5 de junho de 2026

A controversa morte do escritor Pedro Nava, 30 anos depois

Do Estadão

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Passados 30 anos, morte de Pedro Nava ainda é controversa

“Sim, tenho saudades / Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste.” Esse trecho é de uma poesia, A Um Ausente, que Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) fez em homenagem a um amigo fraterno, Pedro Nava (1903-1984). Colega que, sem nenhuma explicação, deu um tiro na própria cabeça, quando estava sentado em um banco de praça em frente ao edifício onde morava, no bairro da Glória, no Rio de Janeiro. Era noite, por volta das 23h30 de um domingo, 13 de maio de 1984.

Médico reumatologista, Nava era um escritor bissexto e preferia escrever memórias a romances para “reprovar” sua vida, pois “a lembrança é uma espécie de traumatismo”. Deixou, assim, uma coleção de seis volumes, que se tornaram um clássico memorialista brasileiro. Uma revelação, no entanto, ainda perdura como mistério: o motivo de sua morte.

A versão corrente diz que fora chantageado por um garoto de programa, com quem mantinha um caso secreto. O cartunista e escritor Ziraldo, amigo próximo de Nava, desconhecia o suposto homossexualismo. “Eu só soube quando ele morreu. Foi um susto, pois Nava era irônico ao tratar do assunto. Lembro-me da entrevista para O Pasquim: quando alguém falou sobre a importância do sexo na velhice, ele respondeu: ‘a vida é f…, o resto é brincadeira (risos)’. Esse era Pedro Nava, um homem inteligente, sensível e extremamente divertido.”

Hoje, passados trinta anos da morte do escritor, Ziraldo acredita que o autor da obra memorialística mais importante já escrita no País (Baú de Ossos, Balão Cativo, Chão de Ferro, Galo das Trevas, Beira-Mar, O Círio Perfeito e o inacabado Cera das Almas, todos publicados pela Companhia das Letras) não se mataria naquela noite. Nava estava em seu apartamento com a mulher, Antonieta (Nieta), quando, por volta das 21h, ela atendeu a uma ligação telefônica. A voz de um homem perguntava por Nava. A esposa passou a ligação para o escritor, que apenas escutou, durante alguns segundos. Em seguida, desligou o aparelho e, contrariado, disse para a mulher, que o observava à distância: “Nunca tinha ouvido nada tão obsceno ao telefone”.

Chantagem. Nava foi para o quarto e depois saiu pela porta dos fundos do apartamento, sem que a esposa percebesse. Foi visto andando pelas ruas da vizinhança, e uma mulher, que testemunhou seus passos (morava no prédio em frente ao banco da praça onde se matou), viu o escritor em duas ocasiões – na primeira, conversando com um rapaz e, na outra, já sozinho, deitado no banco, já sem vida. Nava estaria sendo chantageado por um garoto de programa chamado Beto. O fato não foi noticiado na época para não revelar o homossexualismo do autor, mas foi narrado, anos depois, pelo jornalista Zuenir Ventura em seu livro Minhas Histórias dos Outros.

Ziraldo, que nos últimos meses de vida de Nava era um amigo próximo, conta que o escritor se revelava vaidoso com a notoriedade conquistada pela sua obra, com as várias entrevistas que dava à imprensa e com a admiração de amigos escritores, como Drummond, Otto Lara Rezende, Fernando Sabino, entre outros.

O cartunista acredita que Nava saiu naquela noite com sua arma, comprada em 1980, para calar o chantagista que o ameaçava. “Ele desceu para matar o cara. Nava se armou e desceu pelas portas do fundo do seu apartamento. Nieta nem o viu sair. Ele vinha recebendo muitas ligações desse rapaz, que supostamente o ameaçava. Como ele ficou muito tempo conversando com esse cara, Nava resolveu não matá-lo.”

Para Ziraldo, Nava percebeu que o rapaz pretendia revelar tudo, caso ele não cedesse às suas exigências. “O homem deve ter humilhado Nava. Eles não entraram em um acordo. O cara deve ter falado alguma coisa muito desagradável, que o deixou arrasado. Acredito que Beto ameaçou revelar tudo, especialmente as fotos e a relação entre eles. O rapaz, suponho, disse isso e saiu. Nava dizia que seria impossível suportar uma humilhação.”

