19 de julho, pouco antes de iniciar um café da manhã com jornalistas estrangeiros, Bolsonaro disse ao ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni: “Daqueles governadores de paraíba, o pior é o do Maranhão [Flávio Dino, do PCdoB]. Tem que ter nada com esse cara”.

A Folha perguntou para Aras quem faria parte da sua equipe, caso fosse indicado para assumir a PGR. “[Se for indicado] Eu começaria no plano administrativo convidando [para ser secretário-geral] o colega Eitel Santiago de Brito Pereira, que, uma vez aposentado, se candidatou [pelo PP] a deputado federal pela Paraíba e como tal apoiou o candidato Bolsonaro e fez um dos discursos mais inflamados contra o atentado [à faca] que sofreu o presidente”, disse.

“É um homem maduro, um homem católico, um homem que, quando havia ainda alguma distinção entre direita e esquerda, poderia ser enquadrado num viés de direita. Eu o teria do meu lado e seria muito honroso que isso acontecesse”, completou.

Aras disse ainda que convidaria para sua gestão o Ailton Benedito, chefe da Procuradoria em Goiás, outro que manifesta seu apoio ao conservadorismo nas redes sociais. O Conselho Superior do Ministério Público Federal barrou, no último dia 6, a indicação de Benedito para assumir a Comissão Especial sobre Morots e Desaparecidos Políticos.

O subprocurador aproveitou ainda para criticar a atuação do Supremo no julgamento de pautas atacadas por Bolsonaro.

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“Eu não concordo com certos julgados do Supremo que, por analogia, têm aplicado certas regras que somente ao Congresso compete legislar, a exemplo da criminalização da homofobia [julgada em junho deste ano]”, declarou.

“Eu não posso, como cidadão que conhece a vida, como sexagenário, estudioso, professor, aceitar ideologia de gênero […]. Não cabe para nós admitir artificialidades. Contra a ideologia de gênero é um dos nossos mais importantes valores, da família e da dignidade da pessoa humana”.

Ele também disse se apoiar na “Constituição” que “reconhece a família como união de homem e mulher”, e que o entendimento contrário a isso “encontra” nele “um repúdio natural, como jurista, em que a entidade familiar, nos termos da Constituição, envolve homens e mulheres”.

Apesar do discurso e da proximidade com Bolsonaro, Aras disse que, até o momento, não foi convidado pelo presidente para assumir a PGR. Ele não participou da eleição para a lista tríplice da ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República), realizada a cada dois anos para definir os membros que a categoria entende como mais preparados para assumir o cargo de procurador-geral da República.

Por lei, quem tem o poder de indicar um nome para assumir a PGR é o presidente da República, mas desde 2003 os presidentes têm aderido à lista. Os três nomes mais votados na eleição recente foram Mário Bonsaglia, Luiza Frischeisen, Blal Dalloul. Jair Bolsonaro fez várias manifestações afirmando que pode escolher um nome de fora da lista. Ele também não descarta a recondução de Raquel Dodge. O mandato é de dois anos e quem valida a escolha do presidente é o Plenário do Senado, em uma sabatina.

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3 comentários

  1. Bolsonaro para defender seus malfeitos busca, não alguém terrivelmente evangélico, mas um que se encaixe mais no perfil do altamente fariseu, tipo aqueles ilustrados nos discursos de Jesus com a analogia para o hipócrita – os que tem a trava nos olhos e por isto não enxerga a realidade. Para este tipo de capachismo bem remunerado, no Brasil atual deve ter uma fila de procuradores de seu bem estar às custas do atraso e empobrecimento. Só que para este tipo de país que criam, em muito breve as coisas começarão a dar ruim até para eles.

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