Bernstein e Nureyev bebiam vinho no lobby do Dakota quando John Lennon foi morto

Por Sebastião Nunes

Não, não adiantava. Por mais cosmopolita que parecesse, por mais fulgurante que se oferecesse aos olhos do mundo, Nova Iorque não passava de uma cidade provinciana. Não era como Paris, em que gente importante era desprezada na rua. Ou como Hollywood, em que artistas famosos matavam um leão todo santo dia para permanecer na crista da onda. Faziam isso ou afundavam na vala comum, iam para a sarjeta da fama, morriam como indigentes.

            Homossexuais convictos, Leonard e Rudolf não estavam nem aí para as regras do jogo burguês. Artistas conscienciosos, bons amigos, tinham por hábito se encontrar toda noite no amplo vestíbulo do Edifício Dakota, onde dispunham de luxuosos apartamentos, e degustar uma taça de vinho, servido por Jean-Paul, o garçom senegalês, esbelto negro de olhos verdes e pestanas sedosas, pelo qual ambos eram apaixonados. E Jean-Paul sabia.

            – Hoje me chamaram de bicha duas vezes e de veado três – disse o maestro, provando a bebida translúcida. – Aposto que fui mais elogiado do que você.

            – Perdeu – disse o bailarino, soltando uma gargalhada. – Ganhei três bichas e quatro veados, e olhe que andei menos de meia hora a pé no Central Park.

            Eram 22h45, oito de dezembro de 1980. Sentados em amplas poltronas, de frente para a enorme lareira e de costas para a rua, sentiam-se felizes com a vida, com o sucesso, com a grana fácil, com a opção sexual, com o frio e com o vinho, que aqueciam levemente na palma das mãos. Só até ficar palatável.

            Olharam-se com simpatia. Leonard tinha 62 anos e Rudolf 42, mas a diferença de idade não incomodava. Eram bastante maduros para se situarem com segurança no mundo. Admiravam-se mutuamente pelo talento, pelo vigor artístico, pelo bom gosto, pela disciplina, mas, principalmente, pela ojeriza ao que chamavam de politicamente correto: leis e normas ultrapassadas, padrões fossilizados na linguagem, na vida e no comportamento. Adoravam palavrões e paradoxos e non sense e garotos bonitos. Principalmente garotos bonitos.

 

DO LADO DE FORA

            Um rapaz gorducho, aparentando 25 anos, andava lentamente pela calçada, do outro lado da Rua 72, esquina de Central Park Oeste, em frente ao imponente Edifício Dakota, esfregando as mãos para se aquecer. O termômetro marcava 260 negativos. Parou e, protegendo a chama com as mãos, acendeu com dificuldade um cigarro comprido, que tragou com avidez. Notou, ao soltar a fumaça, que ela formava volutas esbranquiçadas, pequenas cobras de ar quente, contorcendo-se na noite escura. Divertiu-se com aquilo. Depois voltou a andar, o cigarro na boca e as mãos nos bolsos do pesado sobretudo.

 

DO LADO DE DENTRO

            – Acho incrível tanto preconceito babaca – ponderou Leonard. – Não que eu me importe pessoalmente. Mas as feministas seguem furiosas com as agressões diárias contra mulheres que assumem. O mínimo que escutam é – “Sapatão!”, “Fanchona!”, e tome cusparada. E acontece aqui mesmo, em Manhattan. Mesmo depois de toda aquela efervescência: Elvis, minissaia, Ginsberg, Cage, McLuhan, Dylan, Beatles, Woodstock. Se aqui é assim, imagine nas cidades médias e pequenas desta merda de país.

            – Todo dia agradeço a meu amigo Teja Kremke – disse Nureyev –, que me alertou sobre os riscos de permanecer na Rússia. Tivemos seis meses de um amor lindo e tórrido, doce e insaciável. Quando ele deveria me encontrar na França – que puta azar! –, construíram de repente o muro de Berlim, e ele ficou trancafiado na Alemanha comunista. Apesar de tudo, mesmo com todo o preconceito dos góis em relação a judeus, negros, latinos e nós, com nossas preferências sexuais ofensivas a eles, prefiro estar aqui.