Para Joaquim Alves de Aguiar, professor de literatura da Universidade de São Paulo e autor da tese Espaço da Memória: Um Estudo Sobre Pedro Nava, publicada pela EDUSP, tal hipótese nunca tinha sido cogitada, uma vez sua tese não tinha a biografia do escritor como o foco principal. “Eu jamais havia pensado nessa possibilidade. Acredito que seja verossímil e transforma esse desfecho em algo ainda mais trágico do que realmente foi.”
Arrependimento. Para Ricardo Setti, na época da morte de Nava, redator-chefe da revista IstoÉ, em São Paulo, o que ficou desse episódio foi seu arrependimento de não ter lutado para que a história da suposta chantagem sofrida por Nava fosse publicada.

“É um suicídio que ficou sem explicação. Mas havia uma, que envolvia a vida pessoal de Pedro Nava. Deveria ter sido revelada porque se tratava de um homem público, alguém que, de certa forma, abriu sua alma, a própria vida, nas suas memórias que deixou para o público. Qual o problema de ser homossexual?”, questiona.

Humberto Werneck, hoje colunista do Estado e também jornalista da IstoÉ, em São Paulo, naquele momento, conta que, no primeiro momento, foi a favor da omissão da violência que o escritor vinha recebendo. Mas mudou de opinião logo depois. “Se alguém se mata por causa de chantagem sexual, é obrigação da imprensa contar o que se passou, não só pelo dever de informar, mas também como forma de arejar os cômodos abafados da sociedade que favorecem a ação dos chantagistas.”

E hoje, passados vários, anos, o escritor Zuenir Ventura acredita que o episódio da omissão da chantagem sofrida pelo escritor é “uma das falhas da cobertura jornalística da qual participei”.

Entrevistas do autor serão editadas em livro

Atual detentora dos direitos de publicação dos sete volumes de memórias de Pedro Nava, a Ateliê Editorial divide o trabalho de edição com a Companhia das Letras desde 2012 – a partilha deverá perdurar por mais sete anos, segundo Plínio Martins, proprietário da Ateliê e presidente da Edusp.

Com a morte de Paulo Penido, sobrinho do escritor e detentor dos direitos da obra de Nava, a família do escritor deve ser a nova responsável pelos títulos. “A viúva de Paulo Penido quer que os direitos sobre a publicação dos livros de Pedro Nava voltem para sua família”, conta Martins, que pretende editar os livros de memória de Nava menos conhecidos, como A História da Medicina no Brasil e Território e Epidauro, o primeiro livro lançado pelo autor mineiro, em 1947.

Além dessas publicações, Martins quer lançar outros dois livros, que ainda estão na fase de projeto: uma biografia que Nava escreveu mas deixou inacabada sobre o médico Torres Homens, que viveu no século 19, e também uma seleção das principais entrevistas concedidas pelo memorialista. O responsável pelos dois projetos é Joaquim Alves de Aguiar, professor de Teoria de Literatura da USP.

“Já transcrevi todos os manuscritos dessa biografia que Nava produziu sobre Torres Homem. Como muitos sabem, ele só escrevia a mão. É completamente inédita. É um projeto que já soma sete anos e o próprio Paulo Penido, que fez a revisão técnica dos muitos termos de medicina, acreditava que não valia a pena publicar a obra naquele momento. Os manuscritos se encontram na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro”, disse Aguiar.

Já a seleção das entrevistas do memorialista mineiro deve ser lançada antes, comenta o organizador. “Nava se repetia muito nas conversas. Assim, estou fazendo uma seleção das melhores e também aquelas em que ele não se repete. É uma nova possibilidade para conhecê-lo, pois suas memórias estão povoadas de literatura.”

Em umas das mais famosas e importantes entrevistas – e que tanto o envaidecia –, para o tabloide O Pasquim, Nava diz, logo no início da conversa, que “lembrar dói e incomoda. Não tenha a menor dúvida”. E, em seguida, completou: “Certos fatos que estão dentro de mim me castigando; depois que escrevo, esqueço. É uma catarse mesmo.”
 

