Gêneros na língua

Enviado por Edson Marcon

Sobre questões de gênero na língua portuguesa, e os exageros do “politicamente correto”

Do Ciência Hoje

Meninxs, eu vi!

Por Sírio Possenti                         

Do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas

Meninxs, eu vi!

A pretexto de incluir todos os gêneros, o colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro, passou a adotar, em comunicados oficiais, uma grafia que elimina Os e As em palavras como “alunos” e “alunas”, substituindo essas letras por X: “alunxs”. A opção faz parte de uma pletora de casos em que se pretende corrigir aspectos da língua e de textos, supostamente por serem ofensivos, excludentes ou inexatos. 

Na categoria nos inexatos está, por exemplo, a intervenção (basicamente da Rede Globo, mas que pegou) visando corrigir a expressão “risco de vida” por “risco de morte”. A ideia é que risco para a vida não é risco de vida, que significaria risco de viver. 

A análise da expressão, sem considerar seu domínio semântico mais amplo, corre o risco de ser falsa. No mínimo, deveriam ser levadas em conta construções como “arriscar a vida”, que significa ‘correr risco de perder a vida’ (análoga a “arriscar o salário nos cavalos”, que significa, evidentemente, ‘correr risco de perder o salário…’). É o que se pode ver nos bons dicionários (Houaiss registra “arriscar: expor a risco ou perigo”) e mesmo em outras línguas (como risquer la vie, em francês, cf. Petit Larousse). Em suma: ninguém arrisca a morte, ninguém arrisca perder o que não tem. Por isso, só se corre risco de vida. 

Leia também:  Razão ou glória? Confetes não servem para nada, por Neemias Almeida

Outras correções são tão ou mais bobas que esta. Por exemplo, “quem tem boca vaia Roma”, por “vai a Roma”; “batatinha quando nasce, põe a rama pelo chão” por “se esparrama pelo chão”; “matar a cobra mostrar a cobra”, em vez de “mostrar o pau” etc.

Sabe-se que as línguas mudam. Em geral, fazem isso seguindo forças mais ou menos ‘ocultas’. Políticas linguísticas dificilmente interferem em questões como o sentido das palavras ou de textos, pequenos ou grandes. Elas podem registrar, inibir ou incentivar. Mas não criam nem desfazem fatos.

Os casos acima mencionados podem ser considerados, além de tudo, erros de análise. Provérbios não são literais: “quem tem boca vai a Roma” significa que, perguntando, pode-se chegar a qualquer lugar (não se trata de boca, mas de fala, nem de Roma, mas de qualquer lugar).

Questão de gênero

A norma do colégio D. Pedro II é do mesmo tipo: propõe uma escrita artificial (não foi inventada no colégio) que evitaria discriminação. A solução tem vários problemas, a despeito das boas intenções – o inferno, como se sabe… 

A primeira questão, obviamente, é como ler estas palavras (nem preciso explicar o problema). Ou se quer que sejam apenas vistas ou lidas em voz baixa (como alun@s)?

Já o problema de fundo é a própria questão de gênero, ou seja, a relação biunívoca que haveria entre gênero gramatical e gênero social (o antigo sexo). É fácil ver que nem sempre esta relação se mantém. ‘Lua’, ‘cisterna’, ‘arte’, ‘galho’, ‘intelecto’, e acho que também ‘anjo’, nada têm nada a ver com sexo. A questão só se torna potencialmente problemática quando se trata de humanos. Mas considere ‘criança’…

No entanto, animais podem servir como passagem de um extremo a outro. Quando dizemos “bois”, discriminamos as vacas? É sexismo falar ‘dos’ tigres de Bengala e ‘dos’ ursos polares? Acho complicado. 

Leia também:  Mais nove vidas perdidas…, por Dora Incontri

É comum que se fale de animais genericamente por meio da palavra gramaticalmente masculina: (carne de) porco, (asa de) frango, (costela de) boi etc.

Quando se trata de humanos (as mulheres são humanas, nesta versão do politicamente correto?), em certa medida, a questão é a mesma: a palavra gramaticalmente masculina designa o gênero (no sentido relacionado a espécie); a palavra feminina designa uma parte, uma parte específica. “Os alunos devem…” refere-se a todos os discentes; “as alunas devem”, só às discentes do sexo feminino. O problema não são as formas “alunos” e “alunas”, mas o que se diz que devem…

Uma coisa é lutar para que certas palavras marcadas negativamente sejam trocadas por outras, mais amigáveis. Outra é querer resolver o problema no interior da gramática. 

