4 de junho de 2026

A face oculta de Lolita

Sugerido por Tamára Baranov

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Da Revista Bula
 
 
Por Fred Navarro
 
Vladimir Nabokov, em “Lolita”, falsifica a realidade de uma forma tão espantosa, tão repleta de impactos sobre a consciência dos leitores, que a própria realidade posterior já não será a mesma depois da leitura paciente e atenta do romance
 
Na adolescência, não descansei até encontrar um exemplar do livro. Prometia boa leitura, era um clássico precoce, todo mundo dizia. E prometia erotismo, perversão, a história da relação de uma jovem com dois quarentões, um deles seu padrasto, entre outras promessas atraentes para quem tinha 14 anos e adorava os livros. Assim que coloquei as mãos nele, logo nas primeiras páginas, senti a dificuldade que teria pela frente. Pedreira. Devia ser bom, mas à primeira vista não parecia. Claro, ali havia um modo particular de contar uma história, o que os críticos, professores e metidos chamavam de estilo. Mas precisava ser tão criptografado? Tão cheio de arrodeios e meias-voltas para chegar ao ponto? Para contar a história com fluidez? 
 
Saberia depois dos problemas do autor com a censura imposta pelo puritanismo americano, o mais hipócrita do planeta ao lado dos países islâmicos. Saberia depois de muita coisa sobre o refinamento do livro e daquele russo esquisito que dominava igualmente o francês e o inglês, que decidira brincar com as palavras nos livros que escrevia, e não contar histórias, apesar de que elas estavam por ali, escanteadas, sem graça por trás de tanta exuberância estilística.

 
Bom, quanto ao erotismo, praticamente todos os livros que já tinha lido na vida, incluindo “Polyanna” e “Reinações de Narizinho”, tinham mais sensualidade latente do que em “Lolita”. Era um livro brilhante, mas moralista, assim achava o adolescente decepcionado. Saberia depois compreender mais coisas sobre o livro, quando o releu pela primeira vez cerca de dez anos depois. Na terceira leitura, entre os 30 e 40 anos, completou o quebra-cabeças. A qualidade daquele livro era a da literatura mais generosa e honesta feita pelo bicho-homem: a de falsificar a realidade de uma forma tão espantosa, tão repleta de impactos sobre a consciência dos leitores, que a própria realidade posterior já não será a mesma depois da leitura paciente e atenta do romance.
 
A personagem Lolita, assim como Alice, de Lewis Carroll, e Emma Bovary, de Gustave Flaubert, morava no inconsciente da humanidade. Em meados do século passado, com a revolução tecnológica anunciada pelo rádio e televisão, as revistas de moda, biquíni, pílula, liberação dos costumes, rock’n’roll, Elvis, os Beatles, os Stones, mais cedo ou mais tarde a questão da sexualidade de crianças e adolescentes, já enunciada em profundidade por Sigmund Freud e sua filha Anna desde a primeira metade do século, viria à tona. E não só: o movimento pacifista, os protestos contra a guerra do Vietnã, Woodstock, contracultura, panteras negras, Luther King, escritores beats, movimento beatnik, acesso das mulheres à arena política e ao comando de corporações, direito das crianças e adolescentes, avanço nas conquistas para as minorias, reconhecimentos dos direitos para casais homossexuais.
 
Fazer uma revolução de costumes, como a que ocorreu entre 1950 e 1980 no mundo ocidental, exige profetas que se antecipam ao que acontece. Suas antenas captam os movimentos antes de se apresentarem para as multidões. Coisa de artista. A Dolores Haze, Dolly, Lo ou Lolita de Vladimir Nabokov livrou posteriormente incontáveis adolescentes do assédio sexual graças ao “moralismo” da história, à punição exemplar sofrida pelo personagem masculino principal, o atormentado, ansioso e antipático viúvo Humbert Humbert, assim como não se dá nada bem o estranho e enigmático personagem Clare Quilty, o outro adulto que se envolve com a adolescente.
 
Recusado por diversas editoras americanas, quando saiu em 1955 por uma editora francesa especializada em publicar livros em inglês, o escândalo foi de alta voltagem. Lolita, a personagem, transformou-se de imediato num símbolo da revolução de costumes em curso. O autor não conseguia compreender o sucesso, logo ele que escrevia textos sofisticados, burilados ao extremo, peças de teatro, ensaios críticos, traduções para o russo e uma biografia de Nikolai Gógol. Nada menos “popular”. Seus livros não vendiam nada, ele vivia de traduções e com o salário de professor de língua e literatura russa nas aulas que dava em mais de uma universidade nos Estados Unidos.
 
“A ninfeta”, como afirma Vargas Llosa em “A Verdade das Mentiras” (Editora Arx), “não nasceu com o personagem de Nabokov. (…) No entanto, graças ao romance, perdeu seu semblante vago e se personificou, abandonou sua clandestinidade nervosa e ganhou direito de cidadania”. E complementa: “Hum­bert Humbert não é libertino nem sensual: é apenas obcecado. Sua história é escandalosa, antes de tudo, porque ele a sente e a apresenta assim, sublinhando, a cada passo, sua ‘demência’ e sua ‘monstruosidade’ (são suas palavras). É a consciência transgressora do protagonista que confere à sua aventura a índole malsã e moralmente inaceitável, mais que a idade da sua vítima (doze anos e sete meses), que, no final das contas, é apenas um ano mais jovem que a Julieta de Shakespeare”.
 
“Lolita” continua sendo um desafio para leitores de todas as idades. Quase sessenta anos depois de publicado, permanece como uma leitura difícil, que exige atenção redobrada. Por exemplo: por detrás do desdém e da visão negativa e mal-humorada de Humbert Humbert sobre tudo e sobre todos, há um painel vigoroso das contradições e mesmo aberrações da sociedade americana. Os meandros, os labirintos, a confusão proposital entre a realidade e a fantasia, entre os fatos e os delírios, entre a percepção e a paranoia, não são para amadores, como aquele adolescente de 14 anos que se achava bamba em literatura porque supunha ter alguma intimidade com Machado de Assis e Victor Hugo. Os grandes não se comparam, se somam. Nabokov é grande à sua maneira, próxima de Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Herman Hesse, para quem o texto também era um tabuleiro de xadrez onde peças se movem para contar uma história. Longe do romantismo e do classicismo explícitos do francês e do brasileiro.
 
A versão para o cinema de Stanley Kubrick (1962) é brilhante e colaborou para popularizar o livro, entre outros motivos por causa da atuação espantosa de James Mason como o atormentado viúvo e assassino confesso (o livro é escrito na primeira pessoa, enquanto Humbert Humbert espera o julgamento por um dos crimes que cometeu). Mas, como é usual acontecer com o diretor americano, ele fez uma leitura bem particular do romance ao adaptá-lo para a tela, suprimindo detalhes e diálogos, e realçando aspectos secundários inclusive para atender ao Código Hayes e aos padrões moralistas ainda vigentes nos Estados Unidos e na Europa no início dos anos 1960.
 
A revolução sexual que aconteceria logo depois já estava em curso, mas os censores ainda não sabiam.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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11 Comentários
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  1. Felipe Silva de Andrade

    23 de dezembro de 2013 5:54 pm

    Achei o livro assustador,

    Achei o livro assustador, muito triste. A infelicidade daquela menina, que foi chantageada, enganada e estuprada por um completo desconhecido, sem ter ninguém a quem recorrer, é terrível. O final então, nem se fala. Esse livro me marcou muito.

     

    1. Tamára Baranov

      23 de dezembro de 2013 10:03 pm

      ‘Lolita’ tem sido muito usado

      ‘Lolita’ tem sido muito usado como metáfora, com Humbert representando o formal, o educado Velho Mundo enquanto Lolita é a América, o amadurecimento, bonito, mas não muito brilhante e um pouco vulgar. Nabokov se deleita em explorar a relação entre essas culturas.

      Nabokov é erudito e espirituoso e Lolita continua a provocar a ira de pretensos censores.

  2. Jorge Nogueira Rebolla

    23 de dezembro de 2013 7:07 pm

    Que raciocínio vagabundo…

    Professores de meia idade f#%&@odendo sua alunas de 12, isto não é revolução sexual é PEDOFILIA! Quem tem essa visão de mundo não pode criticar os padres gays quando comem garotinhos… afinal estão apenas fazendo a sexualidade das crianças e adolescentes se manifestar sob as batinas dos coroinhas ou noviços, isto parece estar em linha com o progressismo… homoerotismo entre adultos e crianças sexualmente liberadas da opressão cultural ocidental…

    P.S. No tempo de Julieta a menina se tornava mulher após a menarca… é um traço cultural das sociedades primitivas… ainda hoje utilizado em muitos lugares do mundo para a consumação dos casamentos arranjados.

    P.S. 2 Vão à … a senhora e o autor do texto.

     

    1. evandro condé de lima

      24 de dezembro de 2013 1:48 pm

      Sociedade primitiva? Por

      Sociedade primitiva? Por favor, nos ilumine com sua sabedoria e nos mostre uma desenvolvida- evidentemente sem nenhum traço de primitivismo em qualquer área. Em tempo, só para esclarecer, banho diário ainda não é comum em o que chamaríamos sociedade avançada.