Cintia Alves

Cintia Alves é jornalista especializada em Gestão de Mídias Digitais e editora do GGN.

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10 Comentários
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  1. Alessandre de Argolo

    11 de maio de 2014 11:59 am

    Escritor absolutamente fantástico, gigante da literatura mundial

    Pedro Nava é um escritor monumental, gigante da literatura mundial, mestre do que provavelmente é o mais sofisticado estilo literário que existe, que é a memória. Só os grandes escritores, como Elias Canetti (Nobel de literatura de 1981, escritor judeu sefardin, nascido na Bulgária, mas radicado em Viena e que escrevia em língua alemã) e Pedro Nava, conseguem exibir a força artística que Nava exibia em suas memórias. Considero o mais difícil estilo literário que existe. Por isso que somente se destacam nesse estilo escritores de grande erudição e apuro estético, como eram gigantes da literatura como Canetti e Nava.

    Eu conhecia a história da chantagem e deve ter sido essa mesma a causa do suicídio de Nava.

    Pedro Nava, como Carlos Drummond de Andrade, é um daqueles escritores que, sozinho, salvam toda a literatura de um país. Enfim, a literatura brasileira já seria grande se tivesse apenas Pedro Nava.

    Li “O Círio Perfeito”, apenas, mas foi suficiente para sentir a força da literatura de Nava, anos-luz à frente da maioria dos escritores brasileiros. Livro de fôlego, muito bem escrito, amplo, abrangente, complexo, com análises refinadíssimas, etc. Obra-prima da literatura mundial. Que escritor era Pedro Nava. Honra a literatura brasileira.

    1. André LB

      11 de maio de 2014 12:24 pm

        Ufa! Que bom deixar de

        Ufa! Que bom deixar de falar um pouco em política!

        Argolo, de Canetti nada li até hoje, mas tenho CERTEZA ABSOLUTA de que você vai se sentir engrandecido pela leitura do “Baú de Ossos”, o primeiro e na opinião do Joaquim Alves de Aguiar* melhor livro dele. Li e ADOREI a obra, além de concordar com sua avaliação sobre o autor.

       

        *talvez ele não se lembre dessa opinião, bem como que contava, com a necessária sobriedade que a tragédia pede, a hipótese de chantagem como motivo para o suicídio.

  2. alberto tiago

    11 de maio de 2014 1:56 pm

    Pedro Nava

     Obra de Nava fala  da historia do Brasil  de Minas da Culinaria da Medicina no Brasil  e como poucos das relaçoes Familiares de amor e odio   EX: simplificado  ,Mae adorada pelas filhas tem um genro farmaceutico narigudo que ela odeia e por ele e odiado  sem que ele saiba lhe   poe o apelido de Bicanco  um dia a Sogra morre durante o velorio

    o cadaver tem um  movimento no corpo  um alvoroço no velorio e as filhas passam achar que a mae esta viva e passam a nao permitir que a velha seja enterrada passado alguns dias ninguem suporta o ar da casa com a velha se

    decompondo a unica pessoa que circula pela casa tranquilo era Bicanco desfrutava do Perfume do Inimigo Morto

     

     

     

  3. antonio francisco

    11 de maio de 2014 2:14 pm

    Beto da Prado Junior, o chantagista

    O detalhe que até hoje parece não ter sido devidamente  mostrado é que a ameaça de chantagem feita pelo Beto da Prado Junior a Pedro Nava consistia em vender à revista Manchete uma foto em que ambos estavam juntos.

    Conclusão minha: desde aqueles tempos a  imprensa já era usada para chantagear pessoas. 

    A busca ao chantagista está em

     http://biografiasgls.blogspot.com/2013/04/vida-e-morte-do-grande-escritor-e.html

    mas não fiquei sabendo se ele sofreu alguma consequência pelo ato de chantagear, que até onde sei, é crime.