Palavras marcam certas culturas. Eventualmente, culturas definem seu gênero: ‘arte’ é feminino em português (a arte), masculino em espanhol (el arte). Não é fácil sustentar que, em um caso, se trata de feminino ou de masculino para além do gênero gramatical. É um fato neutro, provavelmente, quanto a qualquer laivo de sexismo.

Mas a tese a ser levada em conta é a de John Martin. Se o leitor digitar o nome do linguista e a palavra “gênero”, encontrará seu célebre (entre alguns linguistas) artigo (http://people.ufpr.br/~borges/publicacoes/notaveis/Genero.pdf ) chamado justamente “Gênero?” . Tem quatro páginas e deveria provocar uma revolução. 

Sua tese é que não há masculino e feminino em português, mas apenas palavras marcadas e não marcadas quanto ao gênero. O que impressiona em sua breve e certeira argumentação é que se usam formas masculinas tanto relacionadas a nomes não femininos (“Pedro é alto”) quanto em todos os casos em que não há nome com o qual relacionar, por exemplo, um predicado: 

Leia também:  A moça do Freud, 2 - por Romério Rômulo

“navegar é preciso” (nunca ‘precisa’)

“aqui faz frio” (nunca ‘fria’) 

“aqui é bom” (nunca ‘boa’)

Que não se diga que “navegar” é masculino. Por favor. Uma boa causa, como o feminismo e a igualdade de gêneros, merece argumentos melhores.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

16 comentários

  1. Estamos embarcando na nau dos

    Estamos embarcando na nau dos insensatos. Conseguiram algo pior ainda do que o aluno/a: alunx. Ora, sempre o masculino compreendeu o universo, sem qualquer conotação de superioridade, e sim apenas por convenção, por simplicidade. Quando se diz “o homem sente falta da religião”, obviamente se refere à humanidade toda e nada há de discriminatório. Sempre existem, entretanto, os cegos seguidores do chamado “politicamente correto”, alguns por ignorância, outros por convicção, outros ainda por mera demagogia (basta ouvir discurso de qualquer político rastaquera).

    Abolir o “risco de vida” é outra bobagem sem nexo. Diz-se “arriscar a vida escalando montanhas” no sentido de pô-la sob ameaça. Alguém diria “arriscar a morte…”?

  2. Velha história

    Parece a velha máxima de culpar o mensageiro pela mensagem. Vendo um aluno de aparência masculina, seria normal o professor chamá-lo de aluno; achar que o professor é um opressor machista por causa de utilizar uma letra diferente é algo digno de filme surrealista.

    Uma pessoa que se ofender por conta de uma única letra certamente precisa de tratamento psicológico.

  3. Frescura

    Toda e qualquer língua natural, ie, língua falada pelo homem (epa, epa, epa !!!) é ambígua. Ninguém tem a menor dúvida de que a frase anterior se refere à humanidade, que não exclui a mulher. Sem ambiguidade não há poesia nem humor.

    Não admito que idiota algum (ou será algux?) do Pedro II me venha com frescuras sexualoides desse tipo para cima de MINHA língua.

    Inexistência de ambiguidade é requisito de linguagem de programação de computador. O resto é falta do que fazer.

     

    • língua e gênero

      Não admito que idiota algum (ou será algux?) do Pedro II me venha com frescuras sexualoides desse tipo para cima de MINHA língua.

       

      A SUA língua você coloca no gênero que quiser….

  4. É preciso estabelecer um

    É preciso estabelecer um sistema de proteção social aos advérbios, pois essas minorias sintáticas sofrem toda sorte de violência nos portais de “lingua brasileira”. Afinal, uma vez que o acordo ortográfico não pegou, porquê não mudamos nossa língua para “Brasileira” logo? E que se a respeite um pouquinho.

  5. Interessante

    Será que quem teve a idéia seria capaz de assumi-la e justificá-la? Pelo menos teríamos um intelocutor.

  6. De fato, políticas

    De fato, políticas linguísticas não “criam nem desfazem fatos”. Mas podem servir para problematizar a ordem do discurso sobre o mundo.

    Afinal de contas, se o “X”  fizer a garotada do Pedro II pensar por que o termo “homem” pode, dependendo do caso, englobar o termo “mulher” e o termo “mulher” não pode nunca englobar o termo “homem”, ótimo. Mais: se a garotada conseguir relacionar essa questão, tão trivial, à construção social, histórica e simbólica da diferença masculino/feminino, melhor ainda. E se isso servir para questionar as hierarquias nas relações de gênero – da língua à sociedade que nela se expressa – tanto melhor.

