Até o último filme: o cinema como biografia do cinéfilo
por Alexandre Coslei
“…o cinéfilo é um medíocre. Um aparvalhado que dedica a vida à preguiça de não viver. Ou melhor, de viver, imaginar, projetar, mimetizar vidas alheias. Ele não se contenta com os personagens dos filmes. É um vampiro sequioso pela jugular dos que lhe cercam. O cinéfilo suga tudo. Quer saber dos atores por trás dos personagens, dos diretores por trás dos filmes, dos fotógrafos por trás das câmeras, dos figurinistas por trás do corte e costura das roupas. Seus caninos proeminentes são os olhos.” (Até o último Filme, e-book, pág.5)
O autor, um jornalista que também é cinéfilo e crítico experimentado, surpreende ao escapar da ansiedade do estreante literário, que sempre almeja escrever um romance. Ricardo Cota classifica a sua obra no gênero novela. Não somente surpreende, é um detalhe que nos atiça a curiosidade. Não irei me atrever a dissecar “Até o último Filme” pelos elementos que formam a sua construção, não irei apontar as vigas da sua arquitetura, mas irei expor as viagens reflexivas que o livro me provocou.
Logo no princípio do texto, discorrendo sobre as vantagens da Smart TV e do streaming, o narrador se pergunta: “por que ainda ir ao cinema?”. Um apelo nostálgico — ele supõe. O cinema é parte vital da formação intelectual e humana da minha geração, gente nascida pelos anos 60 e que ainda está aí, em plena atividade, talvez sentindo nostalgia de tudo. Não somos uma geração que simplesmente acompanhou as transformações promovidas pelo tempo, fomos vítimas de um salto, de um corte abrupto entre um século e outro, patrocinado por um avanço tecnológico frio e vertiginoso. Não à toa, a nostalgia em nós é patológica.
O cinema foi, para muitos, a fuga, o consolo e a libertação da realidade que volta e meia nos oprime. Diferente dos livros, mesmo que frequentemente se origine deles, em uma sala de cinema bastava que nos sentássemos, mantivéssemos os olhos abertos aguardando a única luz no ambiente escuro e o projetor faria o resto sem nos exigir esforço, exibindo a história visual que nos envolveria como as águas de uma piscina para ficar impressa em nossa memória.
Lembro-me de muitas vezes entrar no Cinema Carioca, na icônica Praça Saenz Peña, e enxergar toda aquela grandeza arquitetônica como um templo. Da mesma forma que o narrador, jamais abandonei a devoção quase sagrada pelo cinema, pelos filmes.
“O escape pela arte lhe dava um certo conforto, sobretudo à noite, quando furava o bloqueio da escuridão com uma pequena lanterna a iluminar o percorrer aflito das páginas das invenções alheias.” (e-book, pág.15)
A beleza incandescente, aliada à inegável verdade que há nesse trecho do livro, é motivo mais do que suficiente para desejarmos devorar as tantas páginas que nos traduzem enquanto traduzem também o narrador. Eu devorei.
Ricardo Cota — o autor — vai muito além de nos oferecer uma novela. Pelas narrativas do seu protagonista, ele decanta e desvela, em cada nova página, o mistério e a paixão que o cinema exerce sobre as nossas vidas. É através dessa chama, dessa veneração que beira o inexplicável, que as nossas biografias se entrelaçam com as imagens intangíveis que se sucedem na tela imensa que nos abraça.
“De certa forma, o invejava. Ele havia sido radical na determinação de viver a vida dos outros, preenchendo, assim, o vazio da própria.” (e-book, pág.35)
A tarefa do crítico de cinema sempre me pareceu penosa, pois cabe a ele o ofício de se descolar da poderosíssima sedução do roteiro e das imagens para conseguir compor a visão técnica que conceituará a qualidade da película, conceito que nem sempre encontrará eco no público que se deixa seduzir. Somente um crítico treinado pelo tempo, pelo estudo e pela prática seria capaz de nos apresentar a um livro como “Até o último Filme”.
“O crítico tem uma história que justifica essa admiração e que não é pautada por ideologia, mas por vivência (…) passei a admirar o histórico do crítico, guardando o deboche no saco”. (e-book, pág.47)
No período apocalíptico da pandemia, as salas tão cultuadas pelos cinéfilos se apagaram no silêncio. Os filmes, porém, nos salvaram insanidade do isolamento e do medo. A esperta Smart TV foi nossa âncora e nossa boia, mas os filmes continuaram a ser o oxigênio que nos preservaria vivos em outras vidas, em outros enredos.
“Por conta do deslocamento, a cinefilia já foi um ato libertário, um impulso a nos projetar para fora da mesmice, em uma rota de fuga do cotidiano sem romance, sem guerras especiais, sem preto e branco, sem brilho” (e-book, pág.5)
Em “Até o último Filme” confirmamos uma ideia que, provavelmente, habita a nossa inconsciência. O cinema nos movia, nos tirava de casa, nos inseria no coletivo de espaços gigantescos. O cinema era motivação. A tecnologia, no entanto, avança para nos tornar inertes na solidão da existência virtual.
Pelas palavras do seu narrador voluntarioso, pelo conhecimento do sábio amigo Cardozo, pelas incursões furtivas do tio-avô, Ricardo Cota termina por nos dedicar uma obra originalíssima que faz da literatura uma reverência ao cinema. Cheguei até ao último filme radiante, tentando decodificar o facho de emoções que a leitura me despertou.
Neste século 21, em que as salas de cinema lutam contra a ameaça de extinção, tive a certeza de que li um livro marcante, que sobreviverá ao imenso oceano dos livros que passam.
Título: Até o último filme
Autor: Ricardo Cota
Editora: Viseu
Ano: 2023
Alexandre Coslei, jornalista e escritor
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