  4. Silvio Torres

    11 de maio de 2014 2:25 pm

    A obra de Nava é realmente

    A obra de Nava é realmente monumental e foi impossível não ir atrás de tudo que o juizforano escreveu depois do primeiro contato que foi, pasmem!, pela revista Homem, precursora da Playboy. Baú de Ossos e Chão de Ferro se tornaram espécies de bíblias na minha vida. Estou sempre relendo, sempre aprendendo e descobrindo com a genialidade do autor. E sofrendo dia a dia por morar em Bh e acompanhar a destruição suicida imposta a essa jóia das cidades brasileiras. Mas o próprio Nava, parte integrante dela, nunca deixou de se horrorizar e denunciar a burrice e brutalidade da maior parte da nossa “elite”.

    1. antonio francisco

      11 de maio de 2014 4:36 pm

      Destruição de BH

      Silvio Torres, eu também nunca tinha visto nada parecido. Acho que nem os que se uniram nos EUA para destruir Hiroshima  foram tão minudentes quanto os que estão dia-a-dia destruindo BH.

  5. maria rodrigues

    11 de maio de 2014 2:46 pm

    Os jornalistas pecaram na

    Os jornalistas pecaram na omissão porque o chantagista poderia ser pego e confessado seu crime. 

    A morte de Pedro Nava demonsta que é muito mais cômodo a pessoa abrir sua alma, e viver suas próprias circunstâncias. Ficar no armário nunca foi a melhor forma de viver, porque termina que a vida da pessoa não tem a qualidade esperada. 

    Fico bem contente quando sei que hoje em dia, mesmo ainda debaixo de muita opressão, os homossexuais estão sendo mais bem aceitos. A guerra prossegue, claro, porém já houve muitos ganhos.

  6. jc.pompeu

    11 de maio de 2014 7:56 pm

    seria interessante e elucidativo e denso se um zuenir ventura

    seria interessante e elucidativo e denso se um zuenir ventura a sangue frio, que levantou o silêncio dessa morte controversa em “minhas histórias dos outros”, conseguisse investigar e descobrir e ir atrás e ouvir a versão testemunhal (mesmo que em off ficcional), dessa história trágica de crime sexual ou talvez passional, da boca do garoto de programa beto (descobrir e seguir o fio da meada narrativo memorialístico a partir do nome-persona-métier e de suas relações e lugares pela cidade e pelo tempo…), o suspeito chantagista sexual do escritor nava.

  7. Jair Fonseca

    11 de maio de 2014 9:54 pm

    De Nava, só li

    De Nava, só li inteiramente Beira-Mar, sobre sua juventude na jovem cidade de Belo Horizonte, de 1921 a 1926. Lê-lo foi como conhecer o fantasma vivo de minha cidade morta, onde morei tanto tempo. A cada vez que volto, penso com os colegas que BH é desfigurada mais e mais. Sobre Beira-Mar, chamo a atenção já para o título poético e irônico, que antecipa sua mudança da capital mineira para o Rio de Janeiro. Segue o curta de Fernando Sabino e David Neves, sobre o escritor.

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=hzPL6AVLglY%5D

  8. André Oliveira

    12 de maio de 2014 9:34 pm

    Para Ricardo Setti, na época

    Para Ricardo Setti, na época da morte de Nava, redator-chefe da revista IstoÉ, em São Paulo, o que ficou desse episódio foi seu arrependimento de não ter lutado para que a história da suposta chantagem sofrida por Nava fosse publicada…..

    … Humberto Werneck, hoje colunista do Estado e também jornalista da IstoÉ, em São Paulo, naquele momento, conta que, no primeiro momento, foi a favor da omissão da violência que o escritor vinha recebendo. Mas mudou de opinião logo depois. “Se alguém se mata por causa de chantagem sexual, é obrigação da imprensa contar o que se passou, não só pelo dever de informar, mas também como forma de arejar os cômodos abafados da sociedade que favorecem a ação dos chantagistas.”

    Não deixo de me espantar com a hipocrisia da classe jornalística, pelo menos uma parte dela, quando tratam da vida privada. Eles se acham, pensam que têm o poder inquestionável sobre a intimidade de todos e chegam ao cúmulo de dizer que um escritor é um homem público. Tudo para legitimar a tese de que homem público não tem vida privada e de que a imprensa tem o dever de informar. 

    Não é por acaso que temos a imprensa que temos. Jogam sujo o tempo todo. Imagine a ampliação da dor da família na época se a imprensa tivesse tirado proveito dessa história para vender mais jornais.

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