     

     

     

  7. o risco é de morrer

    Sintaticamente, a expressão correta seria “não corre risco de morrer”. Parece-me que ninguém tem coragem (?) para se expressar corretamente? Corro o risco de morrer (de rir). A língua portuguesa passa pela mesma degradação que o latim passou para se transformar em línguas românicas. Temos a preposição para encher linguiça, já que muitos professores de Português não sabem consultar o dicionário. E se sabem, por quê não ensinam os alunos a fazê-lo proficientemente?

     

  8. Em ambientes escolares e

    Em ambientes escolares e outros que devem ser inclusivos o uso do genero que se supõe descritivo pode se tornar normativo, as coisas e atividades assumem a forma do que é exclusivamente de um ou de outro genero incluindo a participaçāo das pessoas nessas coisas ou atividades, o que facilita a exclusão e a diminuição do aprendizado apoiado na linguagem.

  9. Por que não usar a palavra

    Por que não usar a palavra Estudante para evitar esse trololo de alunx ?

    É uma palavra existente na lingua portuguesa e valida para os 2 generos (o Estudante / a Estudante).

    Querer complicar coisas simples, para mim, é apenas para aparecer mais que os outros…

     

    [ ]´s

  10. *

    França lança manual para combater machismo na linguagem

    RFI

    http://www.brasil.rfi.fr/geral/20151113-franca-lanca-manual-para-combater-machismo-na-linguagem

     

    Leticia Constant

    O machismo está tão encravado na linguagem que a maioria das pessoas utiliza termos e palavras sem mesmo perceber que relegam as mulheres ao segundo plano ou simplesmente as desrespeitam. O Alto Conselho para a Igualdade entre os Sexos decidiu combater o problema através de um manual, destinado aos funcionários públicos da França.

    Refletindo que os funcionários públicos estão entre as profissões que mais entram em contato com a população, e com as mulheres, o organismo do Estado francês destinado a combater a desigualdade teve uma ideia: elaborar um manual que oriente os funcionários a se comunicar com o público feminino sem usar estereótipos sexistas.

    A iniciativa é uma continuação das políticas de igualdade que começaram com o governo socialista de Lionel Jospin que, em 1998, publicou um primeiro guia com as profissões, títulos e cargos no feminino; no ano passado foi votada a lei contra a desigualdade que luta contra os estereótipos e, nesse contexto, o guia foi criado.

    Tudo começou na Idade Média…

    Gaelle Abily, realizadora do manual , explica que os nomes femininos das profissões eram comumente empregados na Idade Média: “Na verdade, as palavras não foram reiventadas. O uso do feminino na língua francesa existia até o século XVII. Empregava-se sem problemas as palavras poeta e poetisa, doceiro e doceira, prefeito e prefeita que, em francês, são usadas no masculino atualmente. Mas no século XVII, os homens decidiram que o masculino era mais nobre, devia se sobrepor ao feminino e ser usado de forma permanente. Foi assim que, pouco a pouco, o masculino passou a ocupar uma função neutra na língua, servindo também para o feminino. Foi uma escolha política, já que na época os homens eram contra a igualdade dos sexos, e impuseram o uso das palavras masculinas de forma dominante na língua francesa”.

    Um dos exemplos mais comuns, não só na França mas também no Brasil, é reconhecer o poder do cargo de uma mulher, como explica Gaelle: “Sim, um exemplo que se repete é o uso de ‘Senhora Presidenta;, aconteceu recentemente na Assembleia Nacional o caso de um político que se recusou a utilizar o feminino referindo-se a uma chefe de Estado, preferindo dizer ‘Senhora Presidente’. Essas atitudes não revelam uma falta de conhecimento do idioma francês, mas uma resistência em relação à palavra feminina, e nós estamos em 2015, não é mais possível tolerar essa atitude. Quanto mais o uso for aplicado, menos haverá resistência e isso não tira nada dos homens nem das mulheres,  ao contrário, demonstra que as mulheres podem exercer todas as funções e esse é combate atual”, observa Gaelle Abily.

    Presidenta: cargo tem gênero

    Esse combate não é só na França que, por sinal, nunca teve uma presidenta, mas também no Brasil, como lembra a escritora e pesquisadora Leusa Araújo. “A língua não é machista, como diz o professor Marcos Bagno, autor do livro “Preconceito Linguístico”. Ele sempre lembra que a língua não é machista porque a língua não existe, o que existe são pessoas de carne e osso, falantes da língua. E são essas pessoas de carne e osso que jogam uma conotação histórica que reflete o machismo no Brasil e em outros países também. Todo mundo gosta de citar o caso da presidenta Dilma que mesmo pedindo que a imprensa a tratasse de presidenta, pela novidade, inclusive, pela possibilidade que a língua dá de colocar no gênero, de flexionar, a mídia teve uma recusa, como se o cargo fosse neutro, e a gente sabe que não é”, reflete a escritora.

     

  11. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome