5 de junho de 2026

As lições de rua nas libertinagens da poesia de Manuel Bandeira, por Gilberto Cruvinel

 As Pipas, de Cândido Portinari

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As lições de rua nas libertinagens da poesia de Manuel Bandeira

por Gilberto Cruvinel

A poesia de Manuel Bandeira dos seus primeiros livros (Cinza das Horas, Carnaval e até O Ritmo Dissoluto) é uma poesia marcada pela sua condição de menino ferido pelo “mau destino”, pela espera da morte, pelo dia a dia da doença que lhe ditava o ritmo e a disciplina rígida da vida. Bandeira contraiu tuberculose aos 18 anos, quando se preparava para ingressar na Escola Politécnica em São Paulo. De fato, “os primeiros poemas publicados em livro eram de velhice: desalento, desencanto, distância da vida, presença sufocante da morte.” Com o passar dos anos, a doença vai sendo vencida e Manuel vai se abrindo para a participação nos “tumultos do mundo”, na expressão de Ruy Espinheira Filho, “porque de fato o poeta caminhou da invalidez para a possibilidade de participar da vida, como se tivesse feito o caminho inverso: da velhice para a juventude”.

Bandeira morou em diversos bairros do Rio de Janeiro. O morro do Curvelo, no bairro de Santa Teresa, foi o local que lhe restituía de certo modo o clima de meninice da Rua da União em Pernambuco. As lições de rua foram fundamentais para o sucesso de suas libertinagens literárias, como ele afirma no livro “Itinerário de Pasárgada”: 

A Rua do Curvelo ensinou-me muitas coisas. (…) o elemento de humildade cotidiana que começou desde então a se fazer sentir em minha poesia não resultava de nenhuma intenção modernista. Resultou, muito simplesmente, do ambiente do morro do Curvelo.” 

Na crônica “A trinca do Curvelo”, Bandeira se recorda dos meninos que aí conhecera, “os piores malandros da terra”, cujo destino que se poderia prever seria trágico: “Pois nada disso”, concluírá ele ao final. Porque não, então? É o que se vai ler a seguir na crônica publicada no livro “Crônicas da província do Brasil”.

A trinca do Curvelo, por Manuel Bandeira

No baralho, a trinca são três cartas do mesmo valor. A semântica da molecada alargou o conteúdo da palavra e fê-la sinônima de baderna de bairro: a trinca do Curvelo, a trinca do Itapiru. É o conjunto da molecada do bairro, que a gente vê todas as horas batendo bola na rua, empinando pipas, estalando os tecos na buraca ( – “Busca!” – “Marraio!”), abatendo os pardais a bodoque… (Às vezes se atiram a distantes excursões donde regressam com uma jaca enorme. Nesses dias, é, na rua, jaca por todo o lado, uma orgia de jaca – enervante como todas as orgias.)

Mas há a trinca de rua: a trinca do Curvelo, por oposição à trinca do Cassiano. Se atendesse à nomenclatura atual, teria que dizer a trinca de Hermenegildo de Barros, o que soa tão engraçado como antítese, aproximando a mais alta magistratura togada desse mundozinho irresponsável dos piores malandros da terra…

Os piores malandros da terra. O microcosmo da política. Salvo o homicídio com premeditação, são capazes de tudo – até de partir as vidraças da minha janela! Mentir é com eles. Contar vantagem nem se fala. Valentes até na hora de fugir. A impressão que se tem é que ficando homens vão todos dar assassinos, jogadores, passadores de notas falsas… Pois nada disso. Acabam lutando pela vida, só com a saudade do único tempo em que foram verdadeiramente felizes.

Para muitos a luta começa como uma extensão da pagodeira da trinca. Vender os jornais da tarde, “xepar”, isto sim que é divertido, já sendo atividade de homem: – “A Noite! O Globo! O Diário! Qual é?”. Voltar às onze horas da noite para casa, trazendo cinco, seis, sete mil-réis. Sustentando a família com treze e quatorze anos… Mas no dia que traz só três mil e tanto é que vadiou. “Malandro! Te boto na Colônia!” Então é que começa a perceber que a vida não é brinquedo, como na trinca.

A trinca do Curvelo conta com exemplares interessantes. Primeiro que tudo conta com um Lenine autêntico. Uma tarde a polícia deu uma batida na residência do comunista Otávio Brandão, pondo em verdadeiro pé de guerra o minúsculo e pacato bairro do Curvelo. No entanto estava ela então, como ainda está hoje, longe de suspeitar da existência desse Lenine, cujo sonho mais caro é o comunismo integral. Tem sete anos apenas, mas já se considera um infame pequeno-burguês, só porque eu nunca quis lhe dar uma fita métrica de aço que um dia viu sobre a minha mesa. Toda vez que eu defendo, a propósito de um livro, de um canivete, de um isqueiro cobiçado por Lenine, o princípio da propriedade, Lenine brada com um “toque de mal” e vai se vingar na minha porta, contra a qual investe a pontapés e pedradas. O grito de guerra é: “Vou es… bodegar a sua porta!”.

A trinca não tem lá grande respeito por Lenine e volta e meia estão gritando: “Tatuí! Tatuí de areia!” O crioulinho José Antônio Bento Marinho, nove anos, inventou uma nova maneira muito sonsa de infernizar Lenine com o apelido detestado. Começa de longe a vocalizar feito sabiá: “Tuí, tuí, tuá, tuá! Tuí, tuí, tuá!” Até Lenine encontrar a primeira pedra…

Mas Lenine é a criança de peito da trinca. De Lenine até os “bambas” – o Zeca Mulato, o Encarnadinho, o Culó, o Piru Maluco, a trinca é rica em tipos bem diferenciados pelo físico, pela cor, pelo caráter. Ao mulatinho Ivan dei, como de direito, o cognome de Terrível. Batem à minha janela. – “Quem é?” – “Sou eu!” – “Eu quem?” – “Ivan” – “Que Ivan” “Ivan, o Terrível!” Foi assim que ensinei a me responder. Os outros fazem troça: – “Qual nada, seu Manuel Bandeira, é um marica. Não tem nenhum que não dê nele!” Quem falou assim foi o jovem Antenor, que eu prefiro chamar o antena Antenor: – “Quem é?” – “É o antena Antenor!” Há um Armando de Castro, que, naturalmente, é Castro Forte. Mas esse quase não é da trinca e até lê romances dessa tal baronesa que escreveu a Castelã não sei de onde.

A espécie ruivo-sardenta é representada na pessoa do Nelson, que parece neto de escocês. Na realidade é neto de uma velha preta, das antigas, opulentamente preta, colonial como a marquesa de Santos e o Convento Santo Antônio. Nunca me esquecerei do grand air * com que ela falou ao Álvaro no dia em que este bateu no Nelson. Não gritou, não fez escândalo. Falou com voz baiana, amável e gostosíssima: “Vai bater na bundinha da Mamãe… Vai…”. O Álvaro que tem resposta pra tudo e não respeita as caras, ficou inteiramente desnorteado, abestalhado, diante daquele insulto que parecia um afago, coisa tão nova que ele não entendia bem.

Este Álvaro estava habituado com a técnica materna, que é a da pancadaria sem sutilezas. A sova com o que está ao alcance da mão: correia, tamanco, pau de vassoura ou tranca de ferro. Um dia assisti a uma dessas execuções. Depois caçoei com o Álvaro. E ele, cínico: “Também eu tirei o corpo fora e ela deu com a mão na parede que chega destroncou o dedo!”

É assim. 

Tenho pena de não ver hoje na trinca o Panaco. Panaco era o Olavo, irmão desse Álvaro. Criado nu na rua. Uma saúde de ferro e já andava. Era a borboleta do Curvelo. Sarampo bateu nele. A mãe estava no emprego. Os irmãos entenderam de lavar o quarto. Panaco apanhou um resfriado, e lá se foi para a trinca dos anjinhos de Nosso Senhor!.

* Em francês, “nobreza”, “grandeza”.

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Nota: Este texto foi originalmente publicado na Revista Souza Cruz de novembro de 1932. O bairro carioca referido no texto é o de Santa Teresa, onde Bandeira morou por muitos anos. Itapiru, Hermenegildo de Barros e Curvelo (hoje Dias de Barros) são nomes de ruas, mas uma área do bairro é conhecida como Curvelo.

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Manuel Bandeira, “Crônicas da província do Brasil”, Organização, Posfácio e Notas de Julio Castañon Guimarães, São Paulo: Cosac Naify, 2006.

 

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1 Comentário
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  1. Maria Luisa

    16 de novembro de 2018 2:05 pm

    Eu faço versos…

    Um alento ler esses homens que de diversas maneiras edificaram aquele Brasil que amamos.

    [video:https://youtu.be/LECeilwf1D8%5D 

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