    2. Carlos Dias

      24 de dezembro de 2013 9:24 pm

      Quando a pessoa não entende nada,

      é complicado…

  3. Carlos Dias

    23 de dezembro de 2013 9:48 pm

    Vejo Poe em tudo ali

    Considero Lolita um livro bem escrito e interessante. A narrativa é muito pertinente e o livro não perde equilíbrio, apesar de algumas longas passagens soporíferas…

    No entanto, me parece que o autor ora subliminarmente, ora explicitamente, evoca  a obra de Poe. O próprio nome da personagem que narra a novela é claramente uma alusão a Whilian Wilson do famoso conto homônimo de Poe. O paralelo não se encerra ai.. Em Lolita, há uma verdadeira guerra travada entre os quarentões exibindo, em essência, a famosa rivalidade persecutória dos personagem do conto de Edgar Allan Poe.

    A narrativa em primeira pessoa, a riqueza de detalhes da ambientação, a forma compenetrada e crua com que a personagem narrador elabora as ideias são características da obra de Poe.

    Há uma passagem do livro Lolita (que não me recordo agora) em que Nabokov, brincando com o leitor, faz menção explícita a um texto de Poe.

    Há um conto de Poe que eu acho bastante interessante e, curiosamente atual; ” A máscara da morte escarlate” … Ao final de um suntuoso baile de máscaras (lembram dos bailes de máscaras de junho passado?), aparece um mascarado indesejável e que acaba com a festa. Creio que o desfecho do baile embalado pelos insensatos atuais será idêntico.

    1. Tamára Baranov

      23 de dezembro de 2013 10:43 pm

      O poema ‘Annabel Lee’ de Poe

      O poema ‘Annabel Lee’ de Poe foi inspiração para Nabokov escrever ‘Lolita’. A esposa de Poe, Virginia, é muitas vezes citada como sendo a inspiração para “Annabel Lee”. Poe e ela eram primos e se casaram quando Virginia tinha 13 anos e Poe 27 anos.

      O poema inicia-se assim: Foi há muitos e muitos anos atrás, / Em um reino à beira-mar,…

       

      Originalmente, Nabokov intitulou ‘Lolita’ como ‘O reino junto ao mar’.

      1. Carlos Dias

        24 de dezembro de 2013 9:22 pm

        Tamára, um Feliz Natal

        Cara Tamára, muito obrigado. Como leitor de Poe e imitador assumido, suspeitei desde o princípio, como diria o Chapolim rsrs

        Tudo em Lolita é muito Poe e embora eu desconhecesse a história do livro,, Nabokov deixa tudo tão evidente que é impossível passar despercebido esses elementos.

        Támara, gosto muito dos seus posts e aproveito a oportunidade pra fazer votos de um feliz natal, paz, saúde e alegrias num novo tempo cheio de realizações. Continue nos brindando com boa leitura, temas sempre muito interessantes e diversos.

        Um grande abraço deste seu amigo e admirador.

        1. Tamára Baranov

          3 de janeiro de 2014 9:21 am

          Muito obrigada Carlos, é um

          Muito obrigada Carlos, é um prazer enorme tê-lo como amigo. Aproveito para desejar-lhe, mesmo que tardio, mas sempre bem-vindo, os votos de um feliz ano 2014, que ele seja repleto de realizações e sucesso. 

          Um abraço carinhoso.

  4. Evandro Trigueiro Tavares

    23 de dezembro de 2013 11:22 pm

     
    Lolita talvez seja uma

     

    Lolita talvez seja uma metáfora sobre como os estadunidenses veem a si mesmos: castos e inocentes. Mas que à luz da cultura europeia (mais antiga e portanto… velhaca, na metáfora do narrador Humbert), mostra-se como realmente é, ou seja, corrompida e depravada.

  5. Selma Dezonne

    8 de abril de 2014 11:13 pm

     
    Nossa, chegamos ao campo

     

    Nossa, chegamos ao campo mágico da LITERATURA!

     

    Achei muito interessante a explanação do senhor Fred Navarro; de fato a percepção de um livro está diretamente ligada à nossas vivências pessoais e ao amadurecimento em diversas áreas. Mas, gostei ainda mais dos comentários gerados que reafirmam a teoria de Rolan Bartes sobre as lacunas do texto. Sem sombra de dúvidas, textos obscuros e polêmicos como os citados “Lolyta” , alguns de Poe e até alguns do realismo de Machado terão essa “temerosa” capacidade de enfrangalhar os nervos e revirar os miolos mortais. Cada um percebe e preenche às lacunas à sua maneira, percebe o que falta o que não foi dito segundo sua própria visão cultural e hisorioco-pessoal. Vejamos, fomos da política aos aspectos antropológicos num mesmo  texto; isso é simplesmente adorável. Me intriga pensar no que diria Nabokov sobre tudo isso se fosse possível… (Afinal, a pedra no caminho de Drummond, era apenas uma pedra).  Um brinde a todos os “pensadores”, pois os textos deixam seus autores ao serem publicados e passam a ser de cada leitor, ganhando assim particularidades, fator pelo qual Lolyta e outros textos fizeram e fazem sucesso até hoje.

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