            – Compreendo o que você deve ter sofrido – disse Leonard. – Como se diz, o primeiro amor a gente nunca esquece. Sei como se sentiu, e ainda bem que deu a volta por cima.

            – Sim, nos primeiros anos foi duro, muito duro, eu era muito novo. Eu não esquecia Teja e me exercitava na dança como um animal, gastando toda a energia represada. Até me curar com o tempo. Mas não o esqueço, nunca esqueci.

            – Sou mais pragmático, você sabe. Casei porque prefiro estar casado, porque gosto das mulheres emocionalmente, gosto de sua companhia e delicadeza, embora sexualmente prefira os homens. E também gosto que todos saibam disso, até minha mulher.

 

DO LADO DE FORA

            Primeiro apareceu, como um fantasma à luz difusa da rua, uma japonesa magra de cabelos pretos compridos e olhos inquietos. Em seguida, ao lado dela, um homem magro e pálido, de longos cabelos louros, parecendo cansado. Lado a lado seguiram em direção à entrada do Dakota. O rapaz gorducho se aproximou:

            – Mr. Lennon? – perguntou.

            – Sim – disse John, com um sorriso amistoso, voltando-se para o rapaz gorducho.

            – Hoje de tarde você autografou um disco pra mim.

            – Ah, sim? – fez John, que não se lembrava.

            Então, sem pressa nenhuma, o rapaz gorducho empunhou o 38 e disparou o primeiro tiro. Yoko parou, de boca aberta e olhos arregalados. John se virou e correu para dentro do edifício. Recebeu mais quatro balas pelas costas e caiu na entrada do prédio.

 

DO LADO DE DENTRO

            – Esta cidade nem chega a ser violenta – disse Leonard, bebericando seu vinho. – Claro que existem ofensas verbais, agressões físicas, manifestações de ódio. Mas me pergunto se não é a mesma coisa no mundo inteiro. Talvez seja. Talvez seja próprio do homem.

            – Concordo – disse Nureyev, imitando o gesto de Leonard. O vinho estava ótimo e ele aspirou o perfume. – Aqui, na Rússia, na Alemanha, na França, acho que em toda parte existem os mesmos sentimentos difusos, os mesmos preconceitos. Raramente algum ato real de violência gratuita acontece. E será que existe violência gratuita? Toda violência não será resposta a uma provocação? Toda violência não ficará latente até explodir?

            – Acho que não, meu caro. Existe muita maldade sedimentada no coração humano. E muito egoísmo. E muito prazer em ver sangue, em provocar dor. Há muita maldade real, gratuita, por puro prazer. Ah, e muita loucura também.

            – Pode ser. Eu preferia que não fosse assim. Preferia que a palavra arte tivesse mais poder do que tem. Música. Dança. Literatura. Teatro. Cinema. Por que as pessoas não podem ser mais ligadas à liberdade artística e menos à pressão da violência?

            – Penso muito sobre isso, Rudolf – disse Leonard. – Penso muito mesmo. Quem sabe um dia o mundo se tornará diferente? Pelo menos um pouco diferente?

 

NA ENTRADA DO PRÉDIO

            John Lennon agonizava. Muito sangue saía em golfadas de sua boca e do peito. John Hastings, o porteiro, veio correndo e tentou estancar o sangue, mas desistiu. Yoko, amparada por um policial, soluçava. Sentado na calçada, fumando outro cigarro, o rapaz gorducho começou a ler “O apanhador no campo de centeio”, de Salinger, livro que, conforme declarou mais tarde, foi uma de suas inspirações.

 

FIM DE PAPO NO LOBBY

            Ainda sentado em sua ampla poltrona, Leonard olhou com desgosto para trás.

            – Mais um bêbado invadiu nossa casa, meu amigo – disse ele. – Não dá mais pra ficar em paz nesta merda de cidade grande e careta.

            Rudolf olhou também.

            – É. O porteiro e a polícia estão tentando levantar e expulsar o cara. Mas o que será que aquela japonesa está fazendo ali?

            – Não sei nem quero saber – explodiu Leonard. – Acho melhor a gente ir para a cama. Boa noite, Rudolf.

            – Boa noite, Leonard.

            Então os dois artistas se levantaram e, sem olhar de novo para trás, foram dormir.

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