Uma pesquisa inédita realizada por organizações da sociedade civil que atuam em grandes favelas do Rio de Janeiro revelou que 73% dos moradores do Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha discordam das ações policiais realizadas nessas localidades, enquanto 92% defendem mudanças na forma como as operações são conduzidas.
Entre os principais resultados, 95% dos entrevistados afirmaram que as operações policiais não contribuem para aumentar a segurança das famílias. Além disso, 91% disseram perceber excessos e ilegalidades por parte das forças policiais — percepção que aparece inclusive entre moradores favoráveis às operações.
Outro dado que chamou atenção foi a percepção sobre operações de grande letalidade. Questionados sobre ações semelhantes à operação policial realizada nos Complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025, que terminou com 122 mortos, 85% disseram que esse tipo de ação não deve voltar a acontecer.
Jovens e população preta apresentam maior rejeição
A discordância em relação às operações policiais é ainda maior entre jovens de 18 a 29 anos, alcançando 79%. Entre pessoas pretas, o índice sobe para 81%.
A pesquisa aponta que esse cenário pode estar relacionado à maior exposição desses grupos à violência policial e aos processos de criminalização. Além disso, 61% dos entrevistados afirmaram perceber racismo na maneira como as operações policiais são planejadas e executadas nas favelas.
Medo da polícia supera medo de grupos armados
O levantamento revelou ainda uma inversão significativa na percepção de segurança: 78% dos moradores afirmaram sentir medo da polícia durante operações, enquanto 59% disseram não sentir medo de grupos armados presentes nos territórios.
Mesmo entre os entrevistados favoráveis às operações policiais, o medo das forças de segurança (59%) apareceu acima do medo dos grupos armados (53%).
Segundo os organizadores da pesquisa, esse resultado reflete o esgotamento da população diante de uma política de segurança baseada predominantemente no confronto armado.
O estudo, intitulado “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, ouviu mais de 4 mil pessoas presencialmente entre janeiro de 2026 e foi conduzido por seis organizações comunitárias: Redes da Maré, Instituto Papo Reto, Instituto Raízes em Movimento, Fala Roça, A Rocinha Resiste e Frente Penha.
A pesquisa também contou com apoio acadêmico e institucional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, do Instituto Fogo Cruzado e da Open Society Foundations.
Leia abaixo a íntegra do estudo
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