Esperança e desesperança num lamento de despedida
por Sebastião Nunes
– Não existem seis milhões de mortos – disse Luís Gonzaga Vieira, o filósofo existencialista. – Existem seis milhões de indivíduos que morrem sua morte particular, única, irrepetível, intransferível. A diferença parece sutil para quem está vivo e gosta de estatística, mas uma diferença monstruosa separa a morte de cada indivíduo das mortes estatísticas. Todos os pensadores humanistas basearam seu desencanto e seus temores na dor desse indivíduo particular e único, ou multiplicado em chacinas e genocídios.
Fez-se um silêncio aterrorizador. O sopro da morte soprou um vento gelado na nuca dos imortais-mortais-imortais, que sentiram as veias gelarem e os cabelos eriçarem de pavor.
Jair Messias continuava imerso no pântano de merda, agitando em desespero braços e pernas, tentando implorar ajuda, mas nem ao menos podia abrir a boca.
– Mesmo Bolsonaro é um exemplar humano único – continuou Vieira. – Ainda que seja desprezível e que participe da escória humana, a despeito de sua absoluta falta de empatia, não deixa e não deixará, até a sua morte, quando se desintegrará no nada absoluto, de ser um indivíduo dotado de consciência, a despeito de sua maldade inata.
Janis Joplin entoou um lamento modulado, o mais triste lamento que já se ouviu.
Otávio Ramos se adiantou lentamente e, extraindo de um bolso inexistente uma folha de papel, começou a ler, como se cantasse uma elegia.
E o que leu, como se cantasse, foi o seguinte.
JOÃO
“Perdi meu filho, em janeiro de 2001, depois de uma longa (ou curta?) agonia de quatro meses.”
“Morreu devido a dezenas de tumores cancerígenos que se espalharam pelo seu cérebro, conforme indicou o exame de ressonância magnética e a opinião médica especializada. Mas nunca conheceremos a real natureza do mal, porque enquanto ele esteve lúcido – e esteve lúcido ate quatro horas antes de expirar – recusou-se terminantemente a submeter-se a uma biópsia ou a qualquer outro tipo de exame que ocasionasse a invasão de seu crânio por instrumentos cirúrgicos. Recusou-se, também, a se internar em qualquer hospital.”
“Respeitamos sua vontade até o fim.”
“Os primeiros sintomas da doença se mostraram um ano e meio antes da morte. Corajosamente, talvez adivinhando o fim iminente, ele se mandou, sumiu, para, quem sabe, fazer como os elefantes velhos, que se isolam da manada para morrer sós.”
“Depois de meses sem notícias, fomos descobri-lo na Costa Rica, aquele pequeno país centro- americano situado entre o Panamá e a Nicarágua, numa localidade de nome Pacha Mama.”
“Finalmente, conseguimos convencê-lo a voltar a Belo Horizonte e, a partir daí, começou sua decadência física irreversível.”
“Primeiramente, perdeu a visão dos dois olhos. Depois, a capacidade de se locomover. Às vezes, tinha alucinações.”
“Morreu aos 26 anos, magro, exaurido, mais esquelético do que a imagem de judeus sobreviventes em campos de concentração nazistas.”
“Pode-se dizer que seu enterro foi uma cerimônia bonita.”
“O vazio causado por sua falta jamais será preenchido e, enquanto o tempo não se encarregar de dissipar o fantasma de meu filho nas brumas da memória, a lembrança de sua vida soará no coração ora como tortura, ora como salvação.”
“Embora eu saiba que a dor é, intrinsecamente, uma experiência pessoal e subjetiva, por uma questão de sobrevivência psicológica e emocional, posso, mesmo que em vão, tentar, de público, transcender a morte pela literatura.”
“Tentar tornar ‘suave meu tormento; doce, minha amargura; agradáveis minhas penas; aprazível, a minha tristeza’.”
Otávio se calou, voltando a guardar o papel no bolso inexistente.
O SILÊNCIO DOS ESPAÇOS INFINITOS
Os imortais-mortais-imortais ficaram em silêncio. Também em silêncio, Sancho Pança abriu seus alforjes, oferecendo doses de sonho e maravilha e deslumbramento a todos os amigos, exceto, é claro, a Jair Messias, que não era amigo de ninguém, e continuava a se debater, cada vez mais desesperado, no pântano de urina e merda.
Nota explicativa:
Otávio Ramos, um escritor tão importante quanto desconhecido, nasceu em 25 de maio de 1949 e morreu sozinho e de causas desconhecidas em sua casa, na noite de 23 de setembro de 2005, aos 56 anos, apenas quatro depois da morte de João.
O texto desta carta me foi enviado num e-mail por Jaime Prado Gouvêa, diretor do Suplemento Literário de Minas Gerais, explicando que o recebera de nosso amigo comum Régis Gonçalves. Desconheço a fonte